Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


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outras formas, mais dinâmicas, de produ-
ção de conhecimentos e informações requeridas para a formação de opinião pública plural e
democrática. A Igreja \u2013 em todas as suas vertentes \u2013 sofre o impacto da crescente racionali-
zação do mundo. Igrejas criadas mais recentemente assumiram uma dimensão abertamente
mercantil.
Também tem se colocado com insistência a necessidade de ampliar os conhecimentos
sobre os meios de comunicação de massa, cuja capacidade de inserção na vida cotidiana
aumentou significativamente. Percebe-se a formação de gigantescos conglomerados empre-
sariais de comunicação, que controlam a informação e o lazer de sociedades inteiras. São
empresas que visam ao lucro e que, ao mesmo tempo, precisam atender ao requisito da
pluralidade, segundo princípio liberal da liberdade de informação. Essa contradição, cada
dia mais evidente, se resolve pelo predomínio da lógica do mercado sobre o pluralismo. Cla-
ramente os meios de comunicação de massa deixaram de ser o quarto poder. Octavio Ianni
emprega, com bastante propriedade, a expressão \u201cpríncipe eletrônico\u201d para identificar a
característica fundamental dos meios de comunicação de massa, ou seja, o seu papel decisi-
vo na conquista e na manutenção do poder político. Há, no entanto, um problema central:
não existe nenhum mecanismo capaz de funcionar como contraponto efetivo ao poder dos
meios de comunicação, que caracteriza uma situação de poder absoluto, ou, dito de outra
forma, um poder não democrático (ou despótico) que rompe com a democracia, até mesmo
na sua forma liberal.
Este é um resumo das questões discutidas pela Sociologia sobre o caráter da nova
sociedade. Do ponto de vista dos grandes modelos societários há uma questão importante
em debate: a sociedade informacional global é uma sociedade capitalista? Os defensores da
globalização econômica e da grande empresa privada, afirmadas como a única alternativa
para o desenvolvimento, empregam fartamente a palavra capital; também afirmam que o
emprego e o lucro são objetivos fundamentais dos grandes investimentos globalizados. Se é
FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
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Alain Touraine
(Hermanville-sur-Mer, 3/8/
1925), sociólogo francês.
Tornou-se conhecido por ter
sido o pai da expressão
\u201csociedade pós-industrial\u201d. Seu
trabalho é baseado na \u201csociolo-
gia de ação\u201d e seu principal
ponto de interesse tem sido o
estudo dos movimentos sociais.
Touraine acredita que a socieda-
de molda o seu futuro por meio
de mecanismos estruturais e das
suas próprias lutas sociais. Tem
estudado e escrito acerca dos
movimentos de trabalhadores
em todo o mundo, particular-
mente na América Latina e, mais
recentemente, na Polônia.
Também publicou nos últimos
reflexões valiosas sobre a crise
da modernidade
Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Alain_Touraine>.
Acesso em: 20 jan. 2008.
Pierre Lévy
 (Tunísia, 1956) é um filósofo da
informação que se ocupa em
estudar as interações entre a
Internet e a sociedade.
Pierre Lévy nasceu numa família
judaica. Fez Mestrado em
História da Ciência e Doutorado
em Sociologia e Ciência da
Informação e da Comunicação,
na Universidade de Sorbonne,
França. Trabalha desde 2002
como titular da cadeira de
pesquisa em inteligência
coletiva, na Universidade de
Ottawa, Canadá. É membro da
Sociedade Real do Canadá
(Academia Canadense de
Ciências e Humanidades).
Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Pierre_L%C3%A9vy>.
Acesso em: 20 jan. 2008.
possível identificar, de um lado o capital e, do outro, o trabalho
assalariado, configura-se ainda a existência de classes sociais,
obviamente não com as mesmas características do capitalismo
industrial.
