Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


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por afinidades.
Os mundos virtuais interativos, mais ou menos lúdicos, serão as novas obras de arte, os cinemas,
teatros e óperas do século XXI. Continuaremos, entretanto, a nos deslocar fisicamente e a nos
encontrar em carne e osso e, provavelmente, ainda mais do que o fazemos hoje, uma vez que os
fenômenos de contato, de relação e de interconexão de todos os tipos (virtuais ou não) serão
amplificados e acelerados (Lévy, 2001, p. 51-52).
Pierre Lévy é bastante otimista em relação ao ciberespaço. Considera que nenhum
outro espaço de comunicação tem um caráter tão transversal e aberto como o ciberespaço,
pois ele permite uma comunicação do tipo \u201ctodos para todos\u201d. Todos os textos se reúnem
num hipertexto, aberto e em permanente construção. Todos as autores se fundem num úni-
co autor coletivo, múltiplo e contraditório. O ciberespaço é um espaço não territorial, de
modo que \u201cos que ocupam muito espaço na Internet não tiram nada dos outros. Há sempre
mais lugar. Haverá lugar para todo o mundo, todas as culturas, todas as singularidades,
indefinidamente\u201d (p. 141). Em síntese, é a realização da sociedade democrática, livre e plu-
ral, de seres iguais e diferentes.
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É preciso, entretanto, abordar a seguinte questão: como o ciberespaço está sendo cri-
ado pelo capitalismo, como é possível gerar uma sociedade democrática, no sentido defendi-
do por Lévy? Vale lembrar que este capitalismo, do capital financeiro e da grande empresa
privada globalizada, apesar do crescimento econômico, não tem conseguido promover a
inclusão social por meio do emprego. Ao contrário, os grandes empresários têm sustentado
que apenas 20% da população economicamente ativa seriam suficientes para manter o rit-
mo da economia mundial, produzindo todas as mercadorias e serviços e, ao mesmo tempo,
participando ativamente da vida econômica, do consumo e do lazer. Os 80% restantes seri-
am os sem-emprego, que não poderiam ser protegidos pelo Estado mínimo. Algumas formas
de proteção poderiam ser desenvolvidas pelo Terceiro Setor ou setor social, assentado na
filantropia e voluntariado. Dessa forma, a sociedade 20 por 80, como é denominada, não
pode ser desconsiderada na projeção da nova sociedade. Podemos supor que a empresa ca-
pitalista globalizada, geradora da nova sociedade informacional, possa recriar as estruturas
de desigualdade e exclusão social.
Por fim, cabe destacar também outro aspecto, teorizado principalmente por Anthony
Giddens e Ulrich Beck: a sociedade do risco e a reflexividade. Por reflexividade entende-se a
ação transformadora que as ciências e as técnicas produzem sobre a sociedade, diferente do
que ocorria nas sociedades pré-capitalistas, que se caracterizavam por numa relativa imobi-
lidade. O conhecimento sistemático sobre a sociedade torna-se parte necessária da reprodu-
ção do sistema, que dele se apropria, modificando-se e ao mesmo tempo produzindo a ne-
cessidade de novos conhecimentos. Esse processo ocorre numa perspectiva de certeza e de
controle dos efeitos desejados. Ocorrem, contudo, sempre conseqüências não desejadas,
que se acredita possam ser superadas por outras intervenções, organizadas por novos co-
nhecimentos específicos.
A sociedade do risco resulta da modernização da sociedade industrial. Num primeiro
momento os efeitos não desejados são absorvidos pela sociedade de modo que não se tor-
nam um problema, porque predomina a certeza de que novos conhecimentos devem produ-
zir situações adequadas. Num segundo momento, as instituições sociais \u2013 econômicas, so-
ciais, políticas, ambientais \u2013 não mais conseguem evitar que os riscos se tornem questões
públicas. Poder-se-ia alertar que não se trata mais de considerar tais efeitos como \u201ccolaterais\u201d,
mas produtos do próprio funcionamento do sistema industrial capitalista. São exemplos
significativos da sociedade do risco: as recentes discussões sobre o aquecimento global, o
fim do trabalho assalariado, a incerteza dos mercados financeiros, o aumento da violência.
