ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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o paciente como sendo alguém passível de tratamento, mas sim 
como um sujeito passível de punição. 
 
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 O nível de periculosidade do paciente inimputável é aferido a partir dos chamados \u2018Laudos de Cessação 
de Periculosidade\u2019, elaborados por peritos forense, lotados no Setor de Perícias do MJ. 
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 O absurdo paradoxo com referência a essa medida nos parece semelhante à 
natureza ambígua presente na instituição mesma. Tal caráter dúbio - de prisão e hospital 
- é uma das particularidades mais flagrantes verificadas na instituição. Isto pode ser 
observado desde o seu aspecto físico - com grades, trancas e cadeados -, até em relação 
à ambivalência incrustada na própria equipe e no paciente mesmo: alguns aludem a si 
próprios como sendo \u2018internos\u2019 - ao invés de pacientes -, e usam a palavra prisão em 
referência a hospital. Talvez possamos constatar que a estrutura ambivalente que 
sustenta o MJ, reflete a própria ambigüidade do conceito de medida de segurança: esta 
se encontra erroneamente ligada ao conceito jurídico de periculosidade, ao invés de 
estar associada ao conceito psíquico de transtorno mental (Ibrahim, 2000). 
 Como vemos, o MJ é atravessado por peculiaridades bastante contraditórias: a 
instituição parece oscilar entre dois modelos: o modelo jurídico-punitivo e o modelo 
psiquiátrico-terapêutico. O primeiro vê o sujeito capaz de ser, tanto moral como 
penalmente, responsabilizado por suas ações. O segundo define o indivíduo, não 
enquanto sujeito, mas enquanto objeto de seus impulsos e desejos, não podendo ser 
responsabilizado pelos seus atos e nem ser passível de punição. 
 A prática institucional se mostra perversa quando utiliza a superposição desses 
dois modelos, caracterizando-se como uma instituição fundada em contradições. 
Entendam-se aí, como faces da mesma moeda, o direito e a justiça punitiva, a pretensão 
de justiça e o dispositivo de repressão (Carrara, 1998). E é nesta imbricação que se 
produz o paciente inimputável: sob a ambivalência da instituição e sob o olhar do 
profissional que, muitas vezes, sustenta-se sobre verdades absolutas e universais, 
utilizadas nos laudos e pareceres: trata-se de uma produção técnica de \u2018discursos de 
verdade\u2019. 
 Reportando-nos à narração de um caso clínico datado de 1898, pelo médico 
psiquiatra Lorenzo Mandalari, diretor do então Manicomio Privato de Messina, 
podemos comprovar estes discursos, não somente através da descrição da anamnese do 
paciente \u2013 \u201cNon conoble mai la madre, che fu uma prostituta.[...] giovanetto, venne 
rinchiuso in uma casa di correzione, donde iscì per prendere la via del 
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cárcere.[...].Tatuaggio all\u2019avambraccio sinistro: un A ed um D27 (p. 101-102) \u2013 como 
também na de seu diagnóstico: 
Deficienza morale: delinquenza occasionale in individuo degenerato, predisposto alla 
pazzia ed all\u2019epilessia. È um tipo di degenerato congenito, maturato in um ambiente 
propizio al delitto, ma al delitto spicciolo e mite, il piccolo furto per vivere, egli dice, e 
per non lavorare, diciamo noi. Ad ogni modo, è un delinquente ed um pazzo per ragioni 
molteplici, nelle quali figura, non in seconda línea, Il fattore sociale. (MANDALARI, 
1901, p. 103) 
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. 
 
 Mais de um século depois, continuamos a nos deparar - ainda que com menor 
frequência - com laudos e exames bastante semelhantes... 
 
 Não obstante o isolamento continue sendo um dos objetivos das instituições \u2013 
quaisquer que sejam elas, o século XIX, caracterizado pelas grandes revoltas populares, 
traz uma nova ameaça: o aumento da riqueza de alguns e, não por acaso, o desemprego 
de muitos outros. Cresce a indigência e polemizam-se as discussões sobre o 
comportamento infrator. Com isso, surgem as tentativas de prevenção a novas 
reincidências, justificando-se um maior controle e punição da população transgressora. 
Como advertiu Foucault em certa ocasião: 
 
Toda a penalidade do século XIX passa a ser um controle, não tanto sobre se o que 
fizeram os indivíduos está em conformidade ou não com a lei, mas ao nível do que 
podem fazer, do que são capazes de fazer, do que estão sujeitos a fazer, do que estão na 
iminência de fazer. [...] Nasce a noção de periculosidade que significa que o individuo 
deve ser considerado pela sociedade ao nível de suas virtualidades e não ao nível de 
seus atos; não ao nível das infrações efetivas a uma lei efetiva, mas das virtualidades de 
comportamento que elas representam (FOUCAULT, 2005, p.85). 
 