Pode-se assegurar que estamos diante de uma sociedade de
tipo capitalista, que se desenvolve segundo o princípio do merca-
do (ou do privado) em detrimento do Estado (ou do público). Esta
é uma mudança fundamental, que decorre da crise e dissolução
do socialismo soviético e do Estado do Bem-Estar Social euro-
peu. A força social que comanda a globalização é o capitalismo;
é ele que desenvolve e se apropria da revolução informacional.
Obviamente as estatísticas revelam que a grande empresa capi-
talista global, cujas características relacionamos nos parágrafos
anteriores, vive um momento de acelerada expansão. A voracida-
de do capital na ocupação e transformação dos territórios é iné-
dita. É o momento histórico em que a \u201cdestruição criadora\u201d se
desenvolve com mais radicalidade e velocidade. Por isso, as con-
seqüências são igualmente trágicas.
A cada movimento do grande capital globalizado uma par-
te do Estado-Nação é destruída. Certamente o objetivo não é
destruir o Estado, mas reduzir drasticamente seu raio de ação
política. A redução dos impostos, o confinamento da democracia
aos limites da representação política, o desenvolvimento do Ter-
ceiro Setor como forma de enfrentar a questão social, estimulan-
do o trabalho voluntário, sem custos para a acumulação do capi-
tal, constituem aspectos da estratégia de reprodução do capita-
lismo informacional. No limite, podemos estar vivendo uma situ-
ação em que, na visão de Alain Touraine, a globalização não deve
ser entendida
apenas como uma mundialização da produção e dos intercâmbios,
mas sobretudo como uma forma extrema de capitalismo, como
separação completa entre a economia e outras instituições, parti-
cularmente sociais e políticas, que não podem mais controlá-la.
Esta dissolução de fronteiras de todos os tipos acarreta a fragmen-
tação daquilo que se chamava sociedade (Touraine, 2006, p. 239).
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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Ou seja, o capital globalizado está destruindo a própria sociedade, o lugar onde se
desenvolve a vida humana. Em outras palavras, é a própria destruição da vida humana.
Destruição ou transformação da vida humana? A revolução informacional está dei-
xando o homem cada vez menos natural ou mais artificial. As reflexões de Pierre Lévy sobre
as tecnologias inteligentes, a realidade virtual e o ciberespaço indicam um caminho possível
para o novo mundo em construção. Alerta este autor:
a tendência se desenha claramente. Nos primeiros decênios do século XXI, mais de 80 % dos
seres humanos terão acesso ao ciberespaço e se servirão dele cotidianamente. A maior parte da
vida social tomará parte desse meio. Os processos de concepção, produção e comercialização
serão integralmente condicionados por sua imersão no espaço virtual. As atividades de pesquisa,
de aprendizagem e de lazer serão virtuais ou comandadas pela economia virtual. O ciberespaço
será o epicentro do mercado, o lugar da criação e da aquisição de conhecimentos, o principal
meio da comunicação e da vida social. A Internet representa simplesmente o estado de
reagrupamento da sociedade que se sucede à cidade física. Encontraremos nela quase todas as
atividades que encontramos na cidade, além de algumas outras completamente novas. A princi-
pal originalidade da cidade virtual é que ela é única e planetária, ainda que ela conte com
cinturões protegidos (redes especializadas) e com bairros reservados (intranets e extranets). É
absurdo opor a sociabilidade e as trocas intelectuais livres e gratuitas às atividades comerciais
no ciberespaço, tanto quanto seria opô-las na cidade. As cidades são, necessariamente, ao mesmo
tempo e no mesmo lugar: mercados, centros de troca de informações e desenvolvimento da cultu-
ra, espaços de sociabilidade. Ocorre exatamente o mesmo com o ciberespaço.
As redes se assemelham às estradas e às ruas; os computadores e os programas de navegação são
equivalentes ao automóvel individual; os websites são como lojas, escritórios e casas; os grupos
de discussão e as comunidades virtuais são praças, cafés, salões, agrupamentos