ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2
129 pág.

ELZAIBRAHIMDISSERTACAO2


DisciplinaLinguagem e Cognição24 materiais342 seguidores
Pré-visualização42 páginas
o espaço social. As cidades começam, 
então, a expulsá-los. 
Nesta lógica da exclusão Foucault traz a imagem ficcional da Nau dos loucos 
10
 
que, no entanto, teve uma existência concreta nas sociedades europeias entre o século 
XIV e XVI. Na embarcação, o louco fica a mercê da sua própria errância; melhor 
dizendo, preso em sua própria liberdade. Louco e desterritorializado ele vagueia pelos 
mares até ser definitivamente excluído de todo e qualquer contato com o mundo. 
 
Confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando 
indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é 
torná-lo prisioneiro de sua própria partida. [...] Fechado no navio, de onde não se 
escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande 
incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das 
estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por 
excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, 
assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra que vem. Sua única verdade e 
sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer 
(FOUCAULT, 2009 a, p. 11-12).
11
 
 
 Ironicamente - apesar da voz do louco anunciar a morte e o caos e, com isso ser 
afastado do convívio dos demais cidadãos -, a loucura não era algo se prendesse, e sim 
algo que circulava (Fonseca, 2002). Ao expulsá-lo para longe de seus domínios, 
impediam-no de circular pelas ruas, tornando-se, deste modo, um estorvo para a 
população. Embarcado, navegante de grandes mares e rios, era-lhe impossível escapar, 
pois \u201cprisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente 
acorrentado à infinita encruzilhada\u201d (Foucault, 2009 a, p. 12). O louco não se encontra, 
ainda, enclausurado: ele é aquele sujeito que fala sobre algo que o não-louco se 
surpreende, se inquieta, não entende, mas, ao mesmo tempo, fascinado, quer se 
aproximar e ouvir: trata-se da concepção trágica da loucura, quando esta ainda é 
tolerada por não apresentar nenhuma ameaça aparente. 
 Contudo, o louco, segundo a lógica de Descartes em sua obra Meditações 
Metafísicas, escrita e publicada pela primeira vez em 1641, é aquele que não pode 
pensar, ou se pensar, não pode ser louco, sugerindo com isso que, enquanto o homem 
 
10 \u201cUm objeto novo acaba de fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da renascença; e nela, logo ocupará 
lugar privilegiado: é a Nau dos loucos, estranho barco que desliza ao longo dos calmos rios da Renânia e dos canais 
flamengo. A Narrenschiff é, evidentemente, uma composição literária [...] mas de todas essas naves romanescas ou 
satíricas, a Narrenschiff é a única que teve existência real, pois eles existiram, esses barcos que levavam sua carga 
insana de uma cidade para outra. Os loucos tinham então uma existência facilmente errante\u201d (Foucault, 2009, p. 9). 
11
 No Brasil, em fins do século XIX, observa-se uma reedição, em aparência mais moderna, da Nau dos 
loucos das sociedades europeias: muitos estados brasileiros que não possuíam hospital psiquiátrico ou 
asilo costumavam enviar seus insanos para a capital federal ou para outros estados de trem, apelidado de 
\u2018trem de doido\u2019, reproduzindo, deste modo, o antigo modelo de exclusão do século XVI (Mattos, 1999). 
15 
 
