Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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Todas as formas econômicas, de poder e de cultura são rea-

lidades históricas e transitórias.

Em O Capital Marx analisa em profundidade a gênese e o desenvolvimento das cate-

gorias que estruturam a sociedade burguesa ou capitalista, bem como as possibilidades de

superação. De imediato é importante destacar uma idéia central que perpassa a compreen-

são marxiana do capitalismo: “o capital é a potência econômica da sociedade burguesa,

domina tudo”. A questão é, então, investigar a origem do capital, as suas determinações e

as contradições que o envolvem.

O modo de produção do capital só pode existir quando se generaliza a produção de

mercadorias. Isso quer dizer que todos os bens produzidos pelo trabalho somente realizam

sua utilidade, que é satisfazer necessidades humanas, mediante a troca. Esses bens não são

apropriados e consumidos segundo as necessidades, mas por meio da troca, ou seja, se os

homens não possuírem mercadorias estão excluídos do processo de troca e, por conseguin-

te, impedidos de satisfazerem suas necessidades vitais. O processo de produção da existên-

cia resume-se, portanto, a um processo de produção de mercadorias.

Para a instituição do capital duas outras condições são exigidas: a existência de ho-

mens livres, sem qualquer vínculo com os meios de produção e homens que desenvolveram

uma acumulação originária – dinheiro – capaz de se apropriar dos componentes fundamen-

tais para a produção de mercadorias. Trata-se dos meios de produção (instrumentos de tra-

balho e matérias-primas) e da força de trabalho para operar os referidos meios de produção.

O dinheiro só age como capital se ele se transforma em meios de produção e força de traba-

lho. Observa Marx:

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O capital também é uma relação social de produção. É uma relação burguesa de produção, rela-

ção de produção da sociedade burguesa. Os meios de subsistência, os instrumentos de trabalho,

as matérias-primas de que se compõe o capital não foram produzidos e acumulados em condi-

ções sociais dadas, de conformidade com relações determinadas? Não são eles empregados para

uma nova produção em condições sociais dadas, de acordo com relações sociais determinadas?

E não é, precisamente, este caráter social determinado que transforma os produtos destinados à

nova produção em capital?

O capital não consiste apenas de meios de subsistência, de instrumentos de trabalho e de maté-

ria-prima, não se forma somente de produtos materiais; compõe-se, igualmente de valores de

troca. Todos os produtos de que se constitui são mercadorias. O capital não é, portanto, somente

uma soma de produtos materiais, é, também uma soma de mercadorias, de valores de troca, de

grandezas sociais (Marx, apud Ianni, 1982, p. 96).

O capital pressupõe a formação de duas classes sociais opostas e complementares: a

burguesia e o proletariado. São sujeitos iguais como proprietários de mercadorias, mas dife-

rentes quanto aos objetivos com que atuam no processo de produção. Os burgueses têm

interesse em produzir para obter lucros; o proletariado vende a sua força de trabalho para a

obtenção dos meios de subsistência para a manutenção da própria vida. Desse modo, o

processo de produção que ocorre durante uma jornada de trabalho determinada apresenta

duas dimensões: salários e lucros.

O salário refere-se ao tempo necessário para a produção da força de trabalho, do qual

constam os tempos necessários para a produção de todos os meios de subsistência para a

manutenção da vida dos trabalhadores. Como explica Marx, o “valor da força de trabalho é

o valor dos meios de subsistência necessários para a manutenção do trabalhador”. Este

valor é obviamente determinado pelo custo social médio dos meios de subsistência necessá-

rios, cuja referência é o mínimo vital – a manutenção física dos trabalhadores.

A conceituação do lucro é um aspecto fundamental da teoria de Marx. As idéias de-

senvolvidas pela economia política tradicional de que o lucro se refere à remuneração do

capitalista ou à retribuição do risco inerente ao investimento são criticadas por Marx. O

lucro fundamenta-se no valor excedente produzido pela força de trabalho, que é apropriado

pelo proprietário dos meios de produção. A força de trabalho é remunerada pelo seu valor;

no entanto ela produz um valor maior do que o seu próprio valor, que corresponde a uma

outra parcela da jornada de trabalho. Esse excedente – que Marx denomina de mais-valia –

se produz durante a jornada institucionalizada de trabalho. Trata-se de um trabalho não

pago, de modo que a origem do capital fundamenta-se na apropriação privada do trabalho

excedente.

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O processo social de produção capitalista é ao mesmo tempo um processo de reprodu-

ção social. Se o capitalista utiliza a mais-valia produzida para consumo trata-se da repro-

dução simples. Se ele emprega apenas uma parte para o consumo e transforma o restante

em dinheiro tem-se a reprodução ampliada ou a acumulação do capital. Neste caso, trata-se

de um processo de conversão da mais-valia em meios de produção e força de trabalho no

sentido da ampliação da produção de mercadorias.

A acumulação capitalista ocorre numa situação de concorrência entre os diversos ca-

pitalistas individuais. Isto impõe a necessidade dos capitalistas aumentarem a produção da

mais-valia. O aumento que decorre do prolongamento da jornada de trabalho consiste na

mais-valia-absoluta. A produção da mais-valia relativa significa o aumento do trabalho ex-

cedente mediante a diminuição do trabalho necessário, isto é, reduz-se valor (tempo de

trabalho) do salário mediante o desenvolvimento das forças produtivas e da organização do

trabalho. A mais-valia relativa leva à subordinação real do trabalho ao capital.

O desenvolvimento da produção da mais-valia relativa faz aparecer uma tendência à

queda da taxa de lucro, que gera uma redução da mais-valia produzida em relação ao capi-

tal total. Para entender o funcionamento desse processo é necessário acrescentar à análise

os conceitos de capital constante – o trabalho morto, contido nos meios de produção – e

capital variável – o trabalho vivo, a força de trabalho. A relação entre capital constante e

variável é denominada por Marx de composição orgânica do capital.

A busca da mais-valia relativa produz um aumento da composição orgânica do capi-

tal, isto é, aumenta o valor do capital constante em relação ao capital variável. Se o primei-

ro apenas transfere valor e este último é que produz a mais-valia, a sua substituição pelas

máquinas tende a retirar do processo de produção trabalho vivo. Isso significa que o aumen-

to da composição orgânica do capital tem como conseqüência a redução da mais-valia, ou

da taxa de lucro.

No âmbito do próprio processo de produção capitalista formam-se (na verdade são

criados) fatores contrários à queda tendencial da taxa de lucro: o aumento do grau de ex-

ploração do trabalho assalariado, a redução dos salários, a baixa de preço dos elementos do

capital constante, a superpopulação relativa, o comércio exterior e o aumento do capital em

ações. A presença desses fatores não evita que em determinados momentos a queda da taxa

de lucro se faça sentir com toda a intensidade sobre a produção capitalista. É o momento

em que se configura uma situação de crise, em que surgem obstáculos que paralisam o

processo de acumulação do capital. O resultado mais visível é a falência das empresas capi-

talistas mais frágeis e do aumento do desemprego. Como afirma Engels:

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nas crises estoura em explosões violentas a contradição entre a produção social e a apropriação

capitalista. A circulação da mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de circula-

ção,