Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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o dinheiro, converte-se num obstáculo para a circulação; todas as leis da produção e da

circulação das mercadorias se viram ao contrário. O conflito econômico atinge o seu ponto

culminante: o modo de produção rebela-se contra o modo de distribuição (s.d., p. 66).

É inegável, no entanto, que a crise cria condições para a retomada da acumulação em

novas bases, elevando o patamar de concentração e de centralização do capital.

Este é, portanto, o centro de gravidade da produção capitalista: a acumulação requer

o aumento continuado da mais-valia. A efetividade desse processo gera as condições para o

surgimento, em determinados momentos, da crise, em que se manifesta a contradição fun-

damental do capitalismo: a apropriação privada e a produção social. Como é o trabalho

assalariado que produz o capital, para que este se reproduza impõe-se a necessidade de

expropriação permanente dos meios de produção de uma parte da sociedade. Isso quer dizer

que a existência do capital requer a presença permanente de uma classe social destituída da

propriedade dos meios de produção. O fundamento da luta de classes no capitalismo é a

disputa pela mais-valia.

A reprodução do capital não se resume à manutenção das relações entre capital e

trabalho assalariado como condição para a produção da mais-valia. Embora seja este o

fundamento da reprodução da sociedade capitalista, trata-se de um processo bem mais com-

plexo. Tal processo não seria possível sem a presença do Estado e da ideologia (ou de uma

cultura). A classe que detém o poder material organiza a dominação no plano das idéias

(“as idéias dominantes de uma época sempre foram apenas as idéias da classe dominante”),

e obviamente no plano político-jurídico. O Estado moderno, embora tenha promovido a

separação entre a esfera privada e a esfera pública, podendo, assim, apresentar-se como

expressão de uma vontade geral, é uma instituição de classe. Esta idéia está presente no

conjunto da obra de Marx e Engels. Por exemplo, no Manifesto do Partido Comunista: “o

poder do Estado moderno nada mais é do que um comitê para administrar os negócios

comuns de toda a classe burguesa” (Marx; Engels, 1996, p. 68).

A ação das idéias dominantes e do Estado, por meio da regulação e da coerção física,

não elimina a produção da mais-valia como núcleo gerador do conflito da sociedade capita-

lista. Na verdade, a construção da superestrutura é uma forma de reforçar a reprodução dos

pressupostos objetivos da acumulação capitalista – a mercadoria, a propriedade privada, o

trabalho assalariado e o lucro. Estas categorias, que expressam interesses particulares, re-

vestem-se de um caráter universal. Esse conflito, mais dia menos dia, também terá sua ex-

pressão no plano político-jurídico, com a presença efetiva, nesse plano, dos sindicatos e,

sobretudo, dos partidos operários.

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Esta forma de compreensão da sociedade burguesa indica também as condições para

sua superação. Por mais avanços que possam ocorrer, inclusive ampliando os direitos dos

trabalhadores, o capitalismo é incapaz de promover a emancipação do homem. A exposição

feita anteriormente contém os argumentos estabelecidos por Marx e Engels que justificam

essa impossibilidade. Daí que o caminho para a emancipação humana passa pela ruptura

da sociedade burguesa e das suas instituições fundamentais. Essa ruptura será obra do

proletariado. O desenvolvimento e a globalização da burguesia significam igual situação

para o proletariado, de modo que estas classes estão indissoluvelmente ligadas desde o nas-

cimento do capitalismo e assim devem permanecer até o seu fim.

No Manifesto do Partido Comunista Marx e Engels expõem com clareza o papel do

proletariado. Afirmam que

todas as classes que no passado conquistaram o poder procuraram consolidar a posição já ad-

quirida submetendo toda a sociedade às suas condições de apropriação. Os proletários não

podem se apoderar das forças produtivas sociais a não ser suprimindo o modo de apropriação

existente até hoje (1996, p. 76).

Como o proletariado terá de se apropriar das forças produtivas sociais ou dos meios de

produção amplamente socializados pela sociedade burguesa, ele não poderá, pela própria

lógica do processo, construir um novo sistema de dominação. A tomada do poder político

pelo proletariado é uma condição necessária para a superação do capitalismo, mas como o

poder político repousa numa relação de classes, uma vez que estas são destruídas, o poder

político torna-se supérfluo, podendo, então, ser eliminado da vida social.

É interessante reproduzir uma afirmação feita por Marx, contida numa carta escrita a

um amigo, J. Weydemeyer:

no que a mim se refere, não me cabe o mérito de haver descoberto a existência das classes na

sociedade moderna nem a luta entre elas. Muito antes de mim, alguns historiadores burgueses já

haviam exposto o desenvolvimento histórico dessa luta de classes e alguns economistas burgue-

ses a sua anatomia econômica. O que eu trouxe de novo foi a demonstração de que: 1) a existên-

cia das classes só se liga a determinadas fases históricas de desenvolvimento da produção; 2) a

luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado; 3) esta mesma ditadura não

é por si mais que a transição para a abolição de todas as classes e para uma sociedade sem

classes (Marx, apud Ianni, 1982, p. 99).

As classes, portanto, são realidades históricas, transitórias. As classes sociais não es-

tavam presentes na organização social das sociedades primitivas. Elas se constituem com o

surgimento da propriedade privada dos meios de produção e se modificam na mesma medida

em que se transformam as condições objetivas da produção social da existência humana. O

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modo de produção capitalista representa a última forma de sociedade cujas relações sociais

são constituídas por classes sociais. A ascensão do proletariado ao poder inaugura uma

nova era na história humana.

A fase de transição, comandada pelo proletariado, é o início do processo de abolição

das classes sociais e do Estado. De acordo com o Manifesto,

se na luta contra a burguesia o proletariado é forçado a organizar-se como classe, se mediante

uma revolução torna-se a classe dominante e como classe dominante suprime violentamente as

antigas relações de produção, então suprime também, juntamente com essas relações de produ-

ção, as condições de existência dos antagonismos de classe, as classes em geral e, com isso, sua

própria dominação de classe (Marx; Engels, 1996, p. 87).

A sociedade comunista é genericamente definida por Marx e Engels como a sociedade sem

classes e sem Estado. A abolição das classes ocorre mediante a socialização dos meios de produ-

ção. Ainda segundo o Manifesto, “o que caracteriza o comunismo não é a abolição da proprieda-

de em geral, mas a abolição da propriedade burguesa” (p. 80). E conclui: “o comunismo não

priva ninguém do poder de se apropriar dos produtos sociais; o que faz é eliminar o poder de

subjugar o trabalho alheio por meio dessa apropriação” (p. 82). Assim, a propriedade perde o seu

caráter de classe, pela abolição da apropriação privada baseada nos tempos de trabalho necessá-

rio e excedente. Institui-se uma forma de apropriação baseada nas necessidades humanas (“de

cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”).

Este processo repercute, também, sobre o Estado. O raciocínio feito por Marx e Engels é

relativamente simples. Se o Estado está necessariamente vinculado à existência das classes

sociais, a abolição destas implica a abolição do próprio Estado. Nesse sentido Engels escreve:

o proletariado toma nas suas mãos o Poder do Estado e começa por converter os meios de produção

em propriedade do Estado. Mas