ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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DisciplinaLinguagem e Cognição23 materiais341 seguidores
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as diferentes formas de 
os profissionais psi se adequarem \u2013 mas não de se conformarem \u2013 às estratégias 
presentes no campo institucional, criando recursos que promovam a reorganização e a 
recriação do dia-a-dia de suas práticas. Tais invenções vão, por outro lado, gerando 
novos saberes e viabilizando, assim, condições de possibilidade para que o próprio 
paciente possa resistir ao que lhe é imposto. Deste modo acreditamos em uma possível 
mudança na concretude do cotidiano manicomial. 
 Não obstante o papel do profissional de saúde encontrar-se atrelado a um 
sistema de poder, funcionando como mais uma peça da engrenagem institucional, 
paradoxalmente, esse lugar leva o mesmo profissional, tanto a utilizar intervenções 
normatizadoras e adaptativas, quanto a produzir práticas que promovam a criação de 
novas aberturas e de novos modos de produção de subjetividades. Assim como o GIP 
mobilizou os intelectuais franceses a trabalharem ao lado dos detentos, Felix Guattari e 
Suely Rolnik (1986) nos advertem, igualmente, de que não há mais porque se aceitar 
falsas neutralidades. Destarte, entendemos que a tarefa do profissional \u2018psi\u2019 é a de se 
inquietar, de se surpreender diante das verdades absolutas, diante do estagnado e, a 
partir daí, questionar os jogos presentes no campo do instituído, desmontando a \u2018historia 
oficial\u2019, descolando os pontos de solda, possibilitando novos desenhos e novas verdades 
passíveis de transformação. 
 Indo um pouco mais além - e diríamos, de forma ousada e provocativa -, Peter 
Pál Pelbart (1993) sugere que o profissional \u2018psi\u2019 possa, enfim, desarrazoar... De acordo 
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com o autor, não se trata de gritar novas palavras de ordem em substituição às antigas, 
pois, 
 a desrazão não é uma nova ideologia, muito menos uma nova tecnologia - mas o 
 exercício, no seio do próprio pensar e das práticas sociais, de uma nova forma de 
 relacionar-se com o acaso, com o desconhecido [...]. Trata-se de não burocratizar o 
 acaso com causalidades secretas ou cálculos de probabilidade, mas fazer do acaso um 
 campo de invenção e imprevisibilidade; de não recortar o desconhecido com o bisturi 
 da racionalidade explicativa [...]. Trata-se enfim de um pensamento que não transforma 
 a força em acúmulo, mas em diferença e intensidade (PELBART, 1993, p.107). 
 
Por conseguinte, o operador da saúde não pode se deixar apaziguar nem deixar de se 
surpreender com aquilo que está posto, nem tampouco em adaptar-se à cronicidade do 
instituído. Ou ele se adéqua às praticas e instrumentos teóricos pré-estabelecidos e, 
dessa forma se identifica maciçamente com os valores institucionais, ou ele tenta 
desestabilizar esse lugar neutro e seguro implementado e sustentado pelo poder 
hegemônico, resistindo a ele através de uma bricolagem, \u201cusando inúmeras e 
infinitesimais metamorfoses da lei, segundo seus interesses próprios e suas próprias 
regras\u201d (Certeau, 2005, p.40). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Capítulo 5 
Os pequenos grandes homens 
 
Essas vidas, por que não ir escutá-las lá onde, por elas próprias, elas falam?
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Dizer as imagens e as palavras \u2013 os olhos e as vozes \u2013 é a única forma de dar 
visibilidade à impossibilidade de sentido de certos acontecimentos.
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5.1. O silêncio dos sujeitados 
 
 Antes de iniciar este capítulo gostaria de esclarecer que, parte dele, foi elaborada 
na primeira pessoa por um simples motivo: se assim não o fizesse, me soaria como algo 
artificial, como se alguém estivesse falando por mim... Assim como nós, \u2018psis\u2019, muitas 
vezes falamos pelo paciente... 
 
