Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
122 pág.

Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

Disciplina:Fundamentos das Ciências Sociais9.774 materiais109.066 seguidores
Pré-visualização40 páginas
relação entre sujeito e objeto, mas da relação entre sujeitos ca-

pazes de produzirem entendimentos sobre o mundo. A verdade

torna-se consensual; ela resulta da relação intersubjetiva entre

sujeitos falantes e ouvintes, participantes de uma comunidade

comunicacional. A ação comunicativa tem como pano de fundo

o “mundo da vida”, horizonte de referência simbólica comum a

todos, que torna possível o entendimento. Ele apresenta dois

momentos: enquanto suposto do entendimento ele é “quase

transcendental”; como expressão empírica, ele é o produto da

ação comunicativa, da tomada de posição e dos acordos produzi-

dos pelos sujeitos. Formado por três estruturas permanentes e

atemporais – cultura, personalidade e sociedade –, o mundo da

vida é, na verdade, o espaço das interações (ou da socialização)

produzidas pelos sujeitos. Ele define os limites – sempre provisó-

rios – sobre o que e como pode haver entendimento.

Filosofia da linguagem

Teoria que propõe a superação
da Filosofia da consciência e
sua forma de compreender o
homem, colocando a lingua-
gem como fundamento do
homem, ou seja, o homem é
um ser cuja racionalidade se
expressa em primeiro lugar no
ato da produção da linguagem
(palavras, sons, imagens).

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

114

A ação comunicativa visa ao entendimento, mas para que ele se viabilize é necessário

estabelecer o critério da “busca do melhor argumento”, ou seja, que as pretensões de valida-

de sejam racionalmente construídas. Além disso, deve-se considerar uma “situação ideal de

fala”, como possibilidade de criticar um consenso estabelecido. Nesse caso, é preciso supor

uma distribuição simétrica (ou igualitária) entre os participantes das possibilidades de falar,

proceder a interpretações, explicações, justificações, permitir, proibir, fazer promessas, etc.,

sem coações, a não ser a única coação permitida, a da busca do melhor argumento.

A razão instrumental está ligada ao conhecimento técnico que visa à dominação; a

emancipação está, pois, vinculada à racionalidade comunicativa. A modernidade produziu

a dissociação entre as duas racionalidades e a colonização do mundo da vida pela

racionalidade instrumental, materializada na organização sistêmica do poder e do dinheiro.

Esse processo explica o surgimento das patologias sociais na sociedade contemporânea. A

superação das patologias pode ser alcançada pela afirmação da racionalidade comunicati-

va, que consiste em revigorar a esfera pública, mediante o fortalecimento da sociedade civil,

da neutralização dos efeitos do sistema do poder e do dinheiro sobre o processo decisório e

da democratização das instituições econômicas e políticas. Esse processo deve ocorrer em

consonância com o Estado Democrático de Direito, espaço político fundamental para regu-

lar as ações comunicativas. Além disso, Habermas vislumbra a necessidade de estruturas

globais de comunicação não-estatais (as ONGs, por exemplo) para evitar a reprodução do

sistema do poder e do dinheiro.

Buscamos, nesta unidade, estruturar um quadro geral da Sociologia nos tempos atu-

ais de transição social. O objetivo delineado não foi discutir exaustivamente as contribui-

ções dos diferentes sociólogos sobre o mundo atual ou sobre as questões que dizem respeito

às condições de produção dos conhecimentos sociológicos. Enfatizamos apenas alguns au-

tores, aqueles cujas reflexões, a nosso juízo, são mais instigantes. Mais precisamente, foram

feitas provocações para que cada um faça as suas próprias leituras e chegue as suas próprias

conclusões. É assim que se produz o pensamento crítico e transformador.

Referências

ARAGÃO, Lucia Maria de Carvalho. Razão comunicativa e teoria social crítica em Jürgen

Habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992.

ARAGÃO, Lucia. Habermas: filósofo e sociólogo do nosso tempo. Rio de Janeiro: Tempo

Brasileiro, 2002.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Ed. Unesp, 1991.

115

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

GIDDENS, Anthony; BECK, Ulrich; LASH, Scott. Modernização reflexiva – política, tradi-

ção e estética na ordem social moderna. São Paulo: Ed. Unesp, 1997.

IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.

IANNI, Octavio. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

2000.

LÉVY, Pierre. A conexão planetária – o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo:

Editora, 2001.

LOJKINE, Jean. A revolução informacional. São Paulo: Cortez Editora, 1999.

LUHMANN, Niklas. A nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: Ed. UFRGS; Goethe-Institut/

ICBA, 1997.

MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, Francisco

Menezes; SILVA, Juremir Machado da. Para navegar no século XXI – tecnologias do imagi-

nário e cibercultura. Porto Alegre: EDIPUCRS/Sulina, 2000.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez Editora,

2004.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice – o social e político na pós-modernidade.

São Paulo: Cortez Editora, 1995.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O Fórum Social Mundial: manual de uso. São Paulo: Cortez

Editora, 2005.

SIEBENEICHLER, Flávio Beno. Jürgen Habermas – razão comunicativa e emancipação.

Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

TOURAINE, Alain. Um novo paradigma – para compreender o mundo atual. Petrópolis:

Vozes, 2006.

VASCONCELOS, Maria José Esteves de. Pensamento sistêmico – o novo paradigma da ciên-

cia. Campinas: Papirus, 2002.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

116

117

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

ConclusãoConclusãoConclusãoConclusãoConclusão

As questões discutidas neste livro dizem respeito ao processo de formação e desenvol-

vimento da Sociologia, considerado ao mesmo tempo como um processo social e intelectual.

A Sociologia, que produz conhecimentos sobre a sociedade, atua também na produção da

própria sociedade. Por isso, analisamos o contexto social, histórico e intelectual de forma-

ção da Sociologia, supondo a ação da Sociologia sobre esse contexto, de modo que a situa-

ção atual de transição social foi produzida também pelos conhecimentos sociológicos gera-

dos nos últimos 200 anos. Empregamos na análise a metodologia desenvolvida pela Socio-

logia, da relação dialética entre parte e todo.

A Sociologia é produto das grandes transformações sociais – a Revolução Industrial e

as revoluções políticas – que ocorreram no final do século 18 e início do século 19. Como a

Sociologia propõe-se a produzir um discurso científico sobre a sociedade, recuperamos, em

termos bastante genéricos, o processo de constituição da ciência moderna, do qual a Física

é a expressão mais desenvolvida. Assim, é possível entender o fato de as Ciências Naturais

terem constituído o paradigma científico.

Obviamente, esse paradigma se estende também para o interior da Sociologia. É claro

que esse processo não se impôs à Sociologia de forma determinista, porque se instalou um

grande debate sobre a natureza da ciência da sociedade. A Sociologia compreensiva e o

materialismo histórico questionaram radicalmente a aplicabilidade do método das Ciências

Naturais na investigação sociológica, criando uma metodologia particular, que posterior-

mente foi incorporada pelo conjunto das Ciências Sociais contemporâneas.

A Sociologia revelou que a questão do método também está vinculada ao ponto de

vista do observador/sociólogo. Embora buscado por muitos sociólogos, não foi possível esta-

belecer um consenso sobre as questões de método, pela profundidade das diferenças exis-

tentes. Por isso, além das diferenças na explicação da sociedade, as teorias sociológicas

também evidenciaram diferenças metodológicas importantes. As questões metodológicas não

se resumem às técnicas de investigação;