Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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do resultado; 3) de modo afetivo,

especialmente emocional: por afetos ou estados emocionais atuais; 4) de modo tradicional: por

costume arraigado (1994, p. 15).

A ação racional referente a valores é aquela em que seu autor “age a serviço da con-

vicção” tendo em vista o dever, a dignidade, a beleza, as diretivas religiosas, a importância

de uma causa. É um tipo de ação que ocorre segundo “mandamentos” ou “exigências” que

o agente acredita serem dirigidas a ele, desconsiderando as conseqüências previsíveis. Este

tipo de ação é irracional considerando a ação referente a fins, tanto mais quanto os valores

são colocados de forma absoluta. É o que Weber denomina também de ética da convicção,

uma ética absoluta do tudo ou nada.

A ação racional referente a fins orienta-se pela definição e avaliação dos fins, dos

meios e das conseqüências previsíveis. Essa modalidade de ação é também denominada de

ética da responsabilidade. Segundo Weber,

a decisão entre fins e conseqüências concorrentes e incompatíveis, por sua vez, pode ser orienta-

da racionalmente com referência a valores: nesse caso, a ação só é racional com referência a fins

no que se refere aos meios. Ou também o agente, sem orientação racional com referência a

valores, na forma de “mandamentos” ou “exigências”, pode simplesmente aceitar os fins concor-

rentes e incompatíveis como necessidades subjetivamente dadas e colocá-los numa escala segun-

do sua urgência conscientemente ponderada, orientando sua ação por essa escala, de modo que

as necessidades possam ser satisfeitas nessa ordem estabelecida (princípio da “utilidade margi-

nal”). A orientação racional referente a valores pode, portanto, estar em relações muito diversas

com a orientação racional referente a fins (p. 16).

A ação referente a fins, concebida em termos absolutos, é “essencialmente um caso-

limite construído”.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

As diversas modalidades de ação social são construções de tipos puros. Na realidade é

pouco freqüente que os indivíduos desenvolvam ações exclusivamente em uma ou outra

forma. Isso não significa que determinadas formas de ação social não sejam características

de determinadas sociedades. É caso, por exemplo, da sociedade ocidental, que, para Weber,

caracteriza-se pela presença da racionalidade referente a fins em todas as esferas da vida

social. O homem ocidental está cada vez mais submetido a um processo de racionalização

que tem suas origens no desenvolvimento da Ciência e da diferenciação técnica, conside-

rando a busca da eficácia e do rendimento. A esse processo de racionalização Weber desig-

nou também como “desencantamento do mundo”, ou seja, a perda do sentido mágico ou

sagrado do mundo.

O grande esforço intelectual de Weber foi no sentido de responder à indagação sobre a

singularidade da civilização ocidental, ou seja,

qual a combinação de fatores a que se pode atribuir o fato de na Civilização Ocidental, e somen-

te na Civilização Ocidental, haverem aparecido fenômenos culturais dotados (como queremos

crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado (1997, p. 1).

A resposta dada a esta questão – como vimos – é o processo de racionalização, que

invade todas as esferas da vida ocidental. A Ciência, as artes, a educação, o Direito, a admi-

nistração, a política e a economia são práticas comandadas pela técnica e pelo cálculo

racional, o mesmo ocorrendo com a “força mais significativa de nossa época: o Capitalismo”

(Weber, 1997, p. 4). É claro que em outras civilizações a racionalização também está presen-

te, no entanto ela ficou restrita a certa quantidade de atos, incapaz de expandir-se para o

conjunto da vida social. No Ocidente,

a racionalização se apresenta como uma intelectualização progressiva da vida; despoja o mun-

do de seus encantos e de sua poesia; a intelectualização é desencanto. Em suma, o mundo se

torna cada vez mais a obra artificial do homem, que o governa quase como se comanda uma

máquina. Não há, pois, motivo de espanto ante o impulso formidável da técnica e de seu corolário,

a especialização, graças a uma divisão e uma subdivisão cada vez mais avançadas do trabalho

(Freund, 1987, p. 107).

Não é objetivo dessa exposição do pensamento de Weber analisar cada uma das ex-

pressões – ou racionalidades – da vida social. Cabe ressaltar, porém, uma questão metodológica

importante. Para Weber não é adequado estabelecer uma relação causal única e universal

entre os fenômenos sociais. Tais relações não são dotadas de um caráter necessário, mas

apenas probabilístico. Este aspecto pode ser constatado na sua definição de relação social.

Assegura:

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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Por relação social entendemos o comportamento reciprocamente referido quanto a seu conteúdo

de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta por essa referência. A relação social

consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmente numa

forma indicável (pelo sentido), não importando, por enquanto, em que se baseia essa probabili-

dade (Weber, 1994, p. 16).

Esta concepção é perfeitamente compreensível, pois as ações sociais não são realida-

des objetivas, mas subjetivamente determinadas pelo sentido. A ação social e conseqüente-

mente a relação social persistem apenas enquanto os agentes lhe atribuírem sentido.

Um conceito importante da Sociologia compreensiva é o conceito de dominação legí-

tima. Enquanto o poder significa a probabilidade de impor a própria vontade numa relação

social, a dominação refere-se à probabilidade de conseguir obediência a uma ordem deter-

minada. A relação entre mando e obediência está na base do conceito de legitimidade, cujo

sentido atribuído a essa relação permite conceber formas diferentes de dominação legítima:

legal racional, tradicional, carismática. As três formas de dominação também constituem

tipos puros, porém na realidade elas podem coexistir. Segundo Weber,

há três tipos puros de dominação legítima. A vigência de sua legitimidade pode ser, primordial-

mente:

1. de caráter racional: baseada na crença na legitimidade das ordens estatuídas e do direito de

mando daqueles que, em virtude dessas ordens, estão nomeados para exercer a dominação (do-

minação legal), ou

2. de caráter tradicional: baseada na crença cotidiana, na santidade das tradições vigentes

desde sempre e na legitimidade daqueles que, em virtude dessas tradições, representam a autori-

dade (dominação tradicional), ou, por fim,

3. de caráter carismático: baseada na veneração extracotidiana da santidade, do poder heróico,

ou do caráter exemplar de uma pessoa e das ordens por esta reveladas ou criadas (dominação

carismática).

No caso da dominação baseada em estatutos, obedece-se à ordem impessoal, objetiva e legal-

mente estatuída e aos superiores por ela determinados, em virtude da legalidade formal das suas

disposições e dentro do âmbito de vigência destas. No caso da dominação tradicional, obedece-

se à pessoa do senhor nomeada pela tradição e vinculada a esta (dentro do âmbito de vigência

dela), em virtude de devoção aos hábitos costumeiros. No caso da dominação carismática, obe-

dece-se ao líder carismaticamente qualificado como tal, em virtude da confiança pessoal em

revelação, heroísmo ou exemplaridade dentro do âmbito da crença nesse carisma (Weber, 1994,

p. 141).

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

A dominação legal racional é uma característica da sociedade moderna ocidental. Entre

os processos que a constituem está o desenvolvimento da racionalidade legal, ou seja, do

Direito moderno, que ocupa lugar central nessa forma de dominação. Na verdade os ho-

mens obedecem a regras abstratas, universais e impessoais, que são, em última instância,

estabelecidas racionalmente pelo