ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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DisciplinaLinguagem e Cognição24 materiais342 seguidores
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sua vinda 
ao Brasil em 1979, o psiquiatra - como sempre muito perspicaz e espirituoso -, tece um 
breve comentário sobre Lombroso, atribuindo-lhe caráter \u201creacionário, mas que naquela 
época se fazia passar por socialista\u201d (Basaglia, 1982). Lembrando que foi ele quem se 
encarregou em buscar as origens físicas da doença mental, associando características 
anatômicas a tipos de criminalidade, Basaglia nos faz remeter a outros tantos psiquiatras 
do início do século XIX. 
 Como postulava Berardinelli na década de 1930, o estudo biotipológico dos 
indivíduos permitia prever e, por isso, prevenir os delitos. Ele não só assim o afirma, 
como também o reafirma, baseando-se em outros autores da época: 
 
Boxich e DiTullio encontraram disposição para certas especies de delictos em 
determinados typos morphologicos. Segundo Boxich os delinquentes não violentos são 
geralmente longilineos e os violentos, brevilineos. Di Tullio chegou á conclusão de que 
nos ladrões predomina a constituição longilinea, microsplanchnica, hypervoluida, 
hypovegetativa, typo cranio-facial assymetrico; nos criminosos mixtos (contra as 
pessoas e a propriedade), a constituição morphologica e o typo cranio-facial comuns 
(BERARDINELLI, 1932, p. 212). 
 
 Assim como Lombroso, outros adeptos da escola positivista de direito penal, 
consideravam que os criminosos estariam divididos por classes, de acordo com suas 
tendências hereditárias, ou de temperamento, ou ainda em função de um meio social 
pervertido (Carrara, 1998). Sem dúvida, podemos notar que a Criminologia constituiu-
se em teses fortemente centradas em pressupostos racistas e preconceituosos que 
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conduziam à conclusão de que certos indivíduos considerados criminosos eram, na 
verdade, uma subclasse do gênero humano. Como aponta Salo Carvalho, Lombroso, ao 
concluir sua investigação sobre a fisionomia dos criminosos, observa que \u201cembora não 
tenham sempre aspecto assustador, demonstram certas características análogas às dos 
selvagens\u201d (Carvalho, 2008, p. 278) confirmando, assim, o aspecto preconceituoso de 
seus estudos. 
 A noção lombrosiana de \u2018criminoso nato\u2019 \u2013 cujas marcas anatômicas eram 
previamente detectadas - permitiriam uma política de intervenção anterior mesmo à 
consecução do crime. Deste modo, os sistemas de classificação do século XVIII foram 
expandidos e aperfeiçoados \u2013 inclusive até a época atual -, objetivando segregar o 
chamado \u2018indivíduo perigoso\u2019 do restante da sociedade. 
 Com efeito, como leciona Fonseca (2002, p. 83), o que passa a importar agora 
para a psiquiatria não é se o indivíduo se encontra incapaz como sujeito jurídico, mas 
se o mesmo seria capaz de perturbar a ordem ou ameaçar a segurança pública. É sobre 
este sujeito que ela irá se debruçar como objeto de análise e de atuação, certificando o 
perigo que ele representa para a família e à sociedade em geral. Ora, pergunta-se: o 
que faz desse sujeito um indivíduo perigoso? A partir de que condições ele constitui 
uma ameaça social? Para a psiquiatria ele assim será considerado toda a vez que se 
conduzir fora das regras da ordem instituída. Segundo análise de Lopes, \u201curge fazer-se 
a profilaxia da herança patológica. E para essa profilaxia temos felizmente regras e 
normas de higiene da raça, de eugenia, que precisam ser acatadas\u201d (Lopes, 1934, 
p.76-77. Grifo nosso). Como ilustração, passemos à seguinte descrição: 
Luigi B. è un tipo di criminale medio tra il delinquente istintivo e il pazzo. Folle morale 
ragionante, há forti tendenze paranoidi e non è improbabile diventi, presto o tardi, um 
paranóico conclamato, parziale o completo. Figlio del lastrico di Torino, l\u2019abbandono, 
la miseria fanno di lui um tipo di delinquente sociale e, in um\u2019ulteriore tappa, um pazzo 
sociale. Non mancano però i caratteri congeniti. È nato settimestre da parenti 
immorali. L\u2019ambiente e la predisposizione sono i due fattori di questo prodotto misto di 
vagabondo, di squilibrato e di ladro. E del ladro ha anche veramente la fisionomia 
falsa e untuosa, le mani esili e lunghe, il camminare dinoccolato, ecc. Dal punto di 
vista psicopatico è um paranoide che conserva il potere lógico (MANDALARI, 1901, p. 
99).
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 \u201cLuigi B. é um tipo criminal médio entre o delinquente instintivo e o louco. Louco moral pensante tem 
fortes tendências paranoicas e não é improvável que se torne, cedo ou tarde, um paranoico conclamado, 
parcial ou completo. Filho das calçadas de Torino, o abandono, a miséria fazem dele um tipo de 
delinquente social e numa posterior etapa, um louco social. Não faltam, porém as características 
congênitas. Nasceu de sete meses de pais imorais. O ambiente e a predisposição são os dois fatores deste 
produto misto de vagabundo, de desequilibrado e de ladrão. E de ladrão tem também verdadeiramente a 
fisionomia falsa e untuosa, as mãos magras e longas, o caminhar indolente. Do ponto de vista psicopático 
é um paranóide que conserva o poder da lógica.\u201d (Tradução nossa). 
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 Os postulados da escola positivista são sentidos até os dias de hoje, através da 
criação de inúmeras noções no campo jurídico-psiquiátrico, e eles produziram as noções 
de periculosidade, medida de segurança, e tantas outras. Inicialmente iremos discutir as 
questões relativas à \u2018periculosidade\u2019 do agente para, em seguida, voltarmos a nossa 
atenção ao instituto da \u2018medida de segurança\u2019 e, finalmente, ao conceito de 
\u2018virtualidade\u2019, este último de acordo com a concepção foucaultiana. 
 
