ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2


DisciplinaLinguagem e Cognição24 materiais342 seguidores
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- como tantos outros autores estiveram - em estudar a loucura, mas, 
ao contrário, em buscar quais as condições de possibilidade que fizeram transformar o 
louco em doente mental. Eis um dos motivos que o fazem singular. 
 Por que Foucault? Por sua reflexão e visão crítica em relação aos postulados 
teóricos científicos com relação aos saberes, especialmente, no que diz respeito à 
loucura. Por aprofundar-se no estudo das \u201cengrenagens do submetimento, da fabricação 
dos sujeitos submetidos\u201d (Eribon, 2004, p. 10). Por questionar e estranhar as ditas 
verdades absolutas. Por optar em problematizar o presente, ao invés de naturalizá-lo. 
Por um gosto pelas desmistificações, pelo espírito resistente às evidências e às 
constatações verificáveis, pela desconfiança às falsas continuidades, por ter pensado a 
história de maneira singular, em lugar de legitimar o que já se sabia. Por valorizar a 
surpresa, o acaso, a contingência da história de vidas simples, singulares, de \u2018homens 
infames\u2019. Por não se afirmar sob nenhuma posição dogmática, e por duvidar sempre de 
tudo que é colocado como definitivo, natural, inquestionável. Por não temer os 
paradoxos nem as contradições. Pela sua originalidade em \u201cnão transformar nossa 
finitude em fundamento de novas certezas\u201d (Veyne, 1985, p.37). Por um novo jeito de 
olhar... 
 Por que Foucault? Porque é a partir de suas ideias sobre as condições sócio-
históricas do aparecimento dos saberes a respeito do homem, que ele nos leva a pensar 
de que maneira se constituem as noções de loucura, de doença mental e dos dispositivos 
ligados a elas. Não só por isso, como também, pelas problematizações provocadas por 
ele, que nos conduzem a uma compreensão mais clara sobre as questões relacionadas à 
psiquiatria, ao direito, ao hospital, ao asilo, e aos demais temas que propusemos a 
estudar e a desenvolver como matéria nesta dissertação. 
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 Michel Foucault, portanto, é o autor com quem nos identificamos e com quem 
concordamos ser possível ousar questionar o campo do instituído, rompendo com seus 
antigos paradigmas. Pretendemos discutir sobre isso, trazendo uma outra interrogação: 
de que forma, efetivamente, é possível produzir-se conhecimentos capazes de se 
insurgirem contra aquilo que os saberes sobre o homem acudiram a gerar e a aprimorar? 
Em outras palavras e de maneira mais específica: como seria possível romper com tais 
paradigmas quando nos referimos às instituições totalitárias - tais como o asilo e a 
prisão, só para citar algumas - que se encontram amparadas e apoiadas em saberes 
secularmente impostos pelas ciências do homem? 
 Pensamos que nossas indagações poderão ser discutidas ao longo desse trabalho, 
amparadas nos ensinamentos de Michel Foucault que, como analisa Heliana Conde 
Rodrigues (2002), faz história praticando raridades, provocando inquietações, pois se 
trata de um \u2018historiador de problemas\u2019. Foucault parece vir para romper com o que está 
posto, romper com o naturalizado, com as continuidades, com o definitivo. Ele, de fato, 
parece vir, parafraseando Paul Veyne (1990), para \u2018sacudir\u2019 a história. 
 
 
 
3.1. O Método Arqueogenealógico de Michel Foucault 
 
 Acreditamos que, ao inventar um novo estilo de pensar no campo mesmo da 
filosofia - através da construção de seu método arqueogenealógico
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 -, Foucault nos 
mostra que as evidências, as certezas, as naturalizações são, de fato, saberes produzidos 
e, assim sendo, podem ser transformados. 
 Detendo-nos por uns instantes especificamente no que tange à loucura, podemos 
constatar que a sustentação foucaultiana baseia-se na idéia de que a loucura é uma 
construção histórica e cultural, rompendo, assim, com a leitura naturalista que, até 
então, lhe era conferida. Através do método arqueogenealógico o autor analisa em que 
práticas o conceito de loucura foi gestado, iniciando o processo analítico de trás para 
frente, isto é, a partir da história do presente até encontrar uma descontinuidade 
histórica. Desta forma, já não se pode mais olhar a loucura como algo natural nem 
 
