Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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Ciências Sociais como novo paradigma da Ciência.

Um conjunto de questões que hoje estão sendo postas para as Ciências Naturais –

como o debate sobre a relação sujeito e objeto ou sobre a relação entre parte e todo – são,

por assim dizer, constitutivos da Sociologia e das Ciências Sociais. Acrescente-se o fato de

que cada vez mais os estudos sobre a natureza são estudos sobre a sociedade que se organi-

za e sobredetermina o meio ambiente natural. É claro que a Sociologia teria de se recons-

truir, desfazendo-se das teorias que são extensões das Ciências Naturais, revalorizando as

humanidades e as outras formas de saber não-científico. Por fim, diferentemente da Ciência

moderna que se afirma pela negação do senso comum, a “Ciência pós-moderna” interage

com ele. Segundo Boaventura de Sousa Santos,

deixado a si mesmo, o senso comum é conservador e pode legitimar prepotências, mas

interpenetrado pelo conhecimento científico pode estar na origem de uma nova racionalidade.

Uma racionalidade feita de racionalidades. Para que esta configuração de conhecimento ocorra

é necessário inverter a ruptura epistemológica. Na ciência moderna a ruptura epistemológica

simboliza o salto qualitativo do conhecimento do senso comum para o conhecimento científico;

na ciência pós-moderna o salto mais importante é o que é dado do conhecimento científico para

o conhecimento do senso comum. O conhecimento científico pós-moderno só se realiza enquanto

tal na medida em que se converte em senso comum (2004, p. 90-91)

A denominação pós-moderna (ou pós-modernidade) tem um sentido bem preciso para

Boaventura. Ele identifica duas versões possíveis para o conceito. Uma das versões, denomi-

nada pós-modernismo reconfortante ou de celebração, que afirma que a crise é do esgota-

mento da própria idéia moderna da transformação social do capitalismo, esvaziando-se,

assim, qualquer possibilidade de atribuir sentido histórico para a vida social; a outra, com a

qual ele se identifica, o pós-modernismo inquietante ou de oposição, fundamenta-se na

idéia de transição paradigmática. Essa posição caracteriza o momento atual pela coinci-

dência de duas crises: da regulação e da emancipação social. Isso significa que as promes-

sas da modernidade não podem ser realizadas pelo capitalismo e nem pelos mecanismos

estabelecidos pelo pensamento moderno (o socialismo marxista, por exemplo).

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Em outro texto – O Fórum Social Mundial: Manual de Uso

– Boaventura de Sousa Santos coloca a problemática da produ-

ção dos conhecimentos numa perspectiva Norte-Sul. Essa pers-

pectiva de análise foi viabilizada pelo Fórum Social Mundial, que

ele identifica como uma epistemologia do Sul. A rigor esta dis-

cussão não é nova na Sociologia. Tomando-se os conhecimentos

sociológicos produzidos no Brasil e na América Latina vê-se que

os mais significativos, que adquiriram força popular, foram aque-

les que observaram o mundo ocidental da periferia para o centro.

Dessa perspectiva intelectual surgiu a teoria da dependência, nas

suas várias versões.

O Fórum Social Mundial (FSM) possibilita o estabelecimento

de uma Sociologia das ausências e de uma Sociologia das emer-

gências. A primeira permite detectar que o não existente é produ-

zido como tal. Assim, a não existência se manifesta nas

monoculturas do saber e do rigor do saber, do tempo linear, da

naturalização das diferenças, do universal e do global e dos crité-

rios de produtividade e de eficácia capitalista. Estas monoculturas

seriam superadas pelo reconhecimento dos múltiplos saberes e das

diferenças, das múltiplas temporalidades e das produtividades e

das várias escalas de desenvolvimento. Finalmente, afirma uma

Sociologia das emergências, que deve se ocupar das pesquisas

das alternativas que cabem no horizonte das possibilidades con-

cretas. Consiste em proceder a uma ampliação simbólica dos sa-

beres, práticas e agentes de modo a identificar neles as tendênci-

as do futuro (o Ainda-Não) sobre as quais é possível intervir para

maximizar a probabilidade de esperança em relação à probabili-

dade da frustração. A ampliação simbólica é, no fundo, uma for-

ma de imaginação sociológica que visa um duplo objetivo: por

um lado, conhecer melhor as condições de possibilidade da espe-

rança; por outro, definir princípios de acção que promovam a

realização dessas condições.