 As instituições de correção, dentre elas, os manicômios judiciários, são agora a 
forma de poder lateral que têm como função, não mais punir as infrações cometidas dos 
indivíduos, mas sim, corrigir suas \u2018virtualidades\u2019 29. Trata-se de um tipo de sociedade 
disciplinar, onde o controle é a peça fundamental: 
 
 
27
 \u201cNão conhece mais a mãe, que foi uma prostituta. [...] muito jovem, foi preso em uma casa de 
correção, de onde saiu para tomar o caminho do cárcere. [...] Tatuado no antebraço esquerdo: um A e um 
D\u201d (Tradução nossa). 
28
 \u201cDeficiência moral: delinquência ocasional no individuo degenerado, predisposto à loucura e à 
epilepsia. É um tipo de degeneração congênita, desenvolvida em um ambiente propício ao delito, mas ao 
delito suave, brando; o pequeno furto para viver, ele diz, e não para trabalhar, dizemos nós. De qualquer 
modo, é um delinquente e um louco por razões múltiplas, no qual figura o fator social\u201d (Tradução nossa). 
29
 O termo \u2018virtualidade\u2019, na concepção foucaultiana, significaria algo que está prestes a se atualizar. 
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Entramos assim na idade do que eu chamaria de ortopedia social. Trata-se de uma 
forma de poder, de um tipo de sociedade que classifico de sociedade disciplinar por 
oposição às sociedades propriamente penais que conhecíamos anteriormente. É a idade 
de controle social (FOUCAULT, 2005, p. 86). 
 
 Embasando-nos em argumentos do autor, podemos reafirmar que os conceitos de 
\u2018periculosidade\u2019 e de \u2018virtualidade\u2019 parecem imbricados numa mesma engrenagem: eles 
ilustram a passagem do ato ao ser, do que se fez ao que se é. De acordo com essa 
perspectiva, agora não mais se controla o que o indivíduo fez, mas aquilo que ele pode 
vir a fazer, aquilo que se supõe ser ele capaz de fazer. 
 Com efeito, não se trata apenas de colocar em evidência o individuo como 
sujeito do ato, mas também como o sujeito perigoso prestes a cometer a ação infracional 
novamente. Não há saída para ele: uma vez louco-criminoso, para sempre louco-
criminoso. 
 E, há décadas, o seu paradeiro tem sido o mesmo: em 1921 foi inaugurado o 
Manicômio Judiciário com o objetivo de retirar da Seção Lombroso - no interior da 
Seção Pinel do Hospício Nacional -, os pacientes considerados perigosos. A partir de 
então, o MJ passou a receber os \u2018loucos-criminosos\u2019 encaminhados pela Justiça do 
antigo Distrito Federal. Em 2012, quase um século depois, o MJ se mantém como o 
lugar subordinador onde se faz possível um melhor desdobramento de estratégias de 
intervenção psiquiátrica, maximizadas por tecnologias de saber/poder (Castel, 1978). 
 Não se pode negar que, os manicômios judiciários, tal como se encontram 
implicados no interior da engrenagem dos \u2018jogos de verdade\u2019, sejam, de fato, o final da 
linha destinada àqueles - segundo a visão de Michel Foucault -, de quem a sociedade 
precisa se defender. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Capítulo 3 
Por que Foucault? 
 
 Nosso terceiro capítulo inicia-se com uma indagação: \u2018Por que Foucault\u2019? 
Primeiramente porque ele nos fala do lugar mais fundo da sujeição: a exclusão. 
Segundo José Carlos Bruni \u201cé para lá que Foucault nos conduz; é de lá que Foucault 
fala\u201d (1989, p. 2010). É a partir desse fundo que ele vai fazer emergir os processos de 
discriminação do delinqüente, e de patologização e confinamento do louco. Foucault 
não está interessado