Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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do homem é a vida no Estado”

(Inwood, 1997, p. 124). Nesse sentido, o Estado expressa o momento mais elevado da histó-

ria humana, ou seja, o momento em que o homem, que inicia a sua aventura humana como

ser sensível, eleva-se à condição de Espírito Absoluto. O Estado representa o momento éti-

co–político ou simplesmente o momento da eticidade. Para chegar ao Estado o homem pre-

cisa superar (dialeticamente) a dimensão da família (que expressa o amor e o sentimento) e

o faz no sentido de constituir a sociedade civil. Nesta nova condição o homem se caracteri-

za pela particularidade (os indivíduos), pela divisão do trabalho e pelas trocas.

A sociedade civil constitui um sistema de carências ou necessidades que devem ser

supridas pelo trabalho. O contrato é o instrumento que regula as relações entre os indivídu-

os na sociedade civil. Nessa dimensão, contudo, o homem vive dilacerado por ser apenas

parte e não todo. Esse conflito existencial se resolve com a instituição do Estado, que permi-

te ao homem alçar-se à condição de ser universal, de cidadão, em que cada um se reconhece

no outro. Assim sendo, só no Estado os homens são verdadeiramente livres e iguais.

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O que está em questão é a conquista do gênero humano, da universalidade da condi-

ção humana, da humanidade como um todo, como unidade. O sentimento (família) não é

simplesmente eliminado das relações humanas, mas no Estado ele é transformado em senti-

mento de amor pela pátria, por exemplo. É claro que nessa nova situação – que é resultado

de uma superação dialética – surge a racionalidade como categoria fundamental da ação

política. No Estado o indivíduo é subsumido pelo todo (como na vontade geral de Rousseau),

deixa de ser o ator principal. Para Hegel a constituição do Estado racional envolve três

poderes: o monarca (cargo hereditário para evitar a instabilidade das eleições); o poder exe-

cutivo ou governamental (burocracia, judiciário, etc.); poder Legislativo (expressa o ele-

mento universal porque é o povo como um todo – e não como particulares – que está nele

representado).

Marx e Engels elaboram uma teoria crítica do Estado e da sociedade burguesa. O

ponto de partida é a concepção de Hegel, criticadas por eles pelo seu caráter idealista. Tam-

bém incorporam a essa crítica as reflexões dos socialistas franceses e dos economistas ingle-

ses (Adam Smith e Ricardo). Entendemos, porém, que o pensamento de Marx e Engels já se

situa numa perspectiva sociológica, razão pela qual o abordaremos na próxima seção.

Referências

BOBBIO, Norberto. Teoria das formas de governo. Brasília: Editora UnB, 1988.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política.

Brasília: Editora UnB, 1991.

HEGEL, G. W. F. Princípios da Filosofia do Direito. São Paulo: Ícone Editora, 1997.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

MONTESQUIEU. O espírito das leis. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre

os homens. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

WEFFORT, Francisco (Org.). Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 1991.

YOLTON, John W. Dicionário Locke. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

2.2 – AS TEORIAS SOCIOLÓGICAS CLÁSSICAS – COMTE, DURKHEIM,
MARX E ENGELS, WEBER

Vamos analisar, nesta seção, o pensamento sociológico forma-

do no século 19, em que Comte, Marx e Engels são os precursores.

Tais reflexões caracterizam profundamente as ações humanas na

medida em que afirmam a origem social dos problemas e dos confli-

tos que marcam a modernidade. As soluções preconizadas, obvia-

mente, decorrem desse caráter social do mundo humano. A comple-

xidade desse processo social se estende para a Sociologia, que será

também um palco das lutas que se travam no seio da sociedade.

Posteriormente analisaremos as contribuições de Durkheim, que se-

gue a mesma linha teórica iniciada por Comte, e Weber, que elabora

uma teoria social inteiramente nova, a Sociologia compreensiva.

Esses autores são considerados “clássicos”, pois foram os

responsáveis pela fundação da Sociologia, ou, mais precisamen-

te, criaram as diferentes teorias que compõem a Sociologia. A

exposição será bastante genérica, procurando abordar os aspec-

tos das teorias relativamente consensuais entre os estudiosos.

Além disso, foram empregadas citações dos autores em questão,

para que cada leitor possa elaborar sua própria interpretação dos

mesmos. É assim que o conhecimento se desenvolve: pela capaci-

dade de apreensão crítica do pensamento constituído.

COMTE: Ordem e Progresso

Auguste Comte (1798-1857) é responsável pela elaboração

da primeira reflexão consistente sobre o caráter social do homem,

como fato empiricamente observável. A sociedade humana como

dado objetivo pode ser compreendida por uma ciência particular

que ele denomina primeiramente de Física Social e posteriormente

de Sociologia. Esta conclusão está embasada na formulação da

lei dos três estados, que explicita as formas evolutivas do conhe-

cimento humano: o teológico, o metafísico e o positivo. O estado

positivo ou científico representa o momento mais desenvolvido

do processo de produção de conhecimentos, em que a observa-

ção e a experiência predominam sobre a imaginação.

Auguste Comte

Seu nome completo era
Isidore Auguste Marie François
Xavier Comte (Montpellier,
19/1/1798 — Paris, 5/9/1857)
pensador francês, é o funda-
dor da Sociologia e da teoria
positivista.

No período de 1817-1824 foi
secretário do conde Henri de
Saint-Simon (1760-1825),
expoente do socialismo
utópico, e são dessa época
algumas fórmulas fundamen-
tais: “Tudo é relativo, eis o
único princípio absoluto”
(1819) e “Todas as concep-
ções humanas passam por três
estádios sucessivos – teológi-
co, metafísico e positivo –, com
uma velocidade proporcional à
velocidade dos fenômenos
correspondentes” (1822) (a
famosa “lei dos três estados”).
Publicou, em 1852, o Catecis-
mo positivista, que instituiu a
Religião da Humanidade.

Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Comte>.
Acesso em: 19 jan. 2008.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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Os estágios que expressam o desenvolvimento do conhecimento estão relacionados

com a história da civilização. De acordo com Comte (In: Moraes Filho, 1978):

a primeira é a época teológica e militar. Nesse estado da sociedade, todas as idéias teóricas,

tanto gerais como particulares, são de ordem puramente sobrenatural. A imaginação domina

franca e completamente a observação, à qual é interdito qualquer direito de exame. Do mesmo

modo, todas as relações sociais, quer particulares, quer gerais, são franca e completamente

militares. A sociedade tem como objetivo de atividade, única e permanente, a conquista. De

indústria há apenas o indispensável para a existência da espécie humana. A escravidão pura e

simples dos produtores é a principal instituição.

A segunda época é a época metafísica e legista. Seu caráter geral consiste em não ter nenhum

bem acentuado. É intermediária e bastarda, opera uma transição. Sob o aspecto espiritual (...) a

observação é sempre dominada pela imaginação, mas lhe é permitido modificá-la em certos

limites. Estes limites vão sendo sucessivamente recuados, até que a observação conquista enfim

o direito de exame sobre todos os pontos. (...) Sob o aspecto temporal, a indústria ganhou maior

extensão, sem ser ainda predominante. Por conseguinte, a sociedade não é mais francamente