Górgias (a retórica) - Platão
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Górgias (a retórica) - Platão

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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arte, por querer,
como diz o provérbio, começar pela jarra o aprendizado da arte do oleiro, visto pretender
exercer aquela função pública e concitar outras pessoas a fazerem o mesmo? Não te parece
rematada loucura proceder dessa maneira?

Cálicles — Parece.

Sócrates — E agora, varão meritíssimo, recente mente iniciado na carreira pública, que
me animas nesse sentido e me repreendes por eu não seguir o teu exemplo: não terá chegado
a hora de nos examinarmos? Vejamos! Qual cidadão Cálicles já deixou melhor? Haverá
algum que antes fosse ruim, injusto, intemperante e in sensato, e que, por influência de
Cálicles, se tivesse tornado pessoa de bem, forasteiro ou cidadão, escravo ou homem livre?

Dize-me, Cálicles, que responderias a quem te formulasse semelhante pergunta? Quem
mostrarias, que se tivesse tornado melhor com a tua convivência? Hesitas em responder, se
podes, de fato, apre sentar algum caso de tua vida particular, ocorrido antes de te haveres
iniciado nos negócios públicos?

Cálicles — És opiniático, Sócrates.

LXXI — Sócrates — Mas não é por amor à disputa que te interrogo, senão pelo desejo
sincero de saber como pensas que entre nós deve ser administrada a cidade. Uma vez que te
achas à frente dos negócios públicos, vais cuidar de outra coisa que não seja esforçar-te para
que nós outros, cidadãos, nos tornemos melhores? Já não admitimos muitas vezes que esse é
o dever do homem político? Admitimos isso, ou não? Responde. Sim, admitimos, respondo
em teu lugar. Se é isso que o homem de bem deve realizar em sua própria cidade, reflete um
pouco e declara se és mesmo de parecer que foram bons cidadãos os homens a que há
momentos te referiste: Péricles, Cimão, Milcíades e Alcibíades.

Cálicles — Acho que foram.

Sócrates — Se foram bons cidadãos, é evidente que cada um deles, individualmente,
deixou melhores uns tantos cidadãos, que antes eram ruins.

Cálicles — Como, de fato, deixaram.

Sócrates — Logo, quando Péricles começou a falar em público, os atenienses eram
piores do que quando ele pronunciou seu último discurso.

Cálicles — Talvez.

Sócrates — Não é Talvez o termo exato, meu caro, porém Forçosamente, de acordo
com a nossa conclusão, se é verdade que aquele cidadão foi bom político.

Cálicles — E daí?

Sócrates — Nada. Mas responde -me também se é em geral admitido que os atenienses,
de fato, ficaram melhores graças a Péricles, ou se foi justamente o inverso: foram
corrompidos por ele. Eu, pelo menos, ouço dizer que Péricles deixou os atenienses
preguiçosos, pusilânimes, faladores e ávidos de dinheiro, por ter sido quem instituiu o
estipêndio popular.

Cálicles — Ouviste isso, Sócrates, de algum desses indivíduos de orelhas rasgadas.

Sócrates — Uma coisa, no entanto, não ouvi, porém sei com certeza, como tu também
sabes, que no começo Péricles gozava de bom nome e que os atenienses, justa mente quando
eram ruins, não levantaram contra ele nenhuma queixa infamante; porém, depois que se
tornaram bons graças à sua influência, já no fim da vida de Péricles, acusaram-no de peculato
e por pouco não o condenaram à morte, o que se deu, evidentemente, por o terem na conta de
desonesto.

LXXII — Cálicles — E daí? Devemos concluir que Péricles foi ruim?

Sócrates — Pelo menos seria considerado mau o guardador de mulos, ou de bois, que
recebesse animais que não dessem coices, nem chifradas, nem mordessem, e os deixasse

selvagens a ponto de fazerem tudo isso. Ou não consideras mau guardador de animais, sejam
estes quais forem, quem os recebe mansos e os devolve mais selvagens do que eram quando
os recebeu? Que me dizes?

Cálicles — Posso concordar contigo, para ser-te agradável.

Sócrates — Então, faze -me também a gentileza de responder ao seguinte: se o homem
também faz parte dos animais?

Cálicles — Como não?

Sócrates — E não foi Péricles condutor de homens?

