Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais
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Apostila UNIJUÍ - Fundamentos das ciências sociais


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das possibilidades de todas as pessoas nas mesmas circunstâncias em que ele.
Sob muitos aspectos, é uma lição terrível; sob muitos outros, magnífica. Não conhecemos os
limites da capacidade que tem o homem de realizar esforços supremos ou degradar-se volunta-
riamente, de agonia ou exultação, de brutalidade que traz prazer ou de deleite da razão. Mas em
nossa época chegamos a saber que os limites da \u201cnatureza humana\u201d são assustadoramente
amplos. Chegamos a saber que todo o indivíduo vive, de uma geração até a seguinte, numa
determinada sociedade; que vive uma biografia, que vive dentro de uma seqüência histórica. E,
pelo fato de viver, contribui, por menos que seja, para o condicionamento dessa sociedade e para
o curso de sua história, ao mesmo tempo em que é condicionado pela sociedade e pelo seu
processo histórico.
O sociólogo está proibido de moldar a realidade aos conceitos, como se estes fossem a
própria verdade. Ele deve ser capaz de deixar-se surpreender pela realidade investigada. Ser
sociólogo é exercitar permanentemente a liberdade de investigação, que não se resume a
fazer o que se quer ou a escolher entre alternativas; é também o exercício de refazer as
escolhas, reavaliar o caminho percorrido e assumir os erros cometidos. Enfim, ser sociólogo
é permitir ser assaltado pela dúvida.
Referências
BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas \u2013 uma visão humanista. Petrópolis: Vozes, 1980.
FERNANDES, Florestan. A natureza sociológica da Sociologia. São Paulo: Ática, 1980.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994.
MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
1.2 \u2013 A FUNDAÇÃO DA SOCIOLOGIA:
 Contexto Histórico-Social
Vamos discutir neste capítulo o processo de formação da
Sociologia, como momento fundamental que institui o campo
das Ciências Sociais. É claro que a criação da Sociologia não
ocorreu de uma hora para a outra. Ao contrário, é o resultado de
um longo e tenso processo de transformação social e intelectual,
que se inicia no século 16 e se conclui no início do século 19.
Vamos analisar os principais momentos desse processo.
A FORMAÇÃO DA SOCIEDADE MODERNA
A formação da sociedade moderna resulta da completa de-
composição das instituições que formavam a sociedade feudal. A
nova sociedade afirma-se pela constituição de um sistema eco-
nômico industrial capitalista, por um Estado laico (não religio-
so) fundado na soberania popular e por uma cultura centrada na
idéia de nação (ou de uma identidade nacional) e na dimensão
racional do homem.
A longa marcha do feudalismo ao capitalismo é marcada
por dois momentos importantes: a conquista e a exploração da
América, no século 16, e pela ascensão a afirmação das burgue-
sias nacionais, no século 17. São esses processos que estabele-
cem as condições para o desenvolvimento das revoluções políti-
cas (inglesa, americana e francesa) e da Revolução Industrial
inglesa.
A expansão européia é precedida de um amplo crescimento
do comércio e das finanças, a partir do século 13. Além disso, a
invenção da imprensa, os avanços na metalurgia, na produção
de metais e de produtos têxteis, a fabricação de canhões e de
outras armas de fogo, o aprimoramento da construção de
caravelas e das técnicas de navegação, entre outros fatores, am-
pliam as condições para o desenvolvimento do comércio e das
conquistas de novos territórios.
Sociedade feudal
Forma de sociedade, verificada
principalmente na Europa, na
Idade Média, cuja produção
está organizada em feudos \u2013
grandes propriedades de terra
\u2013 em que senhores feudais se
apropriam de parte do trabalho
dos camponeses. Do ponto de
vista da estrutura de classe,
observa-se uma rígida hierar-
quia entre clero, nobreza e
povo. O poder político é
exercido pela nobreza e o
clero, sob a forma do Estado
monárquico, regido pelo
direito divino. O papel da Igreja
Católica é fundamental; na
verdade ela ocupa o centro do
poder político.
