Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


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debate público. Nesse caso, é a ordem jurídica que institui
o Estado e não o contrário, que detém o monopólio da coação física por parte do quadro
administrativo (burocracia), num determinado território. A burocracia se constitui por pro-
cessos impessoais, desde o seu recrutamento até o desempenho das suas funções.
A dominação tradicional pode ser exemplificada pelo patrimonialismo, característica
das monarquias européias, em que a autoridade é exercida por uma pessoa (rei), sendo a
obediência uma relação estabelecida com esta pessoa. Da mesma forma as pessoas que es-
tão próximas ao soberano são servidores recrutados preferencialmente entre os senhores
feudais, sem que se estabeleça um critério de competência e especialização. A personalização
é a marca da administração patrimonial. Não há, como na dominação legal, uma separação
nítida entre o público e o privado.
A dominação carismática é exemplificada por meio das figuras do demagogo, do pro-
feta, do ditador social, do herói militar ou do revolucionário. Os homens se entregam à
obediência a uma pessoa que se acredita predestinada a realizar uma missão. A obediência
expressa uma relação emocional com os discípulos ou apóstolos, baseada na fé. Os limites
de ação são estabelecidos pela própria autoridade, considerando as exigências da sua voca-
ção. A dominação carismática é, por natureza, instável, tendo de se renovar continuamen-
te. Ela é, ao mesmo tempo, criação e destruição. É inadequado conceber a ação do direito
nessa forma de dominação, na medida em que ela não reconhece as instituições, os regula-
mentos e os costumes. O que vale é a palavra do chefe e esta muda conforme mudam as
circunstâncias.
Cabem, ainda, dois comentários. Um sobre o capitalismo; outro sobre o conceito de
classe social. Para Weber, o capitalismo é uma forma de economia que atingiu seu máximo
desenvolvimento na sociedade ocidental, sendo uma das formas de racionalidade predomi-
nante nesta sociedade. Há uma multiplicidade de causas que promoveram o desenvolvi-
mento da racionalidade capitalista: entre elas estão a ciência, as técnicas, a divisão do
trabalho, o Direito moderno e a ética protestante. Em relação a esta última, as suas análises
são bastante ricas. Ele consegue demonstrar a contribuição da ética protestante \u2013 no caso o
calvinismo \u2013 na formação do espírito capitalista. Segundo Weber,
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uma ética profissional especificamente burguesa surgiu em seu
lugar. Consciente de estar na plena graça de Deus, e sob sua visí-
vel bênção, o empreendedor burguês, enquanto sua conduta mo-
ral fosse sem manchas e não fosse objetável o uso de sua riqueza,
podia agir segundo os seus interesses pecuniários, e assim devia
proceder. O poder da ascese religiosa, além disso, punha à sua
disposição trabalhadores sóbrios, conscientes e incomparavelmen-
te industriosos, que se aferraram ao trabalho como uma finalida-
de de vida desejada por Deus. Dava-lhe, além disso, a
tranquilizadora garantia de que a desigual distribuição da rique-
za deste mundo era obra especial da Divina Providência, que,
com essas diferenças, e com a graça particular, perseguia seus
fins secretos, desconhecidos do homem (1997, p. 127).
Também a conduta racional baseada na idéia de vocação
nasceu do espírito da ascese cristã. A presença do ascetismo na
vida profissional secular contribuiu de forma decisiva para a for-
mação e o desenvolvimento da \u201cmoderna ordem econômica e téc-
nica ligada à produção em série, através da máquina\u201d(p. 130-
131). E conclui Weber,
desde que o ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se
desenvolver, os bens materiais foram assumindo uma crescente, e,
finalmente, uma inexorável força sobre os homens, como nunca
antes na História. Hoje em dia \u2013 ou definitivamente, quem sabe \u2013
seu espírito religioso safou-se da prisão. O capitalismo vencedor,
apoiado numa base mecânica, não carece mais de seu abrigo.
