Policia Judiciária No Estado Democrático De Direito
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Policia Judiciária No Estado Democrático De Direito


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procedimento. O Estado, por meio da Polícia, exerce um dos poucos poderes de autodefesa que lhe é reservado na esfera de repressão ao crime, preparando a apresentação em juízo da pretensão punitiva que na ação penal será deduzida através da acusação. O seu caráter inquisitivo é, por isso mesmo, evidente. A polícia investiga o crime para que o Estado possa ingressar em juízo, e não para resolver uma lide, dando a cada qual o que é seu\u201d. (MARQUES, 1997, p.149).
O sigilo no Inquérito não é absoluto, pois a Constituição Federal no art. 5º, inc. XXXIII, o limita. O mesmo também não se impõe quanto ao Ministério Público, nem à autoridade judiciária. Predomina no Inquérito Policial, ainda, o caráter Inquisitivo em que as atividades persecutórias concentram-se nas mãos de uma única autoridade, a qual, por isso, prescinde, para a sua atuação, da provocação de qualquer um, podendo e devendo agir de ofício, empreendendo, com discricionariedade, as atividades necessárias ao esclarecimento do crime e da sua autoria. Ele é secreto e escrito, e não se aplicam os princípios do contraditório e da ampla defesa, pois, se não há acusação, não há falar de defesa. Nesse sentido é o magistério de Mirabete (2002, p.113):
\u201cA inaplicabilidade da garantia do contraditório ao procedimento de investigação policial tem sido reconhecida tanto pela doutrina quanto pela jurisprudência dos tribunais, cujo magistério tem acentuado que a garantia da ampla defesa traduz elemento essencial e exclusivo da persecução penal\u201d.
Para Capez (2005), quanto ao valor probatório o IP tem conteúdo informativo que serve ao Ministério Público e ao ofendido. Os vícios do IP não geram a nulidade da Ação Penal, pode, todavia, gerar a invalidade de e a ineficácia do ato inquinado, do Auto de Prisão em Flagrante, do reconhecimento pessoal, da busca e apreensão
3.1.7 INDICIAMENTO
Indiciamento é a imputação a alguém, no Inquérito Policial, da pratica do ilícito penal, ou o resultado concreto da convergência de indícios que apontam determinada pessoa ou determinadas pessoas como praticantes de fatos ou atos tidos pela legislação penal, em vigor, como típicos, antijurídicos e culpáveis.
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Havendo qualquer indício da autoria, deve a autoridade policial providenciar o indiciamento. Capez enfatiza o seguinte:
É a declaração do, até então, mero suspeito como sendo provável autor do fato infringente da norma penal. Deve, ou deveria resultar da concreta convergência de sinais que atribuam a provável autoria do crime a determinado, ou determinados suspeitos. Com o indiciamento, todas as investigações passam a se concentrar sobre a pessoa do indiciado (CAPEZ, 2005, p.85).
O artigo 6º, inciso V, do CPP diz: \u201cLogo que tiver conhecimento da pratica da infração penal, a autoridade
policial deverá: (...) V \u2013 Ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capitulo III do Titulo VII, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que lhe tenham ouvido a leitura\u201d.
3.1.8 DISPENSABILIDADE DO INQUÉRITO POLICIAL
Segundo a RTJ 76/741: \u201cNão é essencial ao oferecimento da denúncia, a instauração de Inquérito Policial, desde que a peça acusatória esteja sustentada por documentos suficientes à caracterização da materialidade do crime e de indícios suficientes da autoria\u201d. Dessa forma, por possuir conteúdo apenas informativo, para a propositura da ação penal, é o Inquérito Policial dispensável. Nesse sentido, cita Jurisprudência do STF, o Mestre JESUS (2004, p. 08), cujo teor:
\u201cO Inquérito Policial não é imprescindível ao oferecimento da denúncia queixa, desde que a peça acusatória tenha fundamento em dados informação suficiente à caracterização da materialidade e autoria infração penal \u2013 STF, RTF 76/741; TRF 3ª Reg., HC 98.03.010696, Turma, Rel. dês. Fed. Roberto Haddad, RT 768/719\u201d. ou de da 1ª
Para o raciocínio de Rangel (2004) pode haver ilegalidade nos autos praticados no curso do Inquérito Policial, a ponto de acarretar seu desfazimento pelo Judiciário, pois os atos nele praticados estão sujeitos à disciplina dos atos administrativos. Todavia, não há que se falar em contaminação da ação penal em
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face de defeitos ocorridos na pratica dos atos do Inquérito, pois este é peça meramente de informação e, como tal, serve de base à denúncia. No exemplo citado, o auto de prisão em flagrante, declarado nulo pelo Judiciário via hábeas corpus, serve de peça de informação para que o Ministério Público, se entender cabível, ofereça denúncia.
