ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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DisciplinaLinguagem e Cognição26 materiais343 seguidores
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de entendimento e ação: são os chamados criminosos comuns. 
 Entretanto, o termo periculosidade aparece à época e por consequência dos 
crimes que mencionamos no início deste capítulo, remetidos a uma conotação 
patológica, acrescentando-o um novo aspecto conceitual: a periculosidade passa, agora, 
a ser entendida também como uma característica intrínseca ao indivíduo. Cria-se então a 
figura do sujeito \u2018intrinsecamente perigoso\u2019, não mais aquele eventual ou 
circunstancialmente perigoso - o criminoso comum -, mas o \u2018inerentemente perigoso\u2019. É 
como se o louco já viesse, desde sempre, determinado por uma periculosidade; é como 
se o louco fosse potencialmente capaz de cometer atos criminosos (Foucault, 1978 a). 
 Surge, assim, uma preocupação em demonstrar a existência da loucura-homicida 
e da importância em ter que controlá-la. Mas de que maneira isto deveria ser feito? 
Inicialmente demonstrando que nos limites últimos da loucura, lá está presente o crime, 
ou seja, por trás de um louco oculta-se sempre um criminoso. Ora, era preciso não 
somente punir e transformar esse indivíduo, como também proteger a sociedade de seus 
instintos obscuros e inexplicáveis. Assim, a este louco-criminoso, designado como 
\u2018inimputável\u2019, só resta a internação compulsiva em manicômio judiciário. Aquele que, 
inscrito como sujeito perigoso, deverá ser afastado do convívio social como forma de se 
defender a sociedade, e a quem deverá manter-se encarcerado com propósitos curativos 
e como estratégia de transformação de sua essência mesma. 
 Contudo, não estou interessada, no momento, em deter-me na construção 
histórica do conceito de periculosidade, mas tão somente em tentar situá-la em nosso 
panorama, a fim de entender seus efeitos sobre o paciente inimputável. O conceito de 
perigo surge, segundo Heleno Fragoso, com o positivismo criminológico. 
 
 
A periculosidade é um juízo de probabilidade que se formula diante de certos indícios. 
Trata-se de juízo empiricamente formulado e, portanto, sujeito a erros graves. Pressupõe 
sempre, como é óbvio, uma ordem social determinada a que o sujeito deve ajustar-se e 
que não é questionada (FRAGOSO, 1984). 
 
 A questão da periculosidade se apresenta muito bem colocada - apesar de sub-
repticiamente - nos laudos de Pierre Rivière
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, onde os alienistas usam-na como 
 
24
 Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (1977 b). Estamos nos referindo 
ao caso - compilado por Michel Foucault - de Pierre Rivière, jovem de 20 anos que, em 1835, assassinou 
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argumento de justificação para a existência de instituições próprias ao tratamento e 
reclusão dos doentes mentais no início do século XIX. Assim Castel se refere a ela: \u201cum 
certificado médico [...] controlado pela possibilidade de uma inspeção judiciária, vai 
poder detectar estados potencialmente perigosos\u201d (Castel, 1977, p. 275). Dito de outra 
maneira, a periculosidade é definida como probabilidade de que novos crimes sejam 
praticados; ela é uma categoria cuja função é a de demonstrar os níveis individuais de 
propensão ao crime. Para alguns juristas, a periculosidade criminal traz consigo a idéia 
de que o louco-infrator, motivado por apetites e impulsos que lhe são próprios, 
certamente irá cometer novos ilícitos. Torna-se muito clara essa idéia, ao observarmos 
as conclusões nos laudos de alguns profissionais do campo psicojurídico, quanto à 
certeza de reincidência do estado de perigo por parte do paciente inimputável. É como 
se, uma vez diagnosticado como perigoso, perigoso ele sempre seria. 
 Não resta dúvida de que se trata de um juízo sobre o comportamento futuro do 
indivíduo. Segundo Heleno Fragoso, está-se diante de uma ficção jurídica, pois não 
existe justificação científica do conceito de periculosidade, mas sim, \u201cum caráter 
profético da noção de estado perigoso\u201d (Fragoso, 1984). Portanto, ela se estabelece 
probabilisticamente, sendo, por sua própria natureza, de caráter relativo. Concordamos 
com a idéia de que \u201ca noção de periculosidade está indissociavelmente ligada a um certo 
exercício de futurologia pseudocientífica\u201d (Rauter, 1997, p.73). 
 O princípio da presunção de periculosidade penaliza, portanto, o louco-
criminoso pelo o que é, e não pelo crime que ele cometeu. A medida tem como seu 
principal objetivo dominar o indivíduo, e não apenas o seu ato: é a loucura que é julgada 
e condenada. No entorno da noção de periculosidade pode-se observar com clareza uma 
rede de relações que envolvem saberes e práticas, que acabam por atuar no sentido da 
formação de determinadas subjetividades: a saber, o sujeito perigoso, como já 
mencionado no início desse capítulo. 
 Ora, não pareceria absurdo constatar que - no consenso popular -, é exatamente 
esse sujeito que se espera encontrar para além dos portões de ferro batido do MJ. 
Falávamos, anteriormente, como a opinião pública considera estas pessoas 
inerentemente perigosas. Da mesma forma, o sistema penal sempre partiu da presunção 
de periculosidade desses pacientes, entendendo-os também como indivíduos perigosos 
 
