Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
122 pág.

Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

Disciplina:Fundamentos das Ciências Sociais9.878 materiais109.905 seguidores
Pré-visualização40 páginas
– sensibilidade e razão –

que produzem um conhecimento não ligado aos objetos, “mas

com o nosso modo de conhecer os objetos”. É um conhecimento

“a priori”, que o sujeito “põe” nas coisas no ato de conhecê-las.

A estética transcendental diz respeito às estruturas da sen-

sibilidade, ao modo como o sujeito recebe as sensações e o co-

nhecimento sensível. A sensibilidade é a faculdade do sujeito em

receber as sensações, em ser afetado por elas. A intuição é o co-

nhecimento imediato dos objetos, ou seja, a apreensão dos fenô-

menos tal com eles se manifestam (ou aparecem) para o sujeito.

Pensamento iluminista

Vinculado ao Iluminismo,
movimento político e intelectual
que se desenvolveu na Europa,
no século 18. Esse movimento
preconizava o uso pleno da
razão como condição para o
progresso da civilização.
Segundo o próprio Kant, o
lema do iluminismo é: “ter a
coragem de servir-te de tuas
próprias inteligências”. Na
França, esse movimento é
responsável pela elaboração da
Enciclopédia (ou Dicionário
Racional das Ciências, das
Artes e dos Ofícios), publicada
em 17 volumes.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

50

As intuições empíricas dizem respeito aos conhecimentos que fazem parte das sensações e

as intuições puras são as formas “a priori” que existem no sujeito, como modos de funciona-

mento da sensibilidade, a saber, o espaço e o tempo.

O espaço é a forma de conhecimento que capta o sentido externo dos fenômenos ou a

existência dos mesmos fora do sujeito. É a “condição da possibilidade dos fenômenos”. O

tempo é a forma do sentido interno, a intuição pura que existe no sujeito e para ele próprio.

O tempo representa a “condição formal a priori de todos os fenômenos em geral”. São eles –

o espaço e o tempo – que ordenam a multiplicidade das sensações.

Kant considera que a “coisa em si” é inconhecível. O que conhecemos são os fenôme-

nos, que são suas formas de manifestação para o sujeito. É importante considerar que os

fenômenos existem em relação ao sujeito, portanto são realidades que não podem ser procu-

radas no objeto em si. Não se trata de afirmar que os fenômenos não existem, mas que eles

existem somente em relação ao sujeito.

Passemos agora à Analítica Transcendental, que diz respeito a outra fonte do conheci-

mento, o entendimento, que permite ao sujeito expressar os fenômenos sob a forma de con-

ceitos. O entendimento pode ser representado “como uma faculdade de julgar” na medida

em que seus atos se reduzem a juízos. Juízos são as relações estabelecidas entre as várias

representações, reduzindo-as à unidade. Para isso, é preciso considerar que o pensamento,

por meio da lógica transcendental, elabora categorias, sem as quais nenhum fenômeno pode

ser pensado. A função das categorias é a aplicação sobre os objetos da experiência, para

produzir conhecimento.

As categorias operam segundo regras denominadas princípios. As categorias são con-

ceitos puros (a priori) que determinam leis aos fenômenos e a natureza. As categorias

correspondem às formas lógicas do juízo. Por exemplo, as categorias da quantidade (unida-

de, pluralidade, totalidade), da qualidade (realidade, negação, limitação), da relação (subs-

tância e acidente, causa e efeito, ação entre agente e paciente) e da modalidade (possibili-

dade/impossibilidade, existência/não existência, necessidade/contingência). O “eu penso”,

que possibilita a unidade da consciência, está presente em todas as representações, pois

sem ele estas seriam impossíveis.

