Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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do trabalho (1978, p. 123).

A divisão do trabalho, responsável pela extensão e a complexificação das sociedades

humanas, pode ser também fator de desintegração social. É da própria natureza da especia-

lização do trabalho que os indivíduos e os grupos sociais se coloquem numa perspectiva

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

cada vez mais limitada, distantes uns dos outros, reforçando o interesse particular em detri-

mento do interesse geral. Essa tendência à dissolução da divisão do trabalho é uma ameaça

ao progresso e precisa ser “incessantemente combatida por uma ação sempre crescente de

governo, e sobretudo de governo espiritual” (Comte). Trata-se, na verdade, da incorporação

do espírito positivo à existência humana, único capaz de produzir o entendimento da verda-

deira função social da divisão do trabalho.

A dinâmica tem como objetivo o estudo do progresso, ou do “desenvolvimento gradual

da humanidade”. Esse processo evolutivo da sociedade não significa somente a melhoria

das condições materiais da vida humana, mas também o desenvolvimento das faculdades

mais importantes, mediante o controle dos apetites físicos e o estímulo dos instintos sociais

e das funções intelectuais no sentido de ampliar a influência da razão nas ações humanas.

A ordem social desenvolve-se segundo uma lei necessária no sentido do aumento da

diferenciação e da complexidade. Esse movimento pode ser considerado a partir das causas

modificadoras da sua velocidade – a raça, o clima e a ação política – e dos fatores efetivos de

mudança social – o tédio, o suceder das gerações e o aumento da população. Sendo assim,

supera-se a ilusão metafísica sobre o aumento da felicidade humana nos diversos estágios

da civilização para afirmar-se o princípio científico “do desenvolvimento contínuo da natu-

reza humana, considerada sob todos esses aspectos essenciais, seguindo uma harmonia

constante e de conformidade com leis invariáveis de evolução” (Comte).

A sociedade preconizada pelo positivismo é uma sociedade hierarquizada. O poder

espiritual deve ficar com os cientistas e o poder temporal com os chefes dos trabalhos indus-

triais (empresários capitalistas). Esses lugares são ocupados segundo o mérito ou as apti-

dões naturais de cada indivíduo. Entre os cientistas deve ser constituída uma nova classe:

os especialistas em Física Social, responsáveis pela elaboração dos estudos sobre a socieda-

de. Além disso, entre os cientistas propriamente ditos e os produtores tende a se formar uma

classe intermediária, a dos engenheiros, “cuja destinação especial é organizar as relações

entre teoria e prática”.

A concepção social de Comte não pretende a eliminação da relação capital e trabalho

da sociedade industrial, segundo a proposta dos socialistas, nem deixar essa relação ao livre

jogo do mercado, como propõem os liberais. O seu programa trabalhista visa a garantir ao

proletário “todos os materiais de seu uso exclusivo e contínuo, dele próprio ou de sua família”

e a afirmação da natureza social da propriedade. Para isso a propriedade privada deve ser

regulada pelo poder espiritual positivista, o que significa a sua subordinação às necessidades

sociais. A crítica comteana voltava-se principalmente ao individualismo egoísta, responsável

pelos abusos cometidos pelos chefes temporais, proprietários dos meios de produção.

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Ainda cabe destacar a transformação sofrida pelo pensa-

mento de Comte, em 1847, quando proclama o positivismo como

a religião da humanidade. Os princípios científicos são obvia-

mente postos a serviço da nova religião, em que a humanidade

ocupa o lugar do deus do cristianismo. A religião positivista foi,

na verdade, a tentativa de construir um movimento político, cujo

objetivo era a reforma moral do homem segundo o princípio “vi-

ver para outrem”. A fórmula sagrada do positivismo era: “o amor

por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”.

DURKHEIM: a Preponderância Progressiva
da Solidariedade Orgânica

Émile Durkheim (1858-1917), partindo do positivismo

comteano, produz uma reflexão decisiva para a constituição e a

institucionalização da Sociologia como ciência da sociedade. É

o responsável direto pela criação da disciplina de Sociologia na

Universidade de Sorbonne, em 1910. Além da elaboração de uma

teoria sobre a sociedade industrial, Durkheim produz uma impor-

tante contribuição sobre o método sociológico, isto é, sobre o

objeto da Sociologia e as regras necessárias para conduzir o pro-

cesso de investigação dos fatos sociais.

O objeto da Sociologia é constituído pelos fatos sociais.

Estes são as manifestações humanas, regulares ou não, que exis-

tem de forma autônoma e independente das manifestações indi-

viduais e exercem uma coerção exterior sobre os indivíduos.

Durkheim leva ao limite o conceito de fato social, como núcleo

definidor da sociabilidade humana, quando afirma que “um fato

social não pode ser explicado senão por um outro fato social”.

Em outras palavras, é o núcleo instituinte da própria condição

humana. A leitura que se pode fazer dessa tese é que os fatos

externos não determinam a natureza da ordem e do movimento

da sociedade; são apenas condicionantes da vida coletiva. Da

mesma forma, não se pode buscar a causa determinante de um

fato social nos estados da consciência individual. A sociedade é

Émile Durkheim

Émile Durkheim (Épinal,
15/4/1858 — Paris,

15/11/1917) é considerado
um dos pais da Sociologia

moderna. Durkheim foi o
fundador da Escola Francesa

de Sociologia, que combinava
a pesquisa empírica com a

teoria sociológica. Foi através
dele que a Sociologia conquis-

tou um espaço institucional
importante, passando a ser
ensinada na Univeridade de

Sorbonne.

A Sociologia fortaleceu-se
graças a Durkheim e seus

seguidores. Suas principais
obras são: Da divisão social
do trabalho (1893); Regras

do método sociológico
(1895); O suicídio (1897); As
formas elementares de vida

religiosa (1912). Fundou
também a revista L’Année

Sociologique.

Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/

Durkheim>.
Acesso em: 19/1/2008.

Imagem disponível em:
<www.leksikon.org/images/

durkheim.jpg>.
 Acesso em: 19/1/2008.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

uma totalidade de fatos que se desenvolvem de acordo com o caráter do meio social interno.

“A origem primária de qualquer processo social de uma certa importância deve ser procura-

da na constituição do meio social interno”, afirma Durkheim.

Como os fatos sociais são realidades objetivas, prega a primeira regra do método socioló-

gico que se deve tratá-los como coisas, no sentido que são realidades desconhecidas, que

não podem ser naturalmente penetráveis pela inteligência humana, mas apenas pela obser-

vação e experimentação, “passando progressivamente dos caracteres mais externos e mais

imediatamente acessíveis aos menos visíveis e aos mais profundos” (Durkheim apud Gianotti,

1983, p. 76). Para dar conta desse processo exige-se que o sociólogo se coloque em relação

aos fatos sociais com o mesmo estado de espírito com que se colocam os físicos, químicos ou

biólogos diante dos seus objetos de investigação. Afirma Durkheim,

o sociólogo, ao penetrar no mundo social, precisa ter consciência de que penetra no desconheci-

do; é preciso que ele se sinta em presença dos fatos cujas leis lhe são tão insuspeitas como eram

as da vida antes da biologia ter-se constituído; é preciso que esteja preparado para fazer desco-

bertas que o surpreenderão e o desconcertarão (apud Gianotti, 1983, p. 77).

Outro aspecto decisivo da Sociologia durkheimana refere-se à necessidade de se elimi-

narem todas as prenoções ou noções vulgares e julgamentos de valor sobre os fatos sociais.

Sem esse procedimento metodológico