sua mãe, sua irmã e seu irmão, todos a golpes de foice. Neste livro, Foucault - segundo ele próprio diz -, 
teve como objetivo essencial, fazer aparecer a engrenagem médica e jurídica que cercou a estória. 
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e, por este motivo, os mesmos deveriam ser alijados do processo social. O dispositivo 
do internamento aparece, então, como a única saída possível. 
 Como nos mostra Michel Foucault, a psiquiatria sempre funcionou, a partir do 
século XIX, como mecanismo e instância de defesa social. Os questionamentos do 
poder judiciário dirigidos a ela preocupavam-se em saber se tais indivíduos eram 
perigosos e se seriam curáveis. Questionamentos, segundo o autor, isentos de 
significação, mas \u201cque têm um sentido muito preciso a partir do momento em que são 
feitos a uma psiquiatria que funciona essencialmente como defesa social ou, para tomar 
os termos do século XIX, que funciona como \u2018caça aos degenerados\u2019. E o degenerado é 
aquele que é portador de perigo\u201d. (Foucault, 2001, p. 404). 
 Isto mostra como a psiquiatria, que deveria ater-se à doença, passa a funcionar 
como um dispositivo de \u2018caça ao perigoso\u2019: 
 
A psiquiatria não funciona \u2013 no inicio do século XIX e até tarde no século XIX, talvez 
até meados do século XIX \u2013 como uma especialização do saber ou da teoria médica, 
mas antes como um ramo especializado da higiene pública. Antes de ser uma 
especialidade da medicina, a psiquiatria se institucionalizou como domínio particular da 
proteção social, contra todos os perigos que o fato da doença, ou de tudo o que se possa 
assimilar direta ou indiretamente à doença, pode acarretar à sociedade. Foi como 
precaução social, foi como higiene do corpo social inteiro que a psiquiatria se 
institucionalizou (FOUCAULT, 2001, p. 148. Grifo nosso). 
 
 Nessa medida, o campo psiquiátrico se obstinou em reivindicar como loucos 
aqueles que até então ele tinha considerado como simples criminosos, tão somente pela 
ambição de conseguir a sua autonomia e a conquistar uma modalidade de poder que 
viria a se expressar através dos dispositivos de controle. Dispositivos estes, 
implementados sob as formas de higiene pública e de defesa da sociedade, como 
também expressos pelo saber do médico, o único a poder avaliar não somente o motivo 
do sujeito, mas associá-lo à sua \u2018história de vida\u2019, integrando o ato à conduta global do 
sujeito. 
 Neste sistema específico de encarceramento iremos, em capítulo posterior, 
apresentar e discutir a utilização, tanto pela psicologia quanto pelo direito, dos 
dispositivos travestidos de cientificidade, que pretendem aferir o normal e o patológico. 
 Portanto, é claro o objetivo da intervenção