Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


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nesse mesmo ato, destrói-se a si próprio como proletariado,
destruindo toda a diferença e todo o antagonismo de classes, e com isso o Estado como tal. (...) O
primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente em nome de toda a sociedade \u2013 é ao
mesmo tempo o seu último ato independente como Estado. A intervenção da autoridade do
Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num campo após outro da vida social e cessará
por si mesma. O governo sobre as pessoas é substituído pela administração das coisas e pela
direção dos processos de produção. O Estado não será abolido, extingue-se (s.d., p. 72-73).
Esta é a utopia possível criada por Marx e Engels. Esse projeto, que acalentou tantos so-
nhos, propôs-se a explicar as relações estabelecidas pelos homens entre si, colocando com
radicalidade a questão da emancipação humana como realização da liberdade. Não há dúvidas
de que ele continua vivo e instigando-nos à tarefa de construir um novo mundo para os homens.
FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
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MAX WEBER: a Racionalização da Civilização Ocidental
Max Weber é o fundador de um modo de pensar a vida social profundamente diverso
do positivismo e do marxismo. A construção do seu método de investigação ocorre num
contexto intelectual marcado pelo debate sobre o estatuto das Ciências Humanas ou das
ciências do espírito. Reconhecendo a autonomia das Ciências Humanas em relação às ciên-
cias da natureza, Weber incorpora, deste debate, um conceito básico para a investigação
das ações humanas: o conceito de compreensão.
O problema da compreensão é inteiramente diferente da explicação naturalística que
procura captar as leis naturais objetivas. O objetivo da compreensão é captar o sentido
subjetivo presente nas ações humanas. De acordo com Weber,
\u201csentido\u201d é o sentido subjetivamente visado: a) na realidade a, num caso historicamente dado, por
um agente, ou b, em média e aproximadamente, numa quantidade dada de casos, pelos agentes, ou
b) num tipo puro conceitualmente, construído pelo agente ou pelos agentes concebidos como típi-
cos. Não se trata, de modo algum, de um sentido objetivamente \u201ccorreto\u201d ou de um sentido \u201cverda-
deiro\u201d obtido por indagação metafísica. Nisso reside a diferença entre as ciências empíricas da
ação, a Sociologia e a História, e todas as ciências dogmáticas, a Jurisprudência, a Lógica, a Ética
e a Estética, que pretendem investigar em seus objetos o sentido \u201ccorreto\u201d e \u201cválido\u201d (1994, p. 4).
A especificidade da compreensão weberiana, que possibilita a fundação da Sociologia
compreensiva, não elimina a causalidade. Não há contradição em estabelecer uma explica-
ção compreensiva na medida em que esta se refere às relações causais significativas ou de
sentido. Essa posição \u2013 que não é outra coisa senão o estabelecimento do controle da inves-
tigação pelos procedimentos usuais do trabalho científico \u2013 visa a conferir maior validade
para o método compreensivo.
A Sociologia compreensiva está centrada no indivíduo. Ele é o fundamento da ação
social e das interações sociais. A compreensão, segundo Weber,
considera o indivíduo isolado; e sua atividade como a unidade de base, diria em seu átomo, se me
permitem utilizar de passagem esta comparação imprudente. A função de que se revestem outras
maneiras de ver as coisas pode muito bem fazer com que o indivíduo seja eventualmente tratado
como um complexo de processos psíquicos, químicos, ou outros. Do ponto de vista da sociologia,
entretanto, tudo o que fica aquém do limiar de um comportamento relativo a objetos (exteriores
ou íntimos), suscetível de ser interpretado significativamente, só é levado em conta nas mesmas
condições dos acontecimentos da natureza, estranha à significação, isto é, como condições ou
objetos subjetivos da relatividade desse comportamento. Pela mesma razão, o indivíduo forma o
limite superior, pois ele é o único portador de comportamento significativo. Nenhum modo
divergente de exprimi-lo poderia dissimulá-lo (Weber, apud Freund, 1987, p. 84-85).
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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Em outros termos, o indivíduo como sujeito capaz de empreender ações significativas
(dotadas de sentido) deve ser colocado como base da Sociologia compreensiva, pois é por
meio dele que os conceitos coletivos se tornam inteligíveis.
Outro aspecto fundamental do método compreensivo é a construção do tipo ideal puro.
Consiste numa elaboração racional em que o cientista seleciona aspectos considerados re-
levantes para a compreensão da realidade social. O tipo ideal não se confunde com a reali-
dade; é apenas um instrumento de aproximação, uma espécie de \u201cmedida\u201d que permite a
inteligibilidade da realidade. Conforme afirma Weber,
obtém-se o tipo ideal acentuando unilateralmente um ou vários pontos de vista e encadeando
uma multidão de fenômenos isolados, difusos e discretos, que se encontram ora em grande
número, ora em pequeno número, até o mínimo possível, que se ordenam segundo os anteriores
pontos de vista escolhidos unilateralmente para formarem um quadro de pensamento homogê-
neo (p. 48).
Na construção do tipo ideal, coloca-se a questão dos valores do cientista, o que signi-
fica que se pode construir uma multiplicidade de tipos ideais, sem que se possa chegar a
uma conclusão sobre o \u201ccorreto\u201d ou o \u201cverdadeiro\u201d. Também não é esta a função do tipo
ideal no processo do conhecimento. A pesquisa em si, no entanto, exige rigor científico e
neutralidade axiológica. O cientista não pode confundir-se com o homem de ação. Pode
apenas, uma vez fixados os objetivos a serem alcançados, sugerir os meios mais adequados
para atingir os objetivos, indicar as possíveis conseqüências da ação empreendida e ajudá-
lo a compreender melhor a importância da ação proposta. Em uma palavra: não é possível
por meio da Ciência definir os fins a serem alcançados, na medida em que estes são funda-
mentados em valores. A tarefa do cientista social é compreender as estruturas da sociedade
e não assumir a postura de reformador social, ou definir qual a sociedade melhor.
O mundo é constituído por uma infinidade de pontos de vista e de valores que se
chocam entre si, de modo que não é possível superar esse antagonismo dos valores, como
advogam certas filosofias da história. Essas diferenças que animam as ações humanas,
notadamente as ações determinadas pela convicção, produzem, muitas vezes, resultados
contrários às intenções. Assim sendo, a dificuldade ou mesmo a despreocupação em prever
as conseqüências, associadas à pluralidade dos valores e dos fins últimos, revelam a
\u201cirracionalidade ética do mundo\u201d. Em certo sentido, essa insuperável pluralidade de valores
pode ser vista também como uma forma de afirmação da liberdade humana. É importante
sublinhar que a liberdade não é produto nem produtora do irracionalismo do mundo.
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A tarefa da ciência social é compreender a ação social, entendida como o ato humano
dotado de sentido para o outro. Nem todos os atos humanos podem ser qualificados como
ação social. Uma ação que se refere a uma expectativa em relação a objetos materiais, à
oração solitária de um indivíduo, à atividade econômica individual são exemplos de ações
humanas que não têm um sentido social. Para Weber,
a ação social, como toda a ação pode ser determinada: 1) de modo racional referente a fins: por
expectativas quanto ao comportamento de objetos do mundo exterior e de outras pessoas, utili-
zando essas expectativas como \u201ccondições\u201d ou \u201cmeios\u201d para alcançar fins próprios, ponderados
e perseguidos racionalmente, como sucesso; 2) de modo racional referente a valores: pela crença
consciente no valor \u2013 ético, estético, religioso ou qualquer que seja sua interpretação \u2013 absoluto
e inerente a determinado comportamento como tal, independente