Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
122 pág.

Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

Disciplina:Fundamentos das Ciências Sociais9.774 materiais109.066 seguidores
Pré-visualização40 páginas
e desde que o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supre-

mos objetivos da política governamental. A solução britânica do problema agrário, singular-

mente revolucionária, já tinha sido encontrada na prática. Uma relativa quantidade de proprie-

tários com espírito comercial já quase monopolizava a terra, que era cultivada por arrendatári-

os empregando camponeses sem terra ou pequenos agricultores. (...) As atividades agrícolas já

estavam predominantemente dirigidas para o mercado; as manufaturas de há muito tinham-se

disseminado por um interior não feudal. A agricultura já estava preparada para levar a termo

suas três funções fundamentais numa era de industrialização: aumentar a produção e a produti-

vidade de modo a alimentar uma população não agrícola em rápido crescimento; fornecer um

grande e crescente excedente de recrutas em potencial para as cidades e as indústrias; e fornecer

um mecanismo para o acúmulo de capital a ser usado nos setores mais modernos da economia.

(...) Um considerável volume de capital social elevado – o caro equipamento geral necessário

para toda a economia progredir suavemente – já estava sendo criado, principalmente na constru-

ção de uma frota mercante e de facilidades portuárias e na melhoria das estradas e vias navegá-

veis. A política estava engatada ao lucro.

A forma principal do capitalismo inglês presente nas atividades de transformação foi o

sistema doméstico, em que artesãos ou camponeses pobres produzem bens a domicílio para

um “mercador-fabricante”. A manufatura, reunindo no mesmo espaço muitos trabalhado-

res, não se desenvolveu plenamente na Inglaterra. A partir da segunda metade do século 18,

contudo, desenvolveu-se a forma de organização típica da produção capitalista: o sistema

de fábricas.

Durante todo o século 18 são geradas, na Inglaterra, as inovações técnicas que au-

mentaram significativamente a produção. Já no início do século John Lombe furtou os se-

gredos das máquinas italianas de fiar a seda, construindo com seu irmão uma fábrica, em

1717. Nessa mesma época os Darby melhoraram a produção de ferro fundido com misturas

de coque, de turfa e de pó de carvão, utilizando um potente fole de forja. Nas minas são

23

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

empregadas bombas atmosféricas a vapor para retirar a água. Em 1733 o tecelão John Kay

inventa uma lançadeira volante, cujo uso se generaliza duas décadas depois. Em 1749 o

relojoeiro Huntsmann fabrica aço fundido. No período de 1730 a 1760 a utilização do ferro

aumenta em 50%. De 1740 a 1770 o consumo de algodão aumenta 117%. Em 1764 o tece-

lão James Hargreaves aperfeiçoa a roca spinning jenny, possibilitando fiar vários fios ao

mesmo tempo. Em 1767-1770 o cardador Thomas Hights e o penteador Arkwright passam a

utilizar a energia da água com o waterframe. O fiador e tecelão Compton irá combinar essas

duas invenções, por meio da mule jenny, localizando as fiações próximas às correntes de

água.

James Watt, nos anos 60, inventa a máquina a vapor, que será usada na indústria a

partir de 1775. Em 1785 será construída em Nottingham a primeira fiação a empregar má-

quinas a vapor. Nesse mesmo ano o pastor Cartwright inventa o tear mecânico, cujo empre-

go será generalizado no fim do século.

Paralelamente, o progresso técnico verifica-se em outras áreas da produção têxtil –

máquinas de bater, de cardar, de fiar em quantidade, branqueamento, tintura, etc., e em

outras indústrias – fábricas de papel, serraria, madeira, etc. Também a produção do ferro

progride intensamente. Em 1776 são fabricados os primeiros trilhos de ferro e, em 1778, é

construído o primeiro navio de ferro.

Cabe ressaltar também a centralidade do algodão na Revolução Industrial. Afirma

Eric Hobsbawm que o algodão permitiu a criação de um conjunto bastante amplo de ativi-

dades fabris, responsáveis por uma expressiva parcela do crescimento econômico da Ingla-

terra até 1830.

Também cabe ressaltar a importância do carvão, a principal fonte de energia industri-

al e importante combustível doméstico na Inglaterra. O carvão está na base do desenvolvi-

mento de uma das principais invenções da Revolução Industrial: a ferrovia. A expansão das

ferrovias foi significativa. Em 1830 havia poucos quilômetros de ferrovias no mundo; em

1840 havia 7 mil quilômetros e em 1850 mais de 37 mil quilômetros. Essa expansão explica-

se pelo fato de que “as classes ricas acumulavam renda tão rapidamente em tão grandes

quantidades que excediam todas as possibilidades disponíveis de gasto e investimento”

(Hobsbawn, 1977a, p. 62).

Esse conjunto de invenções e de técnicas revoluciona a produção, gerando uma nova

forma de organização: a fábrica. Ela se generaliza nos séculos seguintes, constituindo o

núcleo estratégico do desenvolvimento do capitalismo. De acordo com Beaud (1991, p. 107),

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

24

a fábrica utiliza uma energia (hulha preta para o calor, hulha

branca para acionar os mecanismos) e máquinas. É apenas no

fim do século que os motores a vapor, concebidos e experimenta-

dos por Watt entre 1765 e 1775, serão usados para acionar as

máquinas (haverá cerca de quinhentos em serviço por volta de

1800). Com essa energia é promovido um sistema de máquinas

que resulta necessariamente na organização da produção e dos

ritmos do trabalho, e que implica uma nova disciplina para os

trabalhadores que a servem. São construídas fiações, construções

de tijolo de quatro ou cinco andares empregando centenas de ope-

rários; fábricas de ferro e de fundição reúnem altos fornos e vári-

as forjas.

A fábrica torna-se o espaço institucional privilegiado para

a produção capitalista de mercadorias. Nela estabelecem-se rela-

ções entre duas classes importantes: o empresário capitalista, pro-

prietário dos meios de produção, e os trabalhadores assalariados.

Como se trata de uma forma de produção que visa ao lucro e à

acumulação do capital, a inovação das técnicas e a permanente

ampliação dos mercados constituem-se em práticas fundamen-

tais. A concorrência ameaça permanentemente cada capitalista

individual e as crises periódicas o conjunto dos capitalistas. Os

trabalhadores também estão sob a constante ameaça do desem-

prego e da redução dos salários. Além disso, são submetidos a

uma rígida disciplina e a formas de controle cada vez mais “cien-

tíficas”.

Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista, reco-

nhecendo o papel revolucionário desempenhado pela burguesia

na História moderna, assim avaliaram as conseqüências da

hegemonia da burguesia no mundo moderno:

onde quer que tenha chegado ao poder, a burguesia destruiu todas

as relações feudais, patriarcais, idíl icas. Dilacerou

impiedosamente os variegados laços feudais que ligavam o ser

humano a seus superiores naturais, e não deixou subsistir entre

homem e homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o

insensível “pagamento em dinheiro”. Afogou nas águas gélidas

do cálculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa,

do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-bur-

guês. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e no

Manifesto do Partido Comu-
nista:

você tem acesso ao texto na
íntegra em:

<http://www.pstu.org.br/
biblioteca/marx_engels_

manifesto.pdf>

25

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

lugar das inúmeras liberdades já reconhecidas e duramente conquistadas colocou unicamente a

liberdade de comércio sem escrúpulos. (...) Transformou em seus trabalhadores assalariados o

médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência.

A necessidade de mercados cada vez mais extensos para seus produtos impele a burguesia para

todo o globo terrestre. Ela deve estabelecer-se em toda a parte, instalar-se em toda