O conhecimento resulta da combinação entre sensibilidade e entendimento. Não há

prioridade entre elas, pois sem a sensibilidade o objeto não seria apreendido e sem o enten-

dimento ele não seria pensado. A experiência é o limite do conhecimento, mas o entendi-

mento pode ir além da experiência, e efetivamente o faz, instituindo a razão. Os conceitos

51

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

puros racionais são as idéias transcendentais, que não têm vínculo com a experiência. As

idéias da razão são a alma, o mundo e Deus. Elas têm um sentido normativo, podendo

ordenar a experiência dando-lhe uma maior unidade.

Também a chamada razão prática ou moral não está condicionada pela experiência.

Toda vez que se busca referenciá-la ao mundo sensível, perde-se a liberdade ou quebra-se a

autonomia da vontade, princípio fundante de todas as leis morais e dos deveres delas decor-

rentes. O imperativo moral não está baseado nas intuições sensíveis, mas na razão pura

prática, por meio da qual a vontade se expressa.

A revolução intelectual promovida por Kant revela ao homem sua finitude como sujei-

to da “razão pura”, mas esta própria razão, por intermédio das idéias transcendentais, o

projeta para o infinito. Da mesma forma, a razão pura prática, como esfera incondicionada,

por meio da lei moral, projeta o homem para o infinito, para além do mundo sensível. Kant

referiu que duas coisas tinham especial significação para a sua vida – “o céu estrelado aci-

ma de mim e a lei moral em mim”. O primeiro aspecto diz respeito ao lugar ocupado no

mundo sensível externo e o segundo compreende um mundo infinito só perceptível ao en-

tendimento, com o qual – diz ele – “me reconheço em uma conexão não simplesmente aci-

dental, como no primeiro caso, mas universal e necessária”.

Kant foi um dos pilares do denominado idealismo filosófico. Transformou-se numa

referência intelectual da modernidade, construindo argumentos sólidos para o desenvolvi-

mento da Ciência e conseqüentemente da verdade.

O outro grande filósofo idealista é Hegel (1770-1831). Também ele transformou-se

numa referência para pensar a modernidade, inclusive para seus críticos, como Marx. Kant

e Hegel foram, e ainda são, um divisor de águas do pensamento ocidental. Hegel é o pensa-

dor da dialética e da História. A dialética constitui o conceito fundamental do sistema

hegeliano. Ela é a “alma do procedimento científico”, pois permite a permanente superação

ou a passagem de uma situação para outra (a negação da negação). O método dialético

pressupõe três momentos: a tese, a antítese e a síntese. São os momentos da afirmação, do

negativo e da síntese (superação ou conservação/supressão). A síntese expressa o momento

mais elevado, quando nasce o conceito.

Na Fenomenologia do Espírito, Hegel estabelece o processo de formação do Espírito

Absoluto, momento mais elevado do conhecimento e da própria História. Esse movimento

inicia-se com a consciência (certeza sensível, percepção e entendimento), transforma-se na

autoconsciência (dialética do senhor e do escravo, libertação da autoconsciência), na ra-

zão, no espírito, na religião e finalmente no saber absoluto (sistema da Ciência). É nesse

momento mais elevado que o real se expressa como racional e o racional como real.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

52

A dialética do Espírito Absoluto não representa apenas um

processo de produção do conhecimento, mas é a expressão da

própria História. A História é o movimento da razão em busca da

sua autonomia. No plano social, esse processo se manifesta nos

momentos da eticidade – família, sociedade civil e Estado. O Es-

tado é a manifestação do Espírito Absoluto, quando o homem

torna-se cidadão, conquistando assim a sua autonomia. É, por-

tanto, o momento mais elevado da vida humana. Ser membro de

Estado é ser livre.

Analisamos o longo processo de formação da ciência mo-

derna. É neste contexto que a formação da Sociologia adquire

sentido. Cabe ainda uma referência à contribuição de

Montesquieu (1689-1755), que elaborou um conceito de lei, pos-

teriormente incorporado pelo Positivismo.

No início da sua principal obra, Do Espírito das Leis (1748),

Montesquieu conceitua lei como as

relações necessárias que derivam da natureza das coisas e, nesse

sentido, todos