 Ao longo de meu trajeto no MJ fui reunindo - sem objetivo definido -, imagens 
de alguns homens e mulheres que, por alguma razão me afetavam mais do que as 
imagens de alguns outros. Assim, sem muita explicação, me vi nas mãos com histórias 
de personagens vivas num mundo quase morto. Histórias que demonstravam um misto 
de amargura, desamparo, ódio, ingenuidade, desesperança, alheamento, enfim, histórias 
que, para muitos, seriam consideradas \u2018histórias de loucura\u2019. E em algum momento do 
qual não consigo precisar com exatidão, comecei a perceber que aquelas imagens, 
despretensiosamente gravadas ao longo dos anos, poderiam servir como instrumento 
facilitador na tentativa de desnaturalizar o que secularmente vinha sendo instituído: a 
maneira de se olhar o louco-criminoso. O audiovisual poderia contribuir para a 
promoção de novos entendimentos e perspectivas acerca da loucura. 
 Como é comum na produção de documentários, nenhum roteiro foi produzido 
com antecedência. Tampouco me inquietei em fazer marcações preliminares, nem em 
elaborar perguntas pré-programadas ou locais de filmagem previamente determinados. 
Não houve preocupação com nenhum detalhe técnico como luz, som, ou 
posicionamento de câmera. Sequer houve cenário: o paciente era o cenário mesmo. 
 
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 A vida dos homens infames. (1977 d, p. 208). 
61 Corpos inabitáveis, errância, filosofia e memória, (2001, p. 251). 
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Este trabalho de captação de imagem do dia-a-dia dos pacientes do MJ começou 
por um desejo em travar uma comunicação informal e mais próxima com o paciente, 
liberando-nos, a mim e a ele, do habitual setting terapêutico. A maioria dos encontros 
foi gravada no pátio da instituição, no interior das enfermarias, nas saídas extramuros e 
alguns, por questões de preservação do próprio paciente
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, foram tomados dentro da sala 
de atendimento. As imagens e as conversas iam sendo gravadas sem qualquer objetivo 
específico: apenas o de ouvir o que aqueles sujeitos tinham a dizer - ou a não dizer; suas 
histórias de vida, o seu cotidiano ou, simplesmente, o que quisessem falar; de que forma 
resistiam - ou não - às imposições institucionais. Ao longo dos anos, fui guardando 
esses pedaços de histórias, aqui e ali, e decidi valorizar exclusivamente o testemunho 
daqueles que, via de regra, são sujeitos considerados como \u2018não confiáveis\u2019 e \u2018não 
privilegiados\u2019, ou seja, priorizei tão somente a palavra dos \u2018homens infames\u2019. 
 
Entendo que, ao falar de si, o homem cria possibilidades de resignificar não o 
passado, mas o presente mesmo, podendo, assim, transformá-lo, e a simples captação de 
suas imagens, por si só, proporcionaria a escuta e o acolhimento do sofrimento daqueles 
sujeitos. Assim, acredito que, ao invés de se falar pelo paciente, deveríamos dar-lhe a 
palavra. Por conseguinte, minha intenção foi a de criar condições para que eles 
pudessem falar por si próprios, ao invés de serem falados por aqueles que usualmente se 
apoderam de seus discursos. 
Falar por si mesmo, fora do enquadre terapêutico, fora da situação \u2018especialista-
paciente\u2019, possibilita ao sujeito sentir-se mais livre para deixar surgir suas outras 
facetas, suas histórias de vida - reais ou inventadas -, seus gostos e preferências, seus 
sonhos e desilusões. Pelo fato de conhecer os pacientes há muitos anos, a minha 
presença nas conversas facilitou o modo como eles se expressaram. Não havia interesse 
de em me colocar em um papel de destaque ou de liderança, nem tampouco de me 
posicionar de forma neutra, impessoal, \u2018superior\u2019, como se fosse detentora de alguma 
espécie de poder. Pelo contrário, a captura das imagens se deu de maneira bastante 
natural, instaurando-se um modo peculiar de discursividade entre entrevistador e 
entrevistado: eram, na verdade, encontros e conversas. Não havia nenhuma intenção, 
naquela situação, em entender os motivos que pudessem ter levado o sujeito à execução 
 
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 Como havia livre acesso aos pacientes e, inclusive, toda a liberdade do uso da câmera