Neste contexto da sociedade do risco ressalta o debate sobre a crise ambiental. A
globalização do modo de produção capitalista \u2013 embora a poluição tenha sido também uma
característica do socialismo soviético \u2013 ampliou, de modo significativo, a problemática ambiental.
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Não é apenas o aumento das várias modalidades de poluição que preocupa, mas as conseqüên-
cias da própria forma de intervenção do homem sobre a natureza. Lembremo-nos que na base
do pensamento da modernidade está a idéia do \u201chomem como senhor e proprietário da nature-
za\u201d. A concepção crítica tem apontado para a insustentabilidade da relação homem e natureza,
que é determinada pelo modo de vida ocidental, centrado no consumo ilimitado e no individu-
alismo. Esse modo de vida mostra-se incompatível com as condições do planeta; sua existência
é possível apenas para um grupo bastante reduzido de pessoas e países.
É importante retomar a argumentação que serve de base para a conceituação da soci-
edade atual. O capitalismo informacional globalizado leva ao limite a contradição entre a
acumulação do capital, como processo infinito, e o ecossistema do planeta Terra, que é
finito. Essa contradição sempre esteve presente na relação capital e natureza, mas só agora
adquire visibilidade (ou publicidade). Por isso, um dos pontos centrais na investigação soci-
ológica da atualidade é o desenvolvimento sustentável. Na verdade esse conceito, como
qualquer outro, precisa ser construído.
Analisamos sucintamente os desafios que a Sociologia tem enfrentado diante da nova
realidade social que precisa ser compreendida. Como, no entanto, as mudanças têm o cará-
ter de uma transição social, surgem também problemas de natureza epistemológica, ou seja,
estão em questão, também, as \u201cregras do método sociológico\u201d. Em outras palavras, as pos-
sibilidades e os limites do conhecimento sociológico.
Uma das análises mais importantes sobre as interinfluências entre questões
epistemológicas e societárias foi desenvolvida por Boaventura de Sousa Santos. Na sua
obra Um discurso sobre as ciências ele sustenta que estamos vivendo um momento em que a
transição social revela que há também uma transição no paradigma das Ciências. Na
modernidade o paradigma dominante da racionalidade científica foi determinado pelas Ci-
ências Naturais, que se estendeu inclusive para a Sociologia e para as outras Ciências So-
ciais. A observação rigorosa dos fatos deve ser orientada pela Matemática, que estabelece
um modelo de representação da realidade e do próprio processo de investigação. O método
científico assenta-se na redução da complexidade e na quantificação. A qualidade inerente
aos objetos é relegada a um plano secundário, para pesquisar as relações causais existentes
entre eles (leis), transformando-as em relações estatísticas. Assim, a Ciência propõe-se a
buscar a verdade a partir de três aspectos interligados: objetividade, estabilidade e simplici-
dade do mundo.
O desenvolvimento do conhecimento está deixando à mostra a fragilidade dos funda-
mentos do paradigma tradicional da Ciência, o que determina a sua crise. Percebe-se tam-
bém a presença de sinais que identificam um novo paradigma. Esses sinais podem ser sinte-
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tizados nos tópicos seguintes: todo o conhecimento científico-natural é científico-social;
todo o conhecimento é local e total; todo o conhecimento é autoconhecimento; todo o co-
nhecimento científico visa a constituir-se em senso comum. Esses tópicos têm como base a
tese da crescente perda de sentido e da superação da divisão Ciências Naturais e Ciências
Sociais. Mais do que isso, observa-se que essa superação está ocorrendo no sentido da afir-
mação das