sadio questiona a si mesmo, o louco não o faz. O que significa afirmar, parafraseando 
Machado, que \u201ca loucura é condição de impossibilidade do pensamento; o pensamento 
exclui a possibilidade da loucura\u201d (Machado, 1981, p. 61). A \u2018equação cartesiana\u2019 
parece anunciar que aquele que for considerado louco não é um sujeito: tratar-se-ia, 
portanto, de uma \u2018não-pessoa\u2019. A loucura passa a representar o negativo da razão ou o 
não-ser da razão; e o louco passa a ser tido como desarrazoado, um animal sem razão 
que deve, por esse motivo, ser asilado. 
 Com isso, já não basta mais afastar o louco ou deixá-lo errante, à sua própria 
sorte. As viagens a céu aberto nas estranhas e loucas barcaças vão dando lugar, pouco 
mais de um século depois, a sólidos locais fincados em terra firme: já não existe mais a 
nau; em seu lugar, aporta o hospital. Assim, \u201ca loucura, cujas vozes a Renascença acaba 
de libertar, cuja violência, porém ela já dominou, vai ser reduzida ao silêncio pela era 
clássica [...].\u201d (Foucault, 2009 a, p. 45). Destarte, aqueles passageiros anônimos são 
despejados pelas naus e, com o tempo, algumas cidades surgem como lugares de 
peregrinação. Cria-se, então, uma nova forma de assistência no que diz respeito à 
questão da loucura: o encarceramento dos insanos. O século XVII faz acontecer o 
\u2018grande confinamento\u2019. Aí já não mais se ouve a voz do louco, mas tão somente o seu 
silêncio. 
 Na época clássica, as instituições que os recebiam não dependiam de 
conhecimento ou de critérios médicos para interná-los, mas tão somente, como nos 
ensina Michel Foucault (2009 a), de uma percepção social produzida por tantas outras 
instituições, tais como a Igreja, a polícia ou a própria família
12
. Estas se valiam de 
critérios, não da medicina, mas daqueles que diziam respeito à transgressão da razão e 
da moralidade para designar e excluir o louco. Dito de outra maneira, \u201cesta percepção 
de desrazão não é uma percepção médica, mas ética\u201d (Machado, 1981, p. 66), 
merecendo - por esta maneira que a psiquiatria tentou transformar a \u2018percepção social\u2019 
em \u2018percepção médica\u2019 -, a alusão às suas \u2018baixas\u2019 origens. À percepção social do louco 
como o estranho passa-se à análise médica do desarrazoado, convertendo-se a exclusão 
 
12
 Era comum, no século XVIII, que amigos, parentes ou mesmo vizinhos solicitassem à autoridade real a 
reclusão ou o afastamento de um elemento perturbador, através das lettres de cachet, instrumentos que 
datam entre 1660 a 1760 e ocupam lugar de destaque no que diz respeito à análise foucaultiana das 
relações entre o poder e o discurso. Tratava-se de documentos emitidos em nome do rei de França - não 
necessariamente por sua própria iniciativa -, que tinham como função manter em regime de prisão ou de 
internamento todo o indivíduo cujo comportamento era, no discurso desses mesmos documentos, 
tipificados de \u2018indesejáveis\u2019. 
16 
 
em enclausuramento, apenas e tão somente com o intuito de preservar a ordem social, 
com o objetivo de defender a sociedade. 
 Esta, então, passa a demandar uma assepsia que acarretou no afastamento de 
uma massa que não se encaixava nos parâmetros sociais. Assim, o louco e os outros 
marginalizados pela consciência hegemônica - os hereges, libertinos, homossexuais, 
filhos ingratos, e toda uma sorte de indivíduos colocados à margem -, são capturados 
agora, em instituições fechadas. 
 Cria-se, então em Paris, em 1656, o Hospital Geral que, antes de ser um 
estabelecimento médico, trata-se de uma estrutura semijurídica, entregue a diretores 
nomeados vitaliciamente com plenos poderes para decidir, julgar e executar sobre a vida 
daqueles lá internados. 
É sabido que o século XVII criou vastas casas de internamento; não é muito sabido que 
mais de um habitante em cada cem da cidade de Paris viu-se fechado numa delas, por 
alguns meses. A partir de Pinel, Tuke, Wagnitz, sabe-se que os loucos, durante um 
século e meio, foram postos sob o regime desse internamento [...]. Mas nunca aconteceu 
de seu estatuto nelas ser claramente determinado, em qual sentido tinha essa vizinhança 
que parecia atribuir uma mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos 
correcionários e aos insanos. É entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria 
do século XIX encontrarão os loucos; é lá \u2013 não nos esqueçamos \u2013 que eles o deixarão, 
não sem antes se vangloriarem por terem-nos \u2018libertado\u2019. A partir da metade do