Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais

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vínculos em toda a parte.

Através da exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção

e ao consumo de todos os países (Marx; Engels, 1996, p. 68-69).

Sintetizando: os processos sociais que se desenvolveram entre os séculos 15 e 18

culminaram com a Revolução Industrial, o estabelecimento do sistema fabril e as demais

instituições da sociedade moderna. Uma nova sociedade nasceu: urbana, industrial e ca-

pitalista.

É claro que essa colossal transformação do mundo não teria sido possível se as novas

classes sociais não tivessem desenvolvido uma visão de mundo coerente com seus interesses

(uma nova cultura) e uma igualmente nova forma de Estado. Assim, as novas classes liga-

das ao comércio, à produção manufatureira e posteriormente fabril, desenvolveram uma

visão de mundo, uma forma de Estado que genericamente podemos designar como liberal.

Inicialmente fizemos menção ao primeiro grande acontecimento político ocorrido no

século 17: as duas revoluções inglesas que criaram as bases políticas e culturais para o

desenvolvimento da Revolução Industrial na Inglaterra e do Estado moderno. Posterior-

mente, em 1776, a revolução americana, embora não tenha tido a mesma importância, ao

mesmo tempo que afirmou a independência e a criação dos Estados Unidos da América,

instituiu uma forma republicana de Estado.

Esses processos políticos terão como momento culminante a Revolução Francesa. Se

a Revolução Industrial inglesa – como vimos – moldou a economia moderna, foram os acon-

tecimentos ocorridos na França, em 1789, que deram forma à política e à ideologia moder-

na. Foi uma verdadeira revolução social de massa, mais radical do que outros processos

similares e profundamente ecumênica. Conforme Hobsbawm (1977a, p. 73),

seus exércitos partiram para revolucionar o mundo; suas idéias de fato o revolucionaram. (...)

Sua influência direta é universal, pois ela forneceu o padrão para todos os movimentos revoluci-

onários subseqüentes, suas lições (interpretadas segundo o gosto de cada um) tendo sido incorpo-

radas ao socialismo e ao comunismo modernos.

FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

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A revolução francesa passou por várias fases, de avanços e

recuos. O seu momento mais radical – a república jacobina – pas-

sou para a história como a fase do terror; no entanto, pode-se

argüir que sem esse momento talvez a restauração, ocorrida pos-

teriormente, teria sido mais substantiva do ponto de vista social e

político. Com o fim da república jacobina, ocorreram várias

alternâncias de regime responsáveis pela manutenção da socie-

dade burguesa: Diretório (1795-1799), Consulado (1799-1804),

Império (1804-1814), a restauração da Monarquia Bourbon

(1815-1830), a Monarquia Constitucional (1830-1848), a Repú-

blica (1848-1851) e o Império (1852-1870).

A fase dirigida por Napoleão, oriundo do próprio movimen-

to jacobino, representou o momento das grandes conquistas e da

consolidação da revolução. É certo que a utopia radical da liber-

dade, igualdade e fraternidade foi substituída pelos símbolos

maiores da sociedade burguesa: o Código Civil, a criação do Ban-

co Nacional, a hierarquia do funcionalismo público e a institui-

ção das grandes carreiras da vida pública francesa, como o exér-

cito, o Direito e a educação. Ainda de acordo com Hobsbawm

(1977a, p. 94), o regime napoleônico

trouxe estabilidade e prosperidade para todos, exceto para os 250

mil franceses que não retornaram de suas guerras, embora mesmo

para os parentes deles tivesse trazido a glória. Sem dúvida, os bri-

tânicos se viam como os lutadores pela causa da liberdade contra

a tirania; mas em 1815 a maioria dos ingleses era mais pobre do

que o fora em 1800, enquanto que a maioria dos franceses era

quase que certamente mais rica, e ninguém, exceto os trabalhado-

res assalariados cujo número ainda era insignificante, tinha perdi-

do os substanciais benefícios econômicos da Revolução.

A derrota militar sofrida por Napoleão não impediu a conti-

nuidade da revolução burguesa. Apenas colocou um ponto final

na política expansionista francesa, impedindo que a França se

tornasse a grande potência do mundo, lugar que foi ocupado pela

Inglaterra, que, como vimos, foi capaz de desenvolver com suces-

so uma economia capitalista. Este processo de transformação

obviamente não se restringiu às mudanças na esfera econômica;

ele estendeu sua influência aos campos da política e da cultura,

gerando um novo processo societário.

República Jacobina

Fase da Revolução Francesa
dominada pelos jacobinos,

grupo político que defendia
reformas sociais radicais. Suas
lideranças mais conhecidas são

Robespierre, Danton e Marat.

Napoleão Bonaparte

(Ajaccio, Córsega, 15/8/1769
— Santa Helena, 5/5/1821),
dirigente efetivo da França a

partir de 1799. Imperador da
França, conquistou e governou
grande parte da Europa central

e ocidental. Napoleão foi um
dos chamados “monarcas
iluminados”, que tentaram

aplicar à política as idéias do
movimento filosófico chamado

Iluminismo ou Aufklärung.

Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/

Napole%C3%A3o_Bonaparte>.
Acesso em: 16 jan. 2008.

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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Resta ainda considerar dois aspectos socialmente importantes para compreender o pro-

cesso de surgimento da Sociologia. O primeiro diz respeito à emergência da classe operária

como sujeito político independente, a partir de 1830, na França e na Inglaterra, como pro-

duto do aprofundamento da industrialização. Podemos citar como exemplo o movimento

cartista, movimento de trabalhadores ocorrido na Inglaterra que reivindicava o voto univer-

sal e secreto, igualdade dos distritos eleitorais, eleição anual do Parlamento, pagamento aos

parlamentares e abolição da condição de proprietários para ser candidato.

O segundo se refere à revolução de 1848. Esse processo, que ocorreu mais ou menos

simultaneamente em todos os principais países europeus, assumiu os contornos de uma

verdadeira revolução social. O objetivo das forças revolucionárias era o estabelecimento de

uma república democrática e social, capaz de superar as injustiças e as desigualdades pro-

fundas geradas pelo desenvolvimento da sociedade burguesa. Com a mesma presteza com

que os governos conservadores foram derrubados, porém as forças sociais que os sustenta-

vam foram capazes de restabelecer a ordem social.

Na verdade a verdadeira força revolucionária, segundo Hobsbawm, foram os trabalha-

dores pobres. Estes constituíram a base social da revolução, mas pela falta de organização e

inexperiência política, não conseguiram formular um projeto claro de sociedade. Os peque-

nos proprietários, agricultores, a baixa classe média, os artesãos descontentes e seus porta-

vozes intelectuais foram importantes agentes revolucionários, mas também incapazes de

constituir uma real alternativa política. Nessa revolução a burguesia assumiu a sua condi-

ção de classe, deixando de ser definitivamente uma força socialmente revolucionária.

A revolução de 1848 também produziu mudanças. Talvez a mais importante foi levar

ao fim a crença na virtude das monarquias sustentadas pela imutabilidade das regras divi-

nas e pela rigidez das hierarquias sociais. A defesa da nova ordem social precisava de novos

instrumentos conceituais e políticos. As diferentes teorias sociais pré e pós-revolucionárias

fornecerão os meios mais adequados para a defesa da ordem capitalista, mas desenvolverão

também os meios para a sua superação. A criação da Sociologia – vale repetir – é parte

importante, juntamente com o pensamento liberal, do universo intelectual dessa época.

Nela se configuram as teorias que sustentam e as que criticam a nova sociedade industrial

capitalista.

A derrota das forças