Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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Formado em Direito, História e

Geografia, adentrou na
Filosofia, na Sociologia e na

Epistemologia. Um dos
principais pensadores sobre

complexidade. Autor de mais
de 30 livros, entre eles: O
método, Introdução ao
pensamento complexo,

Ciência com consciência e Os
sete saberes necessários

para a educação do futuro.
Durante a Segunda Guerra

Mundial participou da Resis-
tência Francesa. É considerado

um dos pensadores mais
importantes do século 20.

Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/

Niklas_Luhmann>.
Acesso em 20 jan. 2008.

<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Edgar_Morin>

Imagem disponível em:
<blog.pucp.edu.pe/media/410/

20061103-Morin.JPG>.
Acesso em: 20 jan. 2008.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

institucional como produto e ao mesmo tempo como produtora

da sociedade. Pode-se constatar que o pensamento complexo de-

senvolveu-se sob o estímulo das disciplinas e das duas revolu-

ções científicas. Segundo Morin (2000, p. 36-37),

a segunda revolução científica – mais recente, ainda inacabada –,

a revolução sistêmica, introduz a organização nas ciências da ter-

ra e da ciência ecológica; ela se prolongará, sem dúvida, em revo-

lução de auto-organização na biologia e na sociologia. O pensa-

mento complexo é, portanto, essencialmente aquele que trata com

a incerteza e consegue conceber a organização. Apto a unir,

contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo a reconhecer o

singular, o individual e o concreto. O pensamento complexo não se

reduz nem à ciência, nem à filosofia, mas permite a comunicação

entre elas, servindo-lhes de ponte. O modo complexo de pensar não

tem utilidade somente nos problemas organizacionais, sociais e

políticos, pois um pensamento que enfrenta a incerteza pode escla-

recer as estratégias no nosso mundo incerto; o pensamento que une

pode iluminar uma ética da religação ou da solidariedade. O pen-

samento da complexidade tem igualmente seus prolongamentos

existenciais ao postular a compreensão entre os homens.

O pensamento sistêmico não se expressa apenas por meio

da complexidade. Niklas Luhmann, partindo da teoria dos siste-

mas, sobretudo da contribuição do biólogo chileno Humberto

Maturana, pretende estendê-la para a Sociologia, ainda esterili-

zada pela vigência das teorias sociológicas clássicas. Para isso,

propõe três rupturas:

– com a idéia humanista que concebe a sociedade como uma re-

lação entre pessoas;

– com a sociedade como território, no sentido de conceber as di-

ferenças na sociedade e não entre sociedades;

– com a diferença entre sujeito e objeto do conhecimento. Em vez

de considerar a sociedade como uma realidade objetiva, que

pode ser compreendida por um sujeito, Luhmann propõe uma

teoria dos sistemas sociais, fundada na diferença entre sistema

e ambiente. Os sistemas sociais não são formados por pessoas,

mas por sistemas de comunicação, que se produzem

autopoieticamente. Segundo ele, os desenvolvimentos já esbo-

çados da teoria dos sistemas possibilitam um salto,

Luhmann

(Lüneburg, 8/12/1927 —
Oerlinghausen, 6/11/1998),
sociólogo alemão, sendo hoje
considerado, juntamente com
Jürgen Habermas, um dos
mais importantes representan-
tes da Sociologia alemã.

Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Niklas_Luhmann>.
Acesso em: 20 Jan. 2008.

Imagem disponível em:
<www.soziale-systeme.de/
images/luhmann2.jpg>.
 Acesso em: 20 jan. 2008.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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pois eles são capazes de mostrar que as premissas clássicas são inúteis e por que, e podem

apresentar um design teórico para ocupar o lugar delas; ou seja, a teoria dos sistemas sociais

auto-referenciais e operacionalmente fechados. A teoria dos sistemas autopoiéticos exige sobre-

tudo que se determine com exatidão a operação que realiza a autopoiésis do sistema e que,

através disso, reproduz tanto os elementos (isto é, estas mesmas operações), como também a

diferença entre sistema e ambiente, isto é, a “forma” do sistema (Luhmann, 1997, p. 69-70).