Cálicles — Foi.

Sócrates — E então? E de acordo com o que acabamos de assentar, não deveriam estes
tornar-se mais justos sob a sua direção, de injustos que eram antes, se ele os dirigia na
qualidade de chefe político modelar?

Cálicles — Perfeitamente.

Sócrates — E os justos não são mansos, como diz Homero? Que achas? Não é assim
mesmo?

Cálicles — É.

Sócrates — No entanto, ele os deixou mais selvagens do que eram q uando os recebeu,
e isso contra ele próprio, que é o que ele menos desejava.

Cálicles — Queres que concorde contigo?

Sócrates — Se julgares que tenho razão.

Cálicles — Pois que seja.

Sócrates — Se ficaram mais selvagens, tornaram-se também injustos e piore s do que
eram.

Cálicles — Concordo, também.

Sócrates — Logo, de acordo com o que dissemos, Péricles não foi bom político.

Cálicles — Não; tu, pelo menos, afirmas isso.

Sócrates — E tu também, por Zeus, de acordo com o que admitiste antes. Porém
voltemos a falar de Cimão. Não o votaram ao ostracismo os mesmos cidadãos de que ele
cuidava, para que durante dez anos não tivessem de ouvir-lhe a voz? E com Temístocles, não
fizeram a mesma coisa, com a agravante da pena de exílio? E com Milcíades, o vencedor de
Maratona, não decretaram que seria precipitado no báratro, o que teria acontecido se não
fosse a intervenção dos prítanes? Ora, se todos eles foram pessoas excelentes, como afirmas,
não teriam sido tratados dessa maneira. Pelo menos, com os bons cocheiros não é de praxe
não serem jogados no começo fora do carro, para virem a cair depois de haverem tratado dos

cavalos por algum tempo e de ficarem mais hábeis em sua profissão. Isso não acontece nem
na arte de conduzir carros nem em qualquer outra. Não pensas também dessa maneira?

Cálicles — Penso.

Sócrates — Sendo assim, parece que tínhamos razão em nossa argumentação anterior,
de dizer que nesta cidade, pelo que sabemos, nunca houve político perfeito. Tu próprio
admitiste que presentemente não há, porém houve no passado, e a esses emprestaste relevo
especial. Contudo, esses mesmos se nos revelaram em tudo iguais aos do nosso tempo, de
forma que no caso de terem sido bons oradores não empregaram nem a verdadeira retórica —
sem o que não teriam caído — nem a aduladora.

LXXI II — Cálicles — Porém os de hoje, Sócrates, estão muito longe de haver
realizado os empreendimentos que conseguiu levar a cabo qualquer dos antigos que quiseres
apontar.

Sócrates — Mas, meu grande amigo, eu também não os censuro como servidores da
cidade; pelo contrário, parece mesmo que foram mais diligentes do que os de agora e mais
hábeis no empenho de alcançar para a cidade o que ela desejasse. Porém, no que diz respeito
a mudar esses desejos e a resistir-lhes, valendo-se da persuasão e da violência na adoção de
medidas indicadas para deixar melhores os cidadãos, para ser franco, em nada se
diferençaram dos de hoje; no entanto, esse é o único oficio do verdadeiro cidadão. Com
relação a construir navios, muralhas, estaleiros e tudo o mais do mesmo gênero, estou de
acordo contigo, que na sua consecução foram mais hábeis do que os de agora. Porém estamos
nós tornando ridículos, eu e tu, com esta dis cussão: durante todo o tempo em que
conversamos, não paramos de girar em torno do mesmo ponto, sem entender nenhum de nós
o que o outro queria dizer. Contudo, estou certo de que por mais de uma vez concordaste e
reconheceste que há dois modos de tratar o corpo e a alma; um é servil, e consiste em obter o
de que necessita o corpo: alimentos, se tem fome; bebidas, quando manifesta sede; roupas,
cobertas, calçados, quando sente frio, e assim tudo o mais que o corpo possa desejar. Muito
de caso pensado recorro sempre aos mesmos exemplos, para que me compreendas com
facilidade. Os indivíduos que fornecem todos esses artigos, quer seja o comerciante a varejo
ou o atacadista, quer seja o fabricante de todos eles: o padeiro, o cozinheiro, o tecelão, o
sapateiro, o curtidor, não