Burguesia
São os proprietários dos meios
de produção (terra, máquinas,
matérias-primas, conhecimen-
tos) que os utilizam como
capital, ou seja, como forma de
obtenção da mais-valia.
FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
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Nesse momento histórico, a acumulação da riqueza vem do
comércio e dos metais preciosos (ouro, prata). Como afirma Michel
Beaud (1991, p. 20):
Monarcas ávidos de grandezas e de riquezas, Estados lutando
pela supremacia, mercadores e banqueiros encorajados ao enri-
quecimento: são estas as forças que promoverão o comércio, as
conquistas e as guerras, sistematizarão a pilhagem, organizarão
o tráfico de escravos, prenderão vagabundos para obrigá-los a
trabalhar.
Os novos territórios conquistados são transformados em
colônias, que exercerão papel importante na acumulação das ri-
quezas pelas metrópoles. Além da apropriação do trabalho dos
camponeses, a pilhagem dos tesouros encontrados nos lugares e
a organização da produção agrícola (cana-de-açúcar, algodão,
etc.) são os fundamentos da acumulação chamada de
mercantilista. A idéia é que a riqueza provém da acumulação de
metais preciosos e da capacidade de um território em vender mais
e comprar menos.
Sintetizando: a formação de imensas fortunas pelas burgue-
sias bancária e mercantil, o fortalecimento do poder dos reis e
conseqüentemente dos Estados nacionais e, sobretudo, a elabo-
ração de uma nova concepção de mundo que valoriza a riqueza e
a acumulação, criam as condições necessárias para a emergên-
cia de uma nova burguesia, vinculada à produção manufatureira.
Na Europa, no século 17, o processo expansionista desen-
volver-se-á principalmente na Holanda, na Inglaterra e na Fran-
ça. Observa-se um significativo crescimento do comércio, dos
bancos, da navegação e das atividades de transformação. No caso
da Holanda desenvolveu-se uma rica burguesia vinculada às se-
guintes atividades de transformação:
indústria de lanifício em Leiden e indústria de tecidos em Haarlem;
tingimento e tecelagem da seda, depois fiação de seda e corte de
diamantes em Amsterdã; refinação de açúcar e acabamento de te-
cidos ingleses, cervejaria, destilaria, preparação do sal, de tabaco,
Estados Nacionais
Diferentes espaços territoriais
nos quais populações determi-
nadas exercem um poder
político soberano.
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FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
de cacau, trabalho de chumbo em Roterdã; polimento de lentes
ópticas, fabricação de microscópios, de pêndulos e instrumentos
de navegação, estabelecimento de mapas terrestres e marítimos,
impressões de livros em todas as línguas (Beaud, 1991, p. 37).
Também na Inglaterra forma-se uma burguesia que desen-
volveu a produção manufatureira. Diz Beaud (1991, p. 39) que
por volta de 1640, algumas hulheiras produzem de dez a vinte e
cinco toneladas por ano, contra algumas centenas de toneladas
no século anterior. Altos fornos, fundições com grandes martelos
de água, fábricas de alúmen e de papel empregam várias cente-
nas de operários; mercadores e fabricantes de têxteis fazem tra-
balhar várias centenas, por vezes vários milhares, de fiandeiros
ou de tecelões a domicílio. A burguesia que promove esse desen-
volvimento comercial e manufatureiro necessita de
encorajamento e de proteção ao mesmo tempo.
Na França, mediante uma forte presença do Estado, sobre-
tudo no período de Luís XIV e seu ministro Colbert, foram cria-
das mais de 400 manufaturas. São
manufaturas \u201ccoletivas\u201d reunindo vários centros artesanais que
se beneficiam juntos de privilégios concedidos: fábrica de tecidos
de Sedan ou de Elbeuf, malharia de Troyes, manufatura de armas
de Sait-Étienne...