ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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mental, 
ainda que possam parecer delitos hediondos ou até mesmo inexplicáveis aos nossos 
olhos. É preciso não se esquecer que, antes mesmo do ato criminoso, existe uma longa 
trajetória de sofrimento mental que, muitas vezes, resulta em transgressão como 
consequência da perturbação psíquica manifestada. 
 
 Procuramos mostrar que, ainda que portadores de algum tipo de transtorno, 
ainda que confinados e controlados pelos mecanismos da engrenagem institucional, 
ainda que tutelados, esses sujeitos - se puderem ser ouvidos - muito têm a dizer. E, 
muitas vezes, eles falam o que nós não queremos ouvir. Estes pacientes encarcerados 
nos nosocômios são capazes de resistir ao que lhes é imposto e determinado; eles se 
mostram, muitas vezes, aptos - ainda que considerados inaptos perante a lei - a dizer não 
às formas de dominação e de submissão: é como se a força da resistência fizesse com 
que as suas vozes não se calassem. Essas pessoas classificadas como inimputáveis - 
diferentemente daquelas consideradas \u2018sadias\u2019 -, são capazes de falar com suas próprias 
palavras e gestos, não obstante estes nos possam parecer inadequados ou ininteligíveis. 
 
 Ora, por que nos ocorre sempre pensar que a generalidade, o irrefutável, o 
evidente, o universal, são o termômetro mesmo da lucidez, da normalidade, da 
segurança da sociedade como um todo? Por que, ao contrário, não podemos apostar nas 
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diferenças, nas singularidades, ainda que se apresentem excêntricas ou estranhas? Por 
que conter e aprisionar aquilo que se apresenta distinto de nós? Por que afastar o 
desigual, o bizarro, o inusitado? Recorremos a Michel Foucault, em mais uma de suas 
ricas contribuições: 
 
Ali onde se estaria bastante tentado a se referir a uma constante histórica, ou a um traço 
antropológico imediato, ou ainda a uma evidência se impondo da mesma maneira para 
todos, trata-se de fazer surgir uma \u201csingularidade\u201d. Mostrar que não era \u201ctão necessário 
assim\u201d; não era tão evidente que os loucos fossem reconhecidos como doentes mentais; 
não era tão evidente que a única coisa a fazer com um delinquente fosse interná-lo 
(FOUCAULT, 2010 e, p. 339). 
 
 
 Evidências, naturalizações, verdades absolutas: faz-se imperioso resistir a elas! 
Necessário é que, nem só os pacientes resistam, mas também nós - os operadores da 
saúde - possamos nos transformar no embate com as circunstâncias, resistir às injunções que 
nos são aplicadas e prescritas e, por fim, sermos capazes de acatar novas formas de 
subjetivação. Necessário é - através de uma perspectiva crítica em relação às 
normatizações do poder instituído -, desconstruir a lógica institucional, produzindo 
novos acontecimentos, novos olhares, novas posturas, enfim, desconstruindo a doutrina 
do \u2018sempre foi assim\u2019.... 
 
 É de conhecimento de todos que qualquer sociedade surge a partir das forças que 
resistiram ao poder estabelecido: este se mobiliza, ora para capturar, ora para normatizar 
o que resiste. Mas, na verdade, o que move a história é a resistência, e não o poder. 
Assim sendo, acreditamos que a resistência é a mola propulsora para toda e qualquer 
mudança. Ela é a potência que se insurge sobre as tentativas de dominação que partem 
do instituído. 
 Ao longo do trabalho, nos foi possível constatar que tanto o paciente quanto o 
profissional \u2018psi\u2019 são sujeitos capazes de resistir. A ele, profissional, cabe perceber as 
tentativas de resistência travadas pelos pacientes, não como transgressão à norma 
instituída, mas sim, como trajeto de seu desejo, como uma atitude crítica em direção a 
práticas de liberdade, como uma vontade mesmo de viver. Quanto a nós, que possamos 
nos definir a nós mesmos, independentemente de funções ou de papéis, mas segundo 
uma prática de si sobre si, através da qual possamos nos transformar e atingir um certo 
modo de ser, não remetido a uma essência, mas como uma prática de liberdade, com um 
espírito permanentemente crítico, resistindo sempre! Assim como nos ensina a filósofa 
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portuguesa Eugénia Vilela, quando afirma que \u201ca resistência é uma ética dos que estão 
vivos\u201d (Vilela, 2001, p. 25). 
 Mas, indagaríamos, em que medida essa prática da resistência se produziria? 
 Acreditamos que, primeiramente, há de se estranhar e se recusar o que é 
proposto pelo saber como sendo de validade universal - não como se o saber nada fosse 
-, mas interrogando sobre que condições e através de que regras esse saber reconhece e 
determina o sujeito como alienado ou delinquente. Faz-se mister procurar entender 
como e em que medida o louco foi transformado em doente mental, e quais as condições 
de possibilidade que o conduziram a essa categoria. Cumpre lembrar o compromisso e a 
incumbência do profissional \u2018psi\u2019 em problematizar essas questões, muito bem 
lembradas pelo pontual comentário de Jurandir Freire Costa: 
 
