Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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sidades os recursos para pesquisa em Ciências Sociais tenham sido bastante reduzidos. Este

fato não se deve a uma perda de capacidade da Sociologia de explicar o mundo social. Pode-

se dizer que a crise do Estado do Bem-Estar Social e a hegemonia do mercado na promoção

do crescimento e da prosperidade foram fatores decisivos para definir um lugar “marginal”

para a Sociologia na sociedade. Não é por acaso que hoje se observa um processo de apro-

ximação dos movimentos e instituições sociais com o pensamento sociológico crítico. A

rigor não há nenhuma novidade nisso, pois a Sociologia constituiu-se e se desenvolveu no

âmbito das lutas sociais da modernidade.

Vários autores têm produzido reflexões importantes sobre o caráter das transforma-

ções sociais atuais. Entre eles destacam-se Alain Touraine, Boaventura de Sousa Santos,

Manuel Castells, Niklas Luhmann, Pierre Bourdieu, Octavio Ianni, Immanuel Wallerstein,

Anthony Giddens, Pierre Lévy, John Thompson, Zigmunt Bauman, Jena Lojkine, Ulrich Beck,

Edgar Morin, Michel Maffesoli e Jürgen Habermas. Há também um número bastante ex-

pressivo de pensadores (da Sociologia e de outras áreas do conhecimento), com importantes

análises sobre o capitalismo atual numa perspectiva marxiana, como é o caso de István

Mészáros, na sua obra Para Além do Capital. Esses autores, seguindo a posição de Georg

Lukács, não consideram o marxismo como uma Sociologia, na medida em que estão ausen-

tes nele as questões econômicas na análise da sociedade.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Não vamos discutir a contribuição dos autores. Cabe ape-

nas fazer algumas considerações gerais sobre a transição social,

inspiradas nas contribuições desses autores, que representam o

universo da Sociologia neste momento histórico. Vamos conside-

rar três questões principais que estão no centro dos debates: os

fundamentos da sociabilidade humana, o caráter das transfor-

mações sociais e as instituições da modernidade e os problemas

epistemológicos, postos pela transição social.

A primeira questão diz respeito ao fundamento da socia-

bilidade humana. Na modernidade as duas principais teorias so-

ciológicas – marxismo e positivismo – partiram do trabalho como

categoria explicativa das sociedades. Essa discussão foi feita na

unidade anterior, quando tratamos dos “clássicos” da Sociolo-

gia. Para Marx, o trabalho tem uma dimensão constitutiva do ser

humano; para Durkheim, o trabalho é o fundamento da solidarie-

dade orgânica, que caracteriza a integração social na sociedade

industrial.

Atualmente vem ocorrendo um questionamento da catego-

ria trabalho. Vários autores, como Habermas e Luhmann, têm sus-

tentado que os processos sociais são processos de comunicação.

Assim, o homem não é prioritariamente um ser que “fabrica ferra-

mentas”, mas um ser que produz linguagem. A centralidade da

linguagem nos processos sociocomunicativos está fundamentada

na chamada “virada lingüística”, em que a filosofia da consciên-

cia é superada pela filosofia da linguagem. As conseqüências do

novo paradigma sobre a teoria sociológica são profundas. Por exem-

plo, na perspectiva de Habermas, a emancipação humana deslo-

ca-se do mundo do trabalho para o campo da “ação comunicati-

va”; na perspectiva da teoria dos sistemas, Luhmann sustenta que

os sistemas sociais, como sistemas “autopoiéticos, auto-referentes

e operacionalmente fechados”, são formados por comunicações.

Sociólogos que atuam nas universidades de vários países

definem a categoria trabalho como o fundamento da sociabilida-

de humana. Eles compõem um grupo bastante significativo, com

intensa produção intelectual e vinculação com as lutas sociais.

