ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
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DisciplinaLinguagem e Cognição24 materiais342 seguidores
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questionamento a respeito das engrenagens produzidas no campo do instituído. 
 Faz-se imperioso abandonar as antigas e cronificadas soluções até então 
utilizadas e, em seu lugar, buscar novas práticas, novas maneiras de ser e de fazer, 
novas ações para se lidar com o cotidiano institucional, visando uma análise 
micropolítica que incite vigor e potência na lógica instituída, podendo-se, assim, 
produzir outros modos de subjetivação. Enfim, como afirmou Foucault em um de seus 
cursos, é preciso encontrar os pontos de resistência, através do quais as passagens se 
façam possíveis. Para isso, é preciso ousar! 
 O que não podemos mais suportar é continuar repetindo as antigas práticas 
jurídico-institucionais, nem tampouco permanecer atrelados a uma visão arcaica e 
obsoleta com relação à loucura. Acreditamos que exista um sujeito por trás da máscara 
nosológica conferida ao paciente inimputável e é preciso olhá-lo, considerando-o como 
alguém singular, como um sujeito de direito, capaz de respostas e atitudes que não 
aquelas preconizadas pela fatídica presunção de periculosidade. Desta feita, somos de 
opinião de que a singularidade presente em cada sujeito não pode ser reduzida ao 
simples vocábulo de \u2018louco-criminoso\u2019, carregado de preconceito e historicamente 
construído ao longo dos séculos. 
 
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 Ao final desta dissertação, gostaríamos de acrescentar uma audaciosa e bem-
humorada citação de Peter Pál Pelbart a respeito do trabalho do profissional \u2018psi\u2019 nas 
instituições totalitárias: 
 
A história mostra que também grandes revoluções às vezes começam em pequenos 
laboratórios, na cabeça e na prática de alguns poucos desvairados, na mais microscópica 
das agitações. Penso que é esse um dos nossos mais caros alentos. O trabalho diário e a 
mão na massa são sempre mais maçantes do que as belas palavras, mas não se deve, sob 
hipótese alguma, abdicar das belas palavras, assim como não se deve abdicar das belas 
histórias, nem dos belos gestos, muito menos das belas intervenções - o que não dizer 
das belas e desvairadas viagens. Sobretudo delas, que num trabalho deste tipo só se 
consegue fazer quando se está devidamente acompanhado, isto é, ladeado por uma 
equipe audaciosa e tresloucada [...], assumindo o risco de alçar vôos inusitados 
(PELBART, 1993, p. 25-26). 
 
 
 Desse modo, seguindo as ideias de Pelbart e acompanhando Michel Foucault, 
consideramos que o profissional atuante no campo \u2018psi\u2019 deve renunciar a sua missão 
profética e destruir as evidências e universalidades (Foucault, 1979 b), indicando e 
localizando brechas, pontos de força, e todas as formas possíveis de resistência: seja 
inventando contrapoderes ao poder instituído, seja, como afirma Heliana Conde 
Rodrigues (2006), \u201cgerando campos de análise desnaturalizadores, tentando a ruptura 
com os cientificismos, profissionalismos e especialismos historicamente cristalizados,\u201d 
ou, ainda, singularizando o estilo de viver e criando maneiras facultativas de ser. 
 Acreditamos que, ao estabelecermos linhas de fuga que possibilitem a ruptura 
dos padrões institucionalizados, poderemos criar relações estratégicas que ampliem e 
diversifiquem as possibilidades de inventar novos modos de relação, consigo mesmo e 
com o outro. Segundo pensamos, o profissional \u2018psi\u2019 - e os demais trabalhadores na área 
de saúde - deve problematizar e tentar analisar como acontece o processo de sujeição, 
\u201co conjunto de obstáculos que antecedem à constituição dos sujeitos, [...] como, a partir 
de mecanismos sociais complexos que incidem sobre os corpos, foram-se dando 
historicamente mil formas de sujeição\u201d (Bruni, 1989, p. 201), dentre elas, a do \u2018louco-
criminoso\u2019. 
 
 Para Michel Foucault, faz parte desse entendimento, não apenas a aquisição de 
conhecimento científico sobre a loucura, mas, sobretudo, em adquiri-lo através do 
discurso daquele considerado como o próprio louco. No diálogo entre Michel Foucault e 
Gilles Deleuze em Os intelectuais e o poder, ambos refletem a respeito do fim do 
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intelectual universal, do porta-voz dos direitos dos sujeitados, do cientista perito, do 
portador de saberes, \u201cdaquele que se coloca um pouco na frente para dizer a muda 
verdade de todos\u201d (Foucault, 1979, p. 71). Para ambos, não existe maior indignidade do 
que se \u2018falar pelos outros\u2019. José Carlos Bruni nos alerta para a lógica da produção do 
silêncio (dos sujeitados), como sendo o mais forte componente da situação de exclusão. 
E é, justamente, ao manter a perpetuação desse silêncio que o especialista impossibilita 
\u201cde se considerar sujeito àquele a quem a fala é de antemão desfigurada ou negada\u201d 
(Bruni, 1989, p. 201). 
 
 Tendo em conta as problematizações apresentadas nos últimos parágrafos, 
optamos por terminá-lo citando parte do primeiro prefácio da complexa obra de Michel 
Foucault, História da Loucura.
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Em meio do mundo sereno da doença mental, o homem moderno não se comunica mais 
com o louco; há de um lado o homem da razão que delega o médico para a loucura, 
autorizando, assim, a relação apenas por meio da universalidade abstrata da doença; 
há por outro lado, o homem da loucura que comunica com o outro somente pelo 
intermediário de uma razão completamente abstrata, que é ordem, coação física e 
moral, pressão anônima do grupo, exigência de conformidade. Linguagem comum não 
há; ou melhor, não há mais; a constituição da loucura como doença mental, no fim do 
século XVIII, comprova o diálogo rompido, dá a separação como já adquirida, e 
afunda no esquecimento todas essas palavras imperfeitas, sem sintaxe fixa, um pouco 
balbuciantes, nas quais se fazia a troca da loucura e da razão. A linguagem da 
psiquiatria, que é monólogo da razão sobre a loucura, só pode se estabelecer sobre tal 
silêncio. 
Não quis fazer a história dessa linguagem, mas sim a arqueologia desse silêncio. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 Tal prefácio só figura integralmente na edição original, Folie et déraison. Histoire de la folie à l\u2019âge 
classique (Paris, 1961). A partir de 1972, ele desaparece das três reedições. 
 
 
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Capítulo 7 
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