A ética da psiquiatria termina onde começa a pobreza e o asilo. Nós temos 
responsabilidade, em particular a comunidade dita científica, aquele que de direito e de 
fato se ocupa de cuidar dessas pessoas. [...] Nós formamos esse grupo de pessoas a 
quem a sociedade em geral e o Estado, delegam o poder de tutelar, de tratar, de 
conviver com o doente mental e de ter uma palavra de respeito da natureza do que são 
suas necessidades, suas saídas, suas dificuldades. Acredito que uma das razões 
históricas da situação da doença mental no Brasil é a maneira como a comunidade 
científica se relacionou com a loucura (COSTA, 1987). 
 
 
 Não se trata simplesmente de criticar o saber ou o poder vigente. Importa sim, 
problematizar as técnicas e os dispositivos utilizados nos contextos institucionais que 
atuam sobre o comportamento dos indivíduos, tentando dirigí-los, normatizá-los, 
modificá-los em sua maneira de ser para, finalmente, inscrevê-los nas estratégias de 
controle e disciplina. É justamente assim que os jogos de poder tentam governar o 
louco, objetivando-o como tal. 
 Contudo, acreditando como Foucault, que o poder se manifesta também como 
potência de vida, e que toda relação de poder implica em uma estratégia de luta, em uma 
insubmissão, pensamos que seja através da resistência mesma que os operadores da 
saúde poderão usar seu saber/poder com fins de questionar, provocar e, enfim, demarcar 
alvos para uma ação possível. De acordo com o autor, não basta apenas denunciar ou 
criticar a instituição, mas, \u201capresentá-la é a única maneira de evitar que outras 
instituições, com os mesmos objetivos e os mesmos efeitos, tomem seu lugar\u201d 
(Foucault, 1981, p. 385). Para ele, o problema não é abolir as instituições psiquiátrico-
penais ou as prisões, nem tampouco o de criar o \u2018hospital modelo\u2019; o problema, sim, é 
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\u201coferecer uma crítica do sistema que explique o processo pelo qual a sociedade atual 
impele para a margem uma parte da população\u201d (Foucault, 1974, p. 296). 
 Por conseguinte, cabe a nós, operadores da saúde, o dever e o direito de 
interrogar os discursos acerca da verdade e, assim, poder exercer uma atitude crítica 
sobre ela. É através dessa resistência que será possível desembaraçar-se das práticas 
universais que tentam unificar as condutas em torno de um único modelo de 
subjetividade. Para isso, propomos uma reflexão acerca, não apenas da prática exercida 
pelo profissional \u2018psi\u2019 no campo mesmo do instituído, mas, principalmente quanto à 
possibilidade de transformação do seu olhar: do olhar de quem está dentro dos portões 
de ferro batido do MJ que, muitas vezes, parece muito semelhante àquele olhar 
carregado de pavor e repulsa de quem está no mundo de fora daqueles portões. 
 
 Assim, acreditamos que saídas poderão sempre ocorrer, tanto através da 
invenção de táticas e estratégias, \u2018bricolagens\u2019, golpes e astúcias \u2013 como nos ensina 
Michel de Certeau \u2013 quanto por intermédio da criação de linhas de fuga que fomentem a 
produção de um pensamento crítico, de uma visão reflexiva e de um