3.1.9 PRINCÍPIOS DO INQUÉRITO POLICIAL
Para Moraes (2009) o inquérito policial é o procedimento administrativo destinado à apuração de infrações penais, consistindo na formalização escrita de todos os atos de investigação técnico-científicos realizados pela Polícia Judiciária, sob a presidência do Delegado de Polícia, para a comprovação da materialidade do crime e a identificação dos responsáveis pela sua prática, de modo a conferir justa causa à instauração da ação penal correspondente. Por se tratar de procedimento administrativo, deve submeter-se aos princípios constitucionais que regem a Administração Pública, estabelecidos no art. 37 da Constituição Federal. Da mesma forma, por estar ligado à proteção da sociedade e da paz social e envolver diretamente liberdades individuais, sobretudo as dos investigados, é regido pelos princípios insertos na Constituição Federal na parte relativa aos direitos e garantias individuais (art. 5º). Ainda em virtude da sua natureza administrativa, mas, principalmente, por se tratar de procedimento regulado no Código de Processo Penal, que visa dar suporte fático-probatório a uma ação penal voltada para a repressão penal, e sem embargo da opinião contrária de alguns doutrinadores, deve observar os princípios que, em virtude da política processual penal adotada pela República Federativa do Brasil, encontram-se inseridos no Código de Processo Penal e no restante da legislação infraconstitucional, sob pena de, eventualmente, vir a causar prejuízos à ação penal que visa instruir e servir de base.
3.1.9a PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE
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Significa que os órgãos incumbidos da persecução penal não podem possuir poderes discricionários para apreciar a conveniência ou oportunidade da Instauração do Inquérito Policial. Assim a autoridade policial, nos crimes de ação pública, é obrigada a proceder às investigações preliminares. Exceções a esse princípio são os crimes de ação pública condicionada e de ação penal privada. (CF. art.5º, inc. 2).
3.1.9b PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA
Sobre este princípio, diz o art. 5º, inc. LXXVIII a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Trata-se da reforma do judiciário com reflexos também no IP. A sociedade não aceita mais crimes que ficam sem solução. Inquéritos instaurados se arrastam por anos, sem solução.
3.1.9c PRINCÍPIO DA MORALIDADE
Encontra previsão expressa no caput do art. 37 da Constituição Federal e no art. 2º, parágrafo único, IV, da Lei nº 9.784/99, que o traduz como a "atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé". Pelo princípio da moralidade, é trazido para dentro do ordenamento jurídico todo o ordenamento moral, de forma que a conduta do servidor público, ainda que formalmente legal, se for imoral, será também ilegal. Em outras palavras, não basta conformidade com o ordenamento jurídico, o ato administrativo também precisa estar conforme a moral vigente, para que seja legal na acepção ampla da palavra. Como forma de aferir essa moralidade na Administração Pública foi desenvolvida um conceito de probidade administrativa, que se traduz na soma do comportamento legal com o moralmente adequado. No que tange ao inquérito policial, por se tratar de procedimento administrativo regulado por norma processual penal, diretamente ligado a uma posterior ação penal à qual visa instruir, a maior parte das leis
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processuais penais já traz implícita em seu texto forte carga moral, como forma de garantir