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 O método arqueogenealógico de Michel Foucault pretende descrever a constituição das ciências a partir 
de uma inter-relação de saberes através da análise das relações de poder. Ou seja, a arqueologia procura 
buscar quais os conjuntos de regras que definem um saber; enquanto a genealogia busca o \u2018como\u2019 e o \u2018por 
que\u2019 desses saberes se transformarem, isto é, quais as relações de forças que os fizeram mudar. 
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contínuo, mas sim como algo que só existe no momento em que é postulada 
historicamente e dentro de um determinado contexto. 
 Para o autor, a ideia de arqueogenealogia remete à pesquisa detalhada de \u2018como\u2019 
surgem determinadas regras a respeito de determinado saber, e \u2018por que\u2019 estes saberes 
se transformam. Dito de maneira mais simplificada, a arqueologia trata das condições de 
possibilidade para a produção de saber, enquanto que a genealogia trata das relações de 
poder. Como Foucault leciona, os fatos históricos variam a cada tempo e se impõem 
como verdades, assim como os diferentes conceitos de loucura foram impostos através 
de discursos tidos como verdadeiros ao longo dos tempos. O que Foucault tentou fazer 
em sua História da Loucura foi procurar balizar qual o tipo de poder que a razão tentou 
exercer sobre a loucura no século XVII, como ela emergiu na história e como foi 
construída. Para ele, a loucura erigiu-se pelo o que se disse a respeito dela (Machado, 
1981, p. 161). 
 Neste ponto, a diferença entre Foucault e os epistemólogos franceses da época se 
situa no fato de que ele não toma a emergência do acontecimento como uma verdade, 
mas tão somente como um problema. Daí ele ser conhecido com um \u2018historiador de 
problemas\u2019. Segundo ele, é necessário se fazer uma história das problematizações, ou 
seja, a história da maneira pela qual as coisas produzem problemas (Calderon, 2003). 
 Partindo de uma problematização do presente e analisando 
arqueogenealogicamente as descontinuidades da história, Foucault levanta pertinentes 
questões: quais as condições de possibilidade que fizeram, em uma determinada época, 
com que a loucura fosse pensada, inicialmente como desrazão, para depois ser 
considerada como alienação? A quem interessava que ela assim fosse entendida? Quais 
as relações de poder que produziram estes discursos, estas práticas de subjetivação, 
enfim, esses saberes? Acompanhando Foucault, pensamos que a loucura - assim como a 
delinquência - há que ser vista de maneira circunstanciada, e não de forma linear e 
ingenuamente naturalizada. 
 
Foucault indicava como as diferentes leituras sobre a loucura se inscreviam em 
pressupostos filosófico, moral, religioso e científico que regulariam as práticas sociais 
sobre ela, e que era isso que deveria ser colocado em evidência numa arqueologia da 
loucura. Dito de outra maneira, o que Foucault ressaltou foi como a experiência da 
loucura foi objeto de silêncio e de exclusão social como seu correlato; necessário seria 
realizar a arqueologia desse silêncio (BIRMAN, 2011). 
 
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 A análise epistemológica foucaultiana caracteriza-se por cortes, rupturas, e pela 
noção de descontinuidade histórica, que é um princípio que mina as noções filosóficas 
da essência imutável do homem. Ela permite transformar discursos considerados 
universais, na medida em que possibilita a análise do momento de surgimento e de 
desaparecimento de uma forma de saber e das práticas a ele atreladas. 
 Se trouxermos novamente à baila a questão do \u2018Grande Internamento\u2019 ocorrido 
no século XVII, poderemos entender melhor a noção de descontinuidade, que constitui 
um dos elementos fundamentais do pensamento de Foucault. Como foi comentado no 
Capítulo 2, depois de ser internado junto aos socialmente indesejáveis, o louco, agora 
despossuído de razão, é extraído daqueles pobres e libertinos e