A sociedade é um sistema que se auto-observa e se auto-explica. Não há observadores

externos à sociedade. Cada subsistema opera como um sistema autopoiético, auto-referente

e operacionalmente fechado. As relações entre sistema e ambiente são explicadas pelo con-

ceito de acoplamento estrutural, que permite o estabelecimento de interdependências regu-

lares para atender às demandas de autoprodução do sistema. O ambiente, contudo, mesmo

sendo pré-requisito para a autopoiése do sistema, não intervém na realização. O ambiente

não contribui para as operações do sistema, mas pode irritá-lo quando aparece no sistema

como informação.

A teoria dos sistemas é uma das mais ousadas projeções da teoria sociológica, pois

além de questionar a compreensão da sociedade elaborada pela Sociologia clássica, intro-

duz a necessidade de uma ruptura epistemológica com o paradigma da ciência moderna, do

qual a Sociologia é parte integrante. De acordo com Luhman (1997, p. 48),

uma vez que se decida por esse caminho, torna-se fácil transferir para a sociologia todas as

inovações importantes da mais recente teoria dos sistemas. Sobretudo produz-se um conceito

inequívoco da sociedade e, com isso, uma teoria do sistema social mais amplo, a qual sempre

fracassou na sociologia vigente com base nas consideráveis diferenças nacionais, culturais, regi-

onais e políticas. Tudo isso pode agora ser tratado como diferenciação social interna, por exem-

plo, como diferença na extensão da participação nas vantagens e desvantagens da moderna

civilização. Decisivo é: a sociedade é o sistema social mais amplo de reprodução da comunica-

ção através da comunicação. É um sistema autopoiético. Ela é um sistema fechado, auto-

referencial, já que não existe nenhuma comunicação entre a sociedade e seu ambiente, por exem-

plo, entre a sociedade e pessoas que vivem individualmente. Toda a comunicação é uma opera-

ção interna à sociedade, é produção de sociedade e se expõe como acontecimento empírico, não

somente à continuação, mas também à observação através de outras comunicações. Neste senti-

do a sociedade moderna alcança uma complexidade que lhe permite reproduzir múltiplas

autodescrições, não passíveis de serem integradas, e, simultaneamente, observar através de des-

crições das descrições que isto acontece.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Cabe ainda uma referência breve à teoria da ação comuni-

cativa de Habermas e suas implicações epistemológicas na Soci-

ologia. Como já nos referimos, a sua reflexão se desenvolve ten-

do como referência a Filosofia da Linguagem, o que significa des-

locar toda a problemática humana para este novo paradigma.

Habermas parte da crítica elaborada pela teoria social crítica, da

Escola de Frankfurt, que analisa o caráter instrumental assumi-

do pela razão, sob o capitalismo, transformando-se numa forma

de dominação. Para Habermas existem duas racionalidades: a

razão instrumental, que vincula o homem à natureza, e a razão

comunicativa, que permite a reintrodução da perspectiva

emancipatória no projeto da modernidade.

A razão comunicativa se expressa pela da linguagem, reali-

dade auto-referencial e auto-suficiente, que permite distinguir o

homem como ser social. A linguagem é a única coisa que pode-

mos conhecer; como realidade visível podemos proceder a uma

análise objetiva por intermédio das suas expressões gramaticais.

A linguagem é também o meio que permite aos homens estabele-

cerem relações entre si e com o mundo, ou seja, possibilita o en-

tendimento entre os homens sobre uma determinada situação. À

ação comunicativa, guiada pelo entendimento, corresponde o

interesse emancipatório, ou de uma razão libertadora.

No novo paradigma, o conhecimento não se dá por meio da