Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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não se pode chegar a resultados objetivos, pois se

confunde a coisa com a idéia que se faz da coisa, adentrando-se, assim, no mundo da ima-

ginação. A objetividade e a neutralidade axiológica são as únicas posturas metodológicas

possíveis para a produção de conhecimentos científicos.

A observação dos fatos sociais deve considerar também a existência de duas situações

diferentes: os fatos normais e os patológicos. Levando em conta um tipo social determinado

os fatos são normais quando se produzem na média das sociedades desta espécie, conside-

radas numa fase determinada de desenvolvimento. O fato patológico ou anormal é aquele

que se afasta da média. Por exemplo, o crime – mesmo que seja indesejável – é normal para

uma sociedade dada, considerando seu estágio de desenvolvimento. A função do crime (e da

pena) é reforçar os laços sociais baseados nas semelhanças. O crime pode tornar-se um fato

anormal quando atinge taxas exageradas.

A constituição das espécies sociais está vinculada à distinção entre o normal e o pato-

lógico. Esta constituição obedece à seguinte regra: “começar-se-á por classificar as socieda-

des segundo o grau de composição que apresentam, tomando como base a sociedade perfei-

tamente simples ou de segmento único; no interior destas classes proceder-se-á à distinção

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das diferentes variedades conforme se produz ou não uma

coalescência completa dos segmentos iniciais” (Durkheim). A

sociedade de segmento único é a horda. Os agregados formados

pela repetição de hordas podem ser chamados de sociedade

polissegmentárias simples. A seguir, conforme o grau de comple-

xidade, vêm as sociedades polissegmentárias simplesmente e du-

plamente compostas. Exemplo destas últimas são as cidades. Para

Durkheim,

a sociedade não é uma simples soma de indivíduos, pois o sistema

formado pela associação destes representa uma realidade espe-

cífica que tem as suas características próprias. Sem dúvida que

nada se pode produzir de coletivo sem que se manifestem consci-

ências particulares; mas esta condição necessária não é suficien-

te. É necessário ainda que estas consciências se associem, de uma

certa maneira; é desta combinação que resulta a vida social e,

por conseguinte, é esta combinação que a explica. Ao agregarem-

se, ao penetrarem-se, ao fundirem-se, as almas individuais dão

origem a um ser, psíquico por assim dizer, mas que constitui uma

individualidade psíquica de um estilo novo. É portanto na nature-

za desta individualidade, e não na das unidades componentes,

que se deve procurar as causas próximas e determinantes dos fa-

tos que nela se produzem. O grupo pensa, sente e age de um modo

muito diferente do que o fariam os seus membros caso estivessem

isolados. Portanto, se se parte destes últimos, não se compreende-

rá absolutamente nada do que se passa no grupo (1983, p. 139).

As sociedades – ou as espécies sociais – podem ser identificadas

por duas formas distintas de relações sociais, denominadas de so-

lidariedade mecânica e solidariedade orgânica. Essas duas formas

de solidariedade estão vinculadas entre si, de modo que o cresci-

mento de uma implica o decréscimo da outra. Diz Durkheim que

“existem em nós duas consciências: uma contém os estados que

são pessoais a cada um de nós e que nos caracterizam, enquanto

os estados que abrangem a outra são comuns a toda a sociedade”

(Durkheim, apud Rodrigues, 1981, p. 75).

A solidariedade mecânica representa o tipo coletivo, que se

caracteriza pelo “conjunto de crenças e de sentimentos comuns

à média dos membros de uma mesma sociedade” (p. 74). Essa

Coalescência

União de partes que
estavam separadas.

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consciência coletiva ou comum expressa uma solidariedade sui generis que, originada das

semelhanças, liga o indivíduo diretamente à sociedade, de modo que objetos semelhantes

produzem sempre efeitos semelhantes. A rigor na solidariedade mecânica não existem indi-

víduos relativamente independentes da sociedade; eles são a própria sociedade.

A solidariedade mecânica se expressa por meio do Direito Penal ou repressivo. Isso

quer dizer que os conceitos de crime e pena estão relacionados à consciência coletiva, na

medida em que a preservação das semelhanças é um processo vital para a reprodução da

sociedade. Para Durkheim,

os atos que ele (o direito penal) proíbe e qualifica como crimes são de dois tipos: ou bem eles

manifestam diretamente uma dessemelhança muito violenta contra o agente que os executou e o

tipo coletivo, ou então ofendem o órgão da consciência comum. Tanto num caso como no outro,

a autoridade atingida pelo crime que o repele é a mesma; ela é um produto das similitudes

sociais as mais essenciais, e tem por efeito manter a coesão social que resulta dessas similitudes.

É esta autoridade que o direito penal protege contra todo enfraquecimento, exigindo ao mesmo

tempo de cada um de nós um mínimo de semelhanças, sem as quais o indivíduo seria um ameaça

para a unidade do corpo social, e nos impondo o respeito ao símbolo que exprime e resume essas

semelhanças, ao mesmo tempo que lhes garante (p. 76).

A pena precisa ser compreendida sob a ótica da solidariedade mecânica. Como reação

passional que é, ela não serve para recuperar os indivíduos culpados ou para intimidar

outros indivíduos para que não cometam atos semelhantes. Essa forma aparente da pena

não pode esconder sua verdadeira função: manter intacta a coesão social, mediante a re-

produção da consciência comum.

A solidariedade orgânica expressa relações sociais inteiramente diversas. A pre-

sença de indivíduos com esferas particulares de ação, portanto diferentes, origina outra

forma de solidariedade, que pode ser caracterizada como um “sistema de funções diferentes

e especiais que unem relações definidas”. Para que essa solidariedade possa desenvolver-se

é necessário que a consciência individual não esteja totalmente submetida à consciência

comum, possibilitando, assim, o desenvolvimento da divisão do trabalho, o verdadeiro

substrato social da solidariedade orgânica. Nesse caso produz-se uma relação de dependên-

cia recíproca entre as diversas funções que compõem o todo social. De acordo com Durkheim,

aqui pois a individualidade do todo aumenta ao mesmo tempo em que as partes; a sociedade se torna

mais capaz de se mover em conjunto, ao mesmo tempo que cada um de seus elementos tem mais

movimentos próprios. Esta solidariedade se assemelha àquela que se observa nos animais superio-

res. Cada órgão, com efeito, tem sua fisionomia especial, sua autonomia e, por conseguinte, a unida-

de do organismo é tanto maior quanto a individualização das partes seja mais acentuada (p. 83-84).

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O direito que expressa a solidariedade orgânica não tem um caráter repressivo. É o

direito restitutivo ou contratual – Direito Civil, Comercial, Processual, Administrativo, Consti-

tucional –, cuja ação consiste “apenas no restabelecimento do estado de coisas anterior, na

renovação das relações afetadas na sua forma normal, tanto que o ato incriminado seja re-

cambiado à força à norma de que se desviou, quanto seja anulado, isto é, privado de todo o

valor social” (p. 70). A função do direito restitutivo é regular as diferenças sociais produzidas

pela divisão do trabalho, estabelecendo com clareza os seus respectivos lugares sociais.

A solidariedade orgânica, mesmo produzindo uma totalidade social interdependente, não

elimina a possibilidade de conflitos ou desequilíbrios. Durkheim indica como um dos grandes

problemas da sociedade industrial a presença de situações de anomia, isto é, de ausência de

regras capazes de regulamentar as relações entre os diferentes órgãos. Na medida em que as