 Como vimos anteriormente, a psiquiatria, ao longo de sua história, apresenta o 
louco-criminoso como um ser imprevisível, selvagem, dissociado de qualquer norma ou 
lei, que age unicamente à base da crueldade de seus instintos. Os seus atos parecem 
incompreensíveis, sem razão aparente, isentos de qualquer significação. De acordo com 
Michel Foucault, até o final século XVIII, o direito penal apenas situava a questão da 
loucura nos casos em que o Código Civil e o direito canônico também a postulavam. Ou 
seja, quando a loucura se apresentava na forma de debilidade mental ou demência, 
momento em ela se manifestava por sinais facilmente reconhecíveis. Mas, a partir do 
início do século XIX, em função de uma série de delitos graves ocorridos em diferentes 
lugares na Europa, deu-se início, efetivamente, à intervenção da psiquiatria no âmbito 
jurídico. A psiquiatria, segundo o autor, inventou \u201ca entidade fictícia de um crime 
louco, [...] uma loucura que nada mais é do que crime\u201d (Foucault, 1978 a). Em outras 
palavras, uma loucura que só se manifestaria no momento e nas formas do crime: 
 
O individuo no qual loucura e criminalidade se associam e colocam o problema de suas 
relações, não é o homem da pequena desordem cotidiana, a pálida silhueta que se move 
nos confins da lei e da norma, mas sim o grande monstro. No século XIX, a psiquiatria 
do crime se inaugurou por uma patologia do monstruoso. (FOUCAULT, 1978 a, p. 7 \u2013 
Grifo nosso). 
 
 Este louco e, por isso criminoso, deverá ser, definitivamente, afastado da 
sociedade. E é este \u2018monstro\u2019 que as pessoas, de um modo geral, esperam encontrar 
para além do portão de ferro do MJ. 
 Sabe-se que é comum, sob certas circunstâncias, as pessoas qualificarem outras 
pessoas como perigosas, especialmente aquelas que praticam atos considerados 
impróprios à ordem social. São os indivíduos que cometem crimes, muitas vezes 
considerados hediondos, e que parece evidente à sociedade atribuir-lhes um alto nível 
de \u2018periculosidade\u2019, justificando o clamor pelo uso de práticas punitivas e de isolamento 
 
 
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rigorosos a serem impostos a eles. Parece não haver dúvida no uso do termo 
\u2018periculosidade\u2019 nestes casos: ele é aplicado às pessoas que cometem delitos, em sua 
plena capacidade