É importante destacar que estes autores têm buscado sua funda-

Filosofia da consciência

Teorias que afirmam o homem
como ser consciente, seja do
ponto de vista idealista (idéia
precede a matéria), seja do
ponto de vista materialista
(matéria precede a idéia).

Autopoiéticos

Sistemas que produzem a si
próprios. Vem da palavra grega
“poiese” que significa produ-
ção, fabricação. Ela se opõe à
práxis.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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mentação teórica nas obras do próprio Marx, de Georg Lukács,

principalmente a Ontologia do Ser Social, e de Antonio Gramsci.

Por meio da reelaboração do conceito de sociedade civil, como

momento da conquista da direção moral e intelectual (hegemonia)

da sociedade, Gramsci recoloca a discussão do Estado. Em senti-

do amplo, o Estado define-se como a sociedade política mais a

sociedade civil (“hegemonia revestida de coerção”). Já Lukács, a

partir do conceito de ontologia, afirma que as questões presentes

na obra de Marx constituem uma discussão sobre “um certo tipo

de ser”, ou seja, é a condição humana que se revela pelo traba-

lho, o fundamento da sua sociabilidade e historicidade.

Uma segunda questão refere-se ao impacto das transforma-

ções sociais sobre as instituições clássicas da modernidade: a fá-

brica fordista, o Estado-Nação, a família, a escola e a Igreja. To-

das essas instituições estão sendo redesenhadas pela sociedade

informacional global. Para detalhar um pouco mais esse processo

vamos considerar que está em desenvolvimento uma terceira re-

volução industrial. A diferença entre essa nova revolução e as

anteriores é que ela, pela criação de tecnologias inteligentes, atua

sobre o cérebro do homem. Por isso, Jean Lojkine a denomina de

revolução informacional.

Sob o impacto da revolução informacional a fábrica fordista

transforma-se em pós-fordista ou toyotista; é uma fábrica flexí-

vel, descentralizada, exige cada vez mais inteligência artificial,

dispensa trabalhadores e precariza as relações de trabalho. Esse

novo modelo fabril constitui a megaempresa capitalista

globalizada, cuja capacidade de acumulação é maior que a gran-

de maioria dos Estados nacionais. Outra característica desse novo

mundo empresarial é a crescente centralização e concentração

de capitais (processos de fusões e aquisições de empresas são

quase diários). Além disso, generaliza-se um processo econômico

de “financeirização da riqueza”.

O Estado nacional, instituição política afirmativa da sobe-

rania nacional, sofre as conseqüências do processo de globalização

da economia. Os governos têm se mostrado incapazes de formu-

lar e operacionalizar políticas macroeconômicas de caráter nacio-

Tecnologias inteligentes,
realidade virtual

e ciberespaço

Podem ser considerados
conceitos equivalentes. Eles se

referem às novas relações
sociais estabelecidas pela

revolução informacional, que
se caracterizam cada vez mais

pela mediação de meios
técnicos dotados de uma

inteligência artificial, ou seja, de
uma inteligência que se opõe e

ao mesmo tempo amplia a
inteligência natural do homem.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

nal, porque se observa a existência de múltiplos centros de decisão, descentralização que

lhes permite, em grande parte, uma liberação das amarras impostas pelos territórios nacio-

nais. Além disso, por decisão política o Estado-Nação se afasta da regulação da economia e

da questão social, deixando que estas se realizem segundo as leis do mercado. Obviamente

surgem novas estruturas de poder, que operam num território supranacional, em permanen-

te movimento e mutação. Também a ordem jurídica estatal, um dos pilares do Estado Demo-

crático de Direito e da soberania nacional, sofre profundas transformações. Estruturam-se

novas fontes do Direito, vinculadas às grandes empresas e aos mercados globalizados.

A família patriarcal, modelo clássico da sociedade industrial, está em crise. A escola

formal, principalmente a universidade, deixa de ser a única instituição voltada para a for-

mação profissional e não consegue acompanhar