Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


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militar, nem é ainda francamente industrial, quer nos seus elementos, quer no seu conjunto.
A terceira época é a época científica e industrial. Todas as idéias teóricas e particulares tornaram-
se positivas, e as idéias gerais tendem a tornar-se. A observação dominou a imaginação, quanto às
primeiras, e a destronou, sem haver ainda hoje tomado seu lugar, quanto às segundas. No tempo-
ral, a indústria tornou-se predominante. Todas as relações particulares estabeleceram-se pouco a
pouco em bases industriais. A sociedade, tomada coletivamente, tende a organizar-se do mesmo
modo, dando-se-lhe como objetivo de atividade, única e permanente, a produção (p. 145-147).
A lei dos três estados permite a Comte formular uma teoria sobre a natureza dos con-
flitos da sociedade humana, tendo obviamente a Europa como referência. A crise da socie-
dade decorre da anarquia moral e política que abala o próprio sistema industrial em fase de
afirmação. Isto significa que sem uma reforma do poder espiritual \u2013 o predomínio da ciência
\u2013 não haverá desenvolvimento para o estágio social definitivo da espécie humana. Para Comte:
a sociedade está hoje desorganizada, tanto no aspecto espiritual, quanto no temporal. A anar-
quia espiritual precedeu e engendrou a anarquia temporal. (...) O estudo atento da marcha da
civilização prova que a reorganização espiritual da sociedade encontra-se agora mais prepara-
da do que sua reorganização temporal. Deste modo, a primeira série de esforços diretos para
concluir a época revolucionária deve ter por objetivo reorganizar o poder espiritual; enquanto
que, até o presente, a atenção fixou-se sempre sobre a reforma de poder temporal (p. 64).
É neste contexto que Comte propõe a fundação da Física Social como campo de co-
nhecimento necessário para compreender as leis que explicam a organização e o funciona-
mento da sociedade humana. Esta ciência particular seria a forma mais evoluída do conhe-
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cimento, iniciado com a Matemática e seguido, respectivamente, da Astronomia, da Física,
da Química e da Biologia. A afirmação da Física Social exige que se abandone definitiva-
mente a busca das causas e das essências para pesquisar as leis invariáveis, isto é, as rela-
ções constantes que existem entre os fenômenos observados. A seguinte afirmação de Comte
elucida o objeto e o método da ciência social:
entendo por Física social a ciência que tem por objeto próprio o estudo dos fenômenos sociais,
considerados com o mesmo espírito que os fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisioló-
gicos, isto é, como submetidos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta é o objetivo especial de
suas pesquisas. Propõe-se, assim, a explicar diretamente, com a maior precisão possível, o gran-
de fenômeno do desenvolvimento da espécie humana, considerado em todas as suas partes essen-
ciais; isto é, a descobrir o encadeamento necessário de transformações sucessivas pelo qual o
gênero humano, partindo de um estado apenas superior ao das sociedades dos grandes macacos,
foi conduzido gradualmente ao ponto em que se encontra hoje na Europa civilizada. O espírito
dessa ciência consiste sobretudo em ver, no estudo aprofundado do passado, a verdadeira expli-
cação do presente e a manifestação geral do futuro (p. 53).
O aspecto metodológico fundamental da ciência social comteana é a objetividade dos
fenômenos sociais, o que significa que eles, como objetos de observação, existem indepen-
dentemente do observador. Por isso, é possível apreendê-los como constituídos por leis imu-
táveis, como os fenômenos da natureza. A diferença é que, enquanto na observação destes
parte-se do particular para o geral, nos fenômenos sociais parte-se do geral para o particu-
lar. Na ciência social, o todo precede as partes.
A fundação da ciência social implica considerar que o seu objeto \u2013 o social \u2013 mantém
uma posição de especificidade em relação aos demais objetos. A história da humanidade é a
\u201ccontinuação e o complemento indispensável da história natural do homem\u201d (Comte), mas
essa continuidade não quer dizer que não se deve considerar a independência e a superiorida-
de do homem sobre os demais seres. Essa superioridade tem como fundamento a \u201cperfeição
relativa\u201d ou a \u201cnatureza especial\u201d da sua organização. Considerando as influências que as
gerações humanas exercem umas sobre as outras e que o estado da humanidade \u201cem cada
geração depende imediatamente do estado da geração precedente\u201d, conclui-se que o estudo
dos fenômenos sociais não pode ser reduzido a um ponto de vista unicamente biológico.
O positivismo sociológico concebeu duas dimensões para o estudo dos fenômenos so-
ciais: a estática e a dinâmica. Para Comte,
 esse dualismo científico corresponde, com perfeita exatidão, no sentido político propriamente
dito, à dupla noção de ordem e progresso. (...) É evidente que o estudo estático do organismo social
deve coincidir, no fundo, com a teoria positiva da ordem, a qual, com efeito, somente pode consistir
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essencialmente numa justa harmonia permanente entre as diversas condições de existência das
sociedades humanas. Vê-se, do mesmo modo, e ainda mais sensivelmente, que o estudo dinâmico
da vida coletiva da humanidade constitui necessariamente a teoria positiva do progresso social,
que, afastando-se de qualquer vão pensamento de perfectibilidade absoluta e ilimitada, deve natu-
ralmente reduzir-se à simples noção do desenvolvimento fundamental (1978, p. 105-106).
A ordem diz respeito ao conjunto de leis puramente estáticas da sociedade, organiza-
das segundo a idéia geral do consensus. Todos os fenômenos sociais particulares estabele-
cem relações necessárias entre si e com o todo, de tal modo que não há sociedade em que
não se exerce uma \u201cação geral e combinada\u201d. Há, portanto, entre as diversas partes que
compõem a sociedade uma solidariedade fundamental, objetivamente determinada. Esta
unidade social não quer dizer igualdade ou homogeneidade, mas necessariamente diferen-
ças e desigualdades, determinadas pela própria natureza do organismo social.
A sociedade não é o simples somatório de indivíduos. A unidade básica da sociedade é
a família, no entanto os vínculos sociais são de natureza mais complexa que os vínculos
familiares. As relações domésticas têm um caráter essencialmente moral e afetivo. A socie-
dade pressupõe relações de cooperação; ela é composta, em primeiro lugar, pelas famílias, os
seus elementos básicos, depois pelas classes, os seus tecidos, e, por fim, pelas cidades \u2013 os
seus órgãos efetivos.
A teoria positiva da ordem social considera que sem a separação dos ofícios \u201cnão
existiria, entre as diversas famílias, uma verdadeira associação, mas um simples aglomera-
do. Eis aí o que distingue essencialmente a ordem política, fundada na cooperação, da
ordem puramente doméstica, tendo por base a simpatia\u201d (Comte). É a divisão do trabalho o
fundamento da sociabilidade moderna, a condição para o desenvolvimento e o aperfeiçoa-
mento da espécie humana. Nas palavras de Comte,
todos os progressos reais que se realizaram ou que poderão operar-se na organização social
podem ser encarados, deste ponto de vista, como tendo tido ou devendo ter por último resultado
estabelecer melhor distribuição do trabalho. A ordem social seria evidentemente perfeita, quer
sob o aspecto do bem-estar particular, quer sob o da boa harmonia do conjunto, se cada indiví-
duo ou cada povo pudesse, em todos os casos, entregar-se exclusivamente ao gênero preciso de
atividade para a qual fosse mais apropriado, seja por suas disposições naturais, seja por seus
antecedentes, seja pelas circunstâncias especiais em que se ache colocado, o que, considerado
sob outro prisma, seria exatamente uma perfeita divisão