Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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os seres têm as leis; a divindade possui suas leis; o

mundo material possui suas leis; as inteligências superiores ao

homem possuem suas leis; os animais possuem suas leis; o ho-

mem possui suas leis (Montesquieu, 1997, p. 37).

Os homens como seres físicos são governados por leis in-

variáveis, porém como seres inteligentes freqüentemente violam

as leis divinas e modificam as suas leis, que eles mesmos estabe-

leceram.

Montesquieu assinala que os homens estão submetidos a

quatro leis naturais. São elas: 1) a fraqueza indica que eles pro-

curariam a paz; 2) a necessidade os incitaria a procurar alimen-

tos; 3) o prazer levaria à busca da relação entre sexos opostos e,

4) o desejo de viver em sociedade. “Logo que os homens estão em

sociedade, perdem o sentimento de suas fraquezas; a igualdade

que existia entre eles desaparece, e o estado de guerra começa”,

afirma Montesquieu (1997, p. 40).

Charles-Louis de Secondat –
Montesquieu

O aristocrata Charles-Louis de
Secondat, Barão de

Montesquieu (18/01/1689,
perto de Bordéus, na França, e

faleceu em 10/2/1755, em
Paris). Político, filósofo e

escritor francês, filho de uma
família nobre, ficou famoso

pela sua Teoria da Separação
dos Poderes, atualmente

consagrada nas modernas
constituições nacionais.

Teve formação iluminista com
padres oratorianos, de modo

que cedo se mostrou um
crítico severo e irônico da

monarquia absolutista deca-
dente, bem como do clero. Fez
sólidos estudos humanísticos e

jurídicos, mas também
freqüentou em Paris os

círculos da boemia literária.
Famoso como escritor,

Montesquieu passou a maior
parte da vida em Bordéus, mas

sempre voltava a Paris, onde
era muito requisitado. Escre-

veu várias obras, como Cartas
persas (1721), Considera-

ções sobre as causas da
grandeza dos romanos e de

sua decadência (1734) e do
Espírito das leis (1748).

Contribuiu também para a
Enciclopédia e foi uma das

maiores figuras do Iluminismo.

Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Charles_de_Montesquieu>.

Acesso em: 16 jan. 2008.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Considerando que existem diferentes povos e nações, são necessárias leis que regulem

as relações entre eles: é o Direito das Gentes. Cada sociedade tem um Direito político que

regula a relações entre os que governam e os governados e um Direito civil que regula as

relações dos cidadãos entre si. “Sem um governo nenhuma sociedade poderia subsistir. A

reunião de todas as forças individuais forma o que denominamos Estado Político” (p. 41).

Analisando as leis que revela diretamente da natureza do governo constata a existên-

cia de três espécies de governo: a) o republicano, b) o monárquico e c) o despótico. O gover-

no republicano é aquele em que o povo possui o poder soberano, o monárquico é o governo

exercido por uma única pessoa e o despótico é também o governo de uma pessoa que gover-

na segundo sua “vontade e seus caprichos”, desobedecendo às leis vigentes.

A natureza dos governos indica o que faz o governo ser como é; os princípios indicam

como eles agem. Assim, no governo republicano vigora o princípio da virtude, na monar-

quia a honra e no despotismo o medo. Este último está destinado à autofagia, em função

dos conflitos e rebeliões constantes.

Outra contribuição importante é a necessidade da divisão de poderes – Executivo,

Legislativo e Judiciário -, como forma de evitar o poder absoluto e a preservação da

liberdade.As leis devem ser adequadas ao povo para o qual foram criadas. De acordo com

Montesquieu (1997, p. 42),

devem as leis ser relativas ao físico do país, ao clima frio, quente ou temperado; à qualidade do

solo, à sua situação, ao seu tamanho; ao gênero de vida dos povos, agricultores, caçadores ou

pastores; devem relacionar-se com o grau de liberdade que a constituição pode permitir; com a

religião dos habitantes, suas inclinações, riquezas, número, comércio, costumes, maneiras. Pos-

suem elas, enfim, relações entre si e com sua origem, com os desígnios do legislador e com ordem

das coisas sobre as quais são elas estabelecidas.

Tal é o espírito das leis, das relações necessárias inerentes à natureza das coisas.

No próximo capítulo vamos analisar brevemente a formação do pensamento social

não sociológico, que pode ser entendido como o precursor da Sociologia. Trata-se do pen-

samento contratualista, que não considera a sociedade como um dado da própria condi-

ção humana. A sociedade nasce do contrato firmado entre os homens. Vamos considerar

os três autores principais – Hobbes, Locke e Rousseau -, cujas idéias foram fundamentais

para as transformações sociais, sobretudo as revoluções políticas, ocorridas nos séculos

17 e 18.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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Referências

BORNHEIN, Gerd A. (Org.). Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1999.

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CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia – dos pré-socráticos a Aristóteles. São

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DESCARTES, René. Meditações filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural,

1996.

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MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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YOLTON, John W. Dicionário Locke. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Unidade 2Unidade 2Unidade 2Unidade 2Unidade 2

A Fundação da Sociologia:
as Teorias Sociológicas Clássicas

2.1 – O PENSAMENTO SOCIAL ANTERIOR À SOCIOLOGIA

Em todos os tempos os homens elaboraram formas de pensamento referentes a sua própria

sociabilidade. Por exemplo, na Antiguidade clássica destacam-se os pensadores gregos; na Ida-

de Média os pensadores cristãos. Na modernidade, diversas teorias foram criadas no sentido de

compreender as relações sociais. Entre elas destaca-se o contratualismo, como uma forma de

pensamento social que se propõe a explicar a origem e a necessidade do Estado como espaço

fundamental para o estabelecimento de formas permanentes de sociabilidade entre os homens.

Também foi o contratualismo que forneceu as idéias para as novas classes sociais, capacitando-

as a empreenderem movimentos revolucionários contra a sociedade feudal.

O contratualismo fundamenta-se na tríade: estado de natureza – contrato – Estado

(sociedade civil, sociedade política). O ponto de partida é a afirmação de que o homem pode

ser concebido a partir de uma condição natural (estado de natureza), em que ele desfruta,

enquanto indivíduo, de um poder natural (liberdade e igualdade) absoluto. Essa condição

natural é um suposto lógico, não proveniente da observação (vale lembrar que a ciência

moderna tem como um dos seus pressupostos a observação). Devido aos inconvenientes do

estado natural, esse homem (que não é um animal selvagem, mas um ser racional) pode

chegar à conclusão sobre as causas de tais inconvenientes e procurar uma saída, que pode

ser por meio da celebração de um contrato (pacto) do qual participam todos os homens,

para criar um outro poder, mais precisamente um poder civil chamado Estado.

Pela importância histórica e qualidade teórica vamos considerar três autores, dois in-

gleses e um francês. Thomas Hobbes (1588-1679) e John Locke (1632-1704) foram contem-

porâneos das transformações sociais e políticas verificadas na Inglaterra, que culminaram

com