Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Ren%C3%A9_Descartes>.
Acesso em: 16 jan. 2008.
Galileu \u2013 conclui-se pela comprovação ou não das hipóteses. A
Ciência não deve se ocupar das \u201ccausas últimas\u201d, mas apenas
das relações causais verificáveis. É importante frisar que o con-
fronto entre os sistemas geocêntrico e heliocêntrico constituiu-se
na expressão intelectual de dois mundos sociais em confronto,
cujo epílogo foi a Revolução Francesa.
1.3.3 \u2013 O Confronto entre Racionalismo e Empirismo
A história da Ciência terá ainda novos confrontos impor-
tantes. A imagem do mundo construída de Copérnico a Newton
abre novos confrontos, apesar da condenação de Galileu pela
Igreja. Dois movimentos importantes vão se constituir: um deles
vai colocar a necessidade de submeter a experiência ao domínio
da razão \u2013 o racionalismo cartesiano; o outro vai afirmar a expe-
riência como fundamento e limite do conhecimento \u2013 o empirismo.
Vamos analisar resumidamente os argumentos que constituem o
racionalismo de René Descartes (1596-1650).
Descartes publicou, em 1637, uma obra que se tornou clás-
sica no pensamento ocidental: o Discurso do Método \u2013 para con-
duzir bem sua razão e procurar a verdade nas ciências. A ques-
tão que ele analisa refere-se à validade dos conhecimentos cien-
tíficos. Por isso, a problemática do método como condição para
buscar a verdade adquire um lugar central na reflexão cartesiana.
Os conhecimentos adequados devem ser \u201cúteis à vida\u201d, conside-
rando a perspectiva de os homens tornarem-se \u201ccomo que senho-
res e possuidores da natureza\u201d.
Vejamos o procedimento de Descartes para estabelecer um
método que é o próprio processo de produção do conhecimento.
Inspirado na Matemática, ele estabelece quatro regras para con-
duzir a res cogitans no seu propósito de conhecer. Na verdade,
trata-se de suspender ou pôr em dúvida todos os conhecimentos
existentes. São elas:
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Jamais aceitar alguma coisa como verdadeira que não soubesse ser evidentemente como tal, isto
é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; dividir cada uma das dificuldades em
tantas partes quantas possíveis; conduzir por ordem meus pensamentos, a começar pelos objetos
mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para galgar, pouco a pouco, como que por
graus, até o conhecimento dos mais complexos; fazer em toda a parte enumerações tão comple-
tas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada ter omitido (Descartes, 1989, p. 44-45).
Além disso, Descartes estabeleceu uma \u201cmoral provisória\u201d, que define o contexto em
que o pensamento deve operar. Essa questão é importante, pois ela estabelece os limites
políticos do conhecimento. Nem tudo o que existe será negado. São as seguintes as regras
morais:
Obedecer às leis e aos costumes de meu país, tendo presente constantemente a religião; ser eu o
mais firme e o mais resoluto possível em minhas ações; procurar sempre vencer a mim próprio
do que ao destino, e de modificar mais os meus desejos do que a ordem do mundo; aplicar toda
a minha vida em cultivar a razão, avançando, o mais que pudesse, no conhecimento da verdade,
segundo o método que me prescrevera (Descartes, 1989, p. 48-51).
Definidas as regras do método e a moral provisória, Descartes começa as suas \u201cmedita-
ções\u201d. O método adotado implica rejeitar tudo aquilo que é incerto. Os sentidos podem nos
levar a enganos, ilusões, de modo que nada indica que uma coisa realmente exista. Mesmo
os raciocínios matemáticos podem nos levar a erros. Se a existência de qualquer corpo ou
pensamento pode ser posta em dúvida, então o que pode ser considerado verdadeiro? Des-
cartes (p. 56) responde:
Concluí que, enquanto eu queria pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que
pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade \u201cpenso, logo existo\u201d era tão firme e
segura que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei
que podia aceitá-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da Filosofia que procurava.
Em outro texto \u2013 Meditações Filosóficas (1996, p. 266-267). Descartes expressa de
outra forma a mesma conclusão:
Mas há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua
indústria em enganar-se sempre. Não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e,
por mais que me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser
alguma coisa. De sorte que, após ter pensado bastante nisto e ter examinado cuidadosamente
todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu
existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu
espírito.
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Para ele, o processo de instauração da dúvida é um ato de pensar, portanto \u201ctudo
aquilo que pensa existe\u201d, sendo a proposição \u201cpenso, logo existo\u201d, absolutamente verdadei-
ra, contudo diante do fato de que o ato de pensar não necessita de um lugar nem depende
de qualquer coisa material, leva Descartes (1989, p. 56) a concluir que \u201cesse eu, isto é, a
alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e, inclusive, é mais fácil de
conhecer do que ele, e, ainda que o corpo nada fosse, a alma não deixaria de ser tudo o que
é\u201d. Há, portanto, duas substâncias distintas que formam o mundo: a res cogitans e a res
extensa. A dualidade cartesiana da alma e do corpo encontra a sua unidade no homem. A
alma \u2013 realidade inextensa \u2013 comanda o corpo \u2013 realidade extensa \u2013 do homem. A res exten-
sa é matéria e espaço ao mesmo tempo, o que permite concluir que o mundo, como uma
extensão infinita, é constituído pela mesma matéria. O conhecimento deixa de estar subme-
tido ao mundo sensível (experiência), pois a substância racional é dotada de autonomia.
Como Descartes, na sua moral provisória, não questiona a Igreja e a religião, precisa
encontrar uma forma de justificar a existência de Deus. O raciocínio é simples: o homem,
como ser que precisa duvidar para demonstrar sua existência, é imperfeito. Como o homem,
entretanto, tem a idéia do perfeito, que não pode ser ele mesmo porque é imperfeito, então o
perfeito só pode ser Deus. Deus existe e é o autor do ser homem imperfeito. A existência está
compreendida na idéia de Deus porque não poderia existir perfeição sem existência. Em
síntese, Deus criou a res extensa, matéria extensa e matematizável, e a res cogitans. Ele
imprimiu as leis da natureza na alma humana \u2013 as leis inatas \u2013, de modo que \u201cdepois de
refletir sobre elas, não poderíamos duvidar que não fossem exatamente observadas em tudo
o que existe ou se faz no mundo\u201d (Descartes, 1989, p. 63).
É importante compreender a estratégia cartesiana para revelar a verdade, sem con-
frontar-se com a Igreja. Ele escreve o Discurso do Método em francês e não em latim, como
era usual. Assim, ele se dirige para um público mais amplo. Sem negar a existência de Deus,
situa o homem no centro do processo de produção do conhecimento, mediante o \u201ceu pen-
so\u201d, que é uma verdade auto-evidente. O homem, ao empreender a sua aventura para co-
nhecer o mundo, que é obra de Deus, está conhecendo e afirmando a existência do próprio
Deus. Apesar disso, o homem dá um passo decisivo na conquista da sua autonomia, que se
expressará nos direitos civis, institucionalizados pelas revoluções políticas modernas.
No curso da história das idéias, o cartesianismo será criticado por uma corrente de pensa-
mento com grande expressão na Inglaterra: o empirismo. A palavra empirismo vem do grego
empeiria, cujo significado é experiência. Os principais expoentes dessa corrente são Thomas
Hobbes, John Locke e David Hume. Essa corrente de pensamento levará ao limite a idéia de que