Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
122 pág.

Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


DisciplinaFundamentos das Ciências Sociais10.938 materiais132.140 seguidores
Pré-visualização42 páginas
Todas as formas econômicas, de poder e de cultura são rea-
lidades históricas e transitórias.
Em O Capital Marx analisa em profundidade a gênese e o desenvolvimento das cate-
gorias que estruturam a sociedade burguesa ou capitalista, bem como as possibilidades de
superação. De imediato é importante destacar uma idéia central que perpassa a compreen-
são marxiana do capitalismo: \u201co capital é a potência econômica da sociedade burguesa,
domina tudo\u201d. A questão é, então, investigar a origem do capital, as suas determinações e
as contradições que o envolvem.
O modo de produção do capital só pode existir quando se generaliza a produção de
mercadorias. Isso quer dizer que todos os bens produzidos pelo trabalho somente realizam
sua utilidade, que é satisfazer necessidades humanas, mediante a troca. Esses bens não são
apropriados e consumidos segundo as necessidades, mas por meio da troca, ou seja, se os
homens não possuírem mercadorias estão excluídos do processo de troca e, por conseguin-
te, impedidos de satisfazerem suas necessidades vitais. O processo de produção da existên-
cia resume-se, portanto, a um processo de produção de mercadorias.
Para a instituição do capital duas outras condições são exigidas: a existência de ho-
mens livres, sem qualquer vínculo com os meios de produção e homens que desenvolveram
uma acumulação originária \u2013 dinheiro \u2013 capaz de se apropriar dos componentes fundamen-
tais para a produção de mercadorias. Trata-se dos meios de produção (instrumentos de tra-
balho e matérias-primas) e da força de trabalho para operar os referidos meios de produção.
O dinheiro só age como capital se ele se transforma em meios de produção e força de traba-
lho. Observa Marx:
83
FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
O capital também é uma relação social de produção. É uma relação burguesa de produção, rela-
ção de produção da sociedade burguesa. Os meios de subsistência, os instrumentos de trabalho,
as matérias-primas de que se compõe o capital não foram produzidos e acumulados em condi-
ções sociais dadas, de conformidade com relações determinadas? Não são eles empregados para
uma nova produção em condições sociais dadas, de acordo com relações sociais determinadas?
E não é, precisamente, este caráter social determinado que transforma os produtos destinados à
nova produção em capital?
O capital não consiste apenas de meios de subsistência, de instrumentos de trabalho e de maté-
ria-prima, não se forma somente de produtos materiais; compõe-se, igualmente de valores de
troca. Todos os produtos de que se constitui são mercadorias. O capital não é, portanto, somente
uma soma de produtos materiais, é, também uma soma de mercadorias, de valores de troca, de
grandezas sociais (Marx, apud Ianni, 1982, p. 96).
O capital pressupõe a formação de duas classes sociais opostas e complementares: a
burguesia e o proletariado. São sujeitos iguais como proprietários de mercadorias, mas dife-
rentes quanto aos objetivos com que atuam no processo de produção. Os burgueses têm
interesse em produzir para obter lucros; o proletariado vende a sua força de trabalho para a
obtenção dos meios de subsistência para a manutenção da própria vida. Desse modo, o
processo de produção que ocorre durante uma jornada de trabalho determinada apresenta
duas dimensões: salários e lucros.
O salário refere-se ao tempo necessário para a produção da força de trabalho, do qual
constam os tempos necessários para a produção de todos os meios de subsistência para a
manutenção da vida dos trabalhadores. Como explica Marx, o \u201cvalor da força de trabalho é
o valor dos meios de subsistência necessários para a manutenção do trabalhador\u201d. Este
valor é obviamente determinado pelo custo social médio dos meios de subsistência necessá-
rios, cuja referência é o mínimo vital \u2013 a manutenção física dos trabalhadores.
A conceituação do lucro é um aspecto fundamental da teoria de Marx. As idéias de-
senvolvidas pela economia política tradicional de que o lucro se refere à remuneração do
capitalista ou à retribuição do risco inerente ao investimento são criticadas por Marx. O
lucro fundamenta-se no valor excedente produzido pela força de trabalho, que é apropriado
pelo proprietário dos meios de produção. A força de trabalho é remunerada pelo seu valor;
no entanto ela produz um valor maior do que o seu próprio valor, que corresponde a uma
outra parcela da jornada de trabalho. Esse excedente \u2013 que Marx denomina de mais-valia \u2013
se produz durante a jornada institucionalizada de trabalho. Trata-se de um trabalho não
pago, de modo que a origem do capital fundamenta-se na apropriação privada do trabalho
excedente.
FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
84
O processo social de produção capitalista é ao mesmo tempo um processo de reprodu-
ção social. Se o capitalista utiliza a mais-valia produzida para consumo trata-se da repro-
dução simples. Se ele emprega apenas uma parte para o consumo e transforma o restante
em dinheiro tem-se a reprodução ampliada ou a acumulação do capital. Neste caso, trata-se
de um processo de conversão da mais-valia em meios de produção e força de trabalho no
sentido da ampliação da produção de mercadorias.
A acumulação capitalista ocorre numa situação de concorrência entre os diversos ca-
pitalistas individuais. Isto impõe a necessidade dos capitalistas aumentarem a produção da
mais-valia. O aumento que decorre do prolongamento da jornada de trabalho consiste na
mais-valia-absoluta. A produção da mais-valia relativa significa o aumento do trabalho ex-
cedente mediante a diminuição do trabalho necessário, isto é, reduz-se valor (tempo de
trabalho) do salário mediante o desenvolvimento das forças produtivas e da organização do
trabalho. A mais-valia relativa leva à subordinação real do trabalho ao capital.
O desenvolvimento da produção da mais-valia relativa faz aparecer uma tendência à
queda da taxa de lucro, que gera uma redução da mais-valia produzida em relação ao capi-
tal total. Para entender o funcionamento desse processo é necessário acrescentar à análise
os conceitos de capital constante \u2013 o trabalho morto, contido nos meios de produção \u2013 e
capital variável \u2013 o trabalho vivo, a força de trabalho. A relação entre capital constante e
variável é denominada por Marx de composição orgânica do capital.
A busca da mais-valia relativa produz um aumento da composição orgânica do capi-
tal, isto é, aumenta o valor do capital constante em relação ao capital variável. Se o primei-
ro apenas transfere valor e este último é que produz a mais-valia, a sua substituição pelas
máquinas tende a retirar do processo de produção trabalho vivo. Isso significa que o aumen-
to da composição orgânica do capital tem como conseqüência a redução da mais-valia, ou
da taxa de lucro.
No âmbito do próprio processo de produção capitalista formam-se (na verdade são
criados) fatores contrários à queda tendencial da taxa de lucro: o aumento do grau de ex-
ploração do trabalho assalariado, a redução dos salários, a baixa de preço dos elementos do
capital constante, a superpopulação relativa, o comércio exterior e o aumento do capital em
ações. A presença desses fatores não evita que em determinados momentos a queda da taxa
de lucro se faça sentir com toda a intensidade sobre a produção capitalista. É o momento
em que se configura uma situação de crise, em que surgem obstáculos que paralisam o
processo de acumulação do capital. O resultado mais visível é a falência das empresas capi-
talistas mais frágeis e do aumento do desemprego. Como afirma Engels:
85
FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
nas crises estoura em explosões violentas a contradição entre a produção social e a apropriação
capitalista. A circulação da mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de circula-
ção,