E conclui:

a ampliação simbólica operada pela sociologia das emergências

consiste em identificar sinais, pistas ou traços de possibilidades

futuras em tudo o que existe. A ciência e a racionalidade

Fórum Social Mundial

“O FSM é um espaço de debate
democrático de idéias,
aprofundamento da reflexão,
formulação de propostas, troca
de experiências e articulação de
movimentos sociais, redes,
ONGs e outras organizações da
sociedade civil que se opõem
ao neoliberalismo e ao domínio
do mundo pelo capital e por
qualquer forma de imperialis-
mo. Após o primeiro encontro
mundial, realizado em 2001, se
configurou como um processo
mundial permanente de busca
e construção de alternativas às
políticas neoliberais. Esta
definição está na Carta de
Princípios, principal documen-
to do FSM”

Saiba mais sobre
o assunto acessando:
<http://www.forumsocialmundial.
org.br/>

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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hegemônicas descartaram totalmente este tipo de pesquisa, ou

por considerarem que o futuro está pré-determinado, ou por en-

tenderem que ele só pode ser identificado através de indicadores

precisos. Para elas, pistas são algo demasiado vago, subjetivo e

caótico para constituir um indicador credível. Ao centrar-se in-

tensamente na componente de pista que a realidade possui, a so-

ciologia das emergências amplia simbolicamente as possibilida-

des de futuro que residem, em forma latente, nas experiências

sociais concretas (Santos, 2005, p. 31-33).

O Fórum Social Mundial, como expressão dos múltiplos

movimentos e instituições sociais, locais e globais, precisa ser

compreendido como uma utopia crítica, ou seja, como crítica ra-

dical ao mundo social organizado pela globalização neoliberal.

Esta é colocada como a única alternativa para o desenvolvimen-

to das sociedades. O FSM é a afirmação de uma globalização

contra-hegemônica, que se desenvolve como epistemologia do Sul

e como ação política cosmopolita das classes subalternas.

Outro autor que tem trazido à discussão o paradigma da

ciência moderna é Edgar Morin. Partindo da crítica ao paradigma

tradicional, caracterizado pela disciplinaridade, pelo reducionismo

e pela linearidade, introduz a idéia da complexidade. O pensa-

mento complexo fundamenta-se nos seguintes princípios:

sistêmico (relação parte e todo); hologramático (o todo está em

cada parte); anel retroativo (auto-regulação); anel recursivo

(autoprodução e auto-organização); auto-eco-organização (au-

tonomia e dependência); dialogicidade (a unidade entre dois prin-

cípios) e a reintrodução do sujeito que conhece em todo o proces-

so de produção do conhecimento. O pensamento complexo não

pretende abandonar os princípios da ordem, da separabilidade e

da lógica clássica, mas conceber separação e união, ordem e de-

sordem, certeza e incerteza numa perspectiva de totalidade. Em

outras palavras, unir é distinguir e contextualizar, separar e jun-

tar o todo e as partes.

A idéia da complexidade exige uma reforma do pensamento

e da própria universidade, lugar por excelência da produção do

conhecimento. A universidade deve colocar-se na perspectiva

Edgar Morin

Edgar Morin, cujo verdadeiro
nome é Edgar Nahoum,

nasceu em Paris, em 8/7/1921,
sociólogo e filósofo francês de

origem judaico-espanhola
(sefardita).

Pesquisador emérito do CNRS
(Centre National de la

Recherche Scientifique).