Também o róseo caráter de sua risonha sucessora: a Aufklärung
parece estar desvanecendo irremediavelmente, enquanto a cren-
ça religiosa no \u201cdever vocacional\u201d, como um fantasma, ronda em
torno de nossas vidas. Onde a \u201cplenitude vocacional\u201d não pode
ser relacionada diretamente aos mais elevados valores culturais
\u2013 ou onde, ao contrário, ela também deve ser sentida como uma
pressão econômica \u2013 o indivíduo renuncia a toda a tentativa de
justificá-la. No setor de seu mais alto desenvolvimento, nos Esta-
dos Unidos, a procura da riqueza, despida de sua roupagem ético-
religosa, tende cada vez mais a associar-se com paixões pura-
mente mundanas, que freqüentemente lhe dão o caráter de esporte.
Ninguém sabe ainda a quem caberá no futuro viver nessa prisão,
ou se, no fim desse tremendo desenvolvimento, não surgirão pro-
fetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascimento de velhos
Ascese
Práticas sociais que levam
os homens à realização
da plenitude da vida moral.
Aufklãrung
Palavra alemã que significa
esclarecimento ou iluminismo.
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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
pensamentos e idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas \u2013 a eventualidade de uma petrificação
mecanizada caracterizada por esta convulsiva espécie de autojustificação. Nesse caso, os \u201cúlti-
mos homens\u201d desse desenvolvimento cultural poderiam ser designados como \u201cespecialistas sem
espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização
nunca antes alcançado\u201d (p. 131).
As palavras de Weber são bastante eloqüentes: o espírito capitalista se separa da sua
dimensão ético-religiosa inicial \u2013 o desencantamento do mundo \u2013 e em seu lugar se afirma
uma racionalidade econômica autônoma, dotada de lógica própria. Isto pode ser percebido
na sua definição de capitalismo como atividade empresarial lucrativa. Para que exista capi-
talismo impõe-se como premissa mais geral a existência de uma
contabilidade racional do capital como norma para todas as grandes empresas lucrativas que se
ocupam da satisfação das necessidades cotidianas. As premissas dessas empresas, por sua vez,
são as seguintes: 1) apropriação dos bens materiais de produção (a terra, aparelhos, instrumen-
tos, máquinas, etc.) como propriedade de livre disposição por parte de empresas lucrativas autô-
nomas; 2) a liberdade mercantil, ou seja, a liberdade de mercado em face de toda limitação
irracional de intercâmbio; 3) técnica racional, ou seja, contabilizável ao máximo e, em conseqü-
ência, mecanizada; 4) direito racional, ou seja, calculável. Para que a exploração econômica
capitalista se processe racionalmente precisa confiar em que a justiça e a administração segui-
rão determinadas normas; 5) trabalho livre, ou seja, que existam pessoas, não só em seu aspecto
jurídico mas, também, no econômico, obrigados a vender livremente sua atividade em um mer-
cado; 6) comercialização da economia, sob cuja denominação compreende-se o uso geral de
títulos de valor, para os direitos de participação nas empresas e igualmente para os direitos
patrimoniais. Em resumo, a possibilidade de uma orientação exclusiva, no que se refere à satis-
fação das necessidades no sentido mercantil e da rentabilidade (Weber, apud Iannim 1996, p.
115-116).
A racionalidade capitalista caracteriza, portanto, a existência de indivíduos que se
movem no sentido de maximizar benefícios e minimizar custos, sejam eles capitalistas, tra-
balhadores ou genericamente consumidores. Na verdade, a racionalidade que se afirma como
paradigma da civilização ocidental é uma racionalidade instrumental, cujo móvel é o cálcu-
lo da relação custo/benefício. Vale lembrar, ainda, que a racionalidade capitalista não deter-
mina as outras formas de racionalidade, como a da política, do Direito e da cultura. É claro
que existem relações