O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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entre esses dois
planos cósmicos. Há rotura de nível entre tehôm e o rochedo do Templo que lhe
fecha a “boca”, passagem do virtual ao formal, da morte à vida. O Caos aquático que
precedeu a Criação simboliza ao mesmo tempo a regressão ao amorfo efetuada pela

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morte, o regresso à modalidade larvar da existência. De certo ponto de vista, as
regiões inferiores são comparáveis às regiões desérticas e desconhecidas que cercam
o território habitado; o mundo de baixo, por cima do qual se estabelece firmemente
o nosso “Cosmos”, corresponde ao “Caos” que se estende junto às suas fronteiras.

“Nosso Mundo” situa-se sempre no centro

De tudo o que acabamos de dizer resulta que o “verdadeiro mundo” se encontra
sempre no “ meio”, no “Centro”, pois é aí que há rotura de nível, comunicação entre
as três zonas cósmicas. Trata-se sempre de um Cosmos perfeito, seja qual for sua
extensão. Toda uma região (por exemplo, a Palestina), uma cidade (Jerusalém), um
santuário (o templo de Jerusalém) representam indiferentemente uma imago mundi.
Flávio José escreveu, a propósito do simbolismo do templo, que o pátio figurava o
Mar (quer dizer, as regiões inferiores), o santuário representava a Terra, e o Santo
dos Santos, o Céu (Ant. Jud., III, VII, 7). Verifica se pois que a imago mundi, assim
como o “Centro”, se repete no interior do mundo habitado. A Palestina, Jerusalém e
o Templo de Jerusalém representam cada um e ao mesmo tempo a imagem do
Universo e o Centro do Mundo. Essa multiplicidade de “Centros” e essa reiteração
da imagem do mundo a escalas cada vez mais modestas constituem uma das notas
específicas das sociedades tradicionais.

Parece nos que se impõe uma conclusão: o homem religioso desejava viver o mais
perto possível do Centro do Mundo. Sabia que seu país se encontrava efetivamente
no meio da Terra; sabia também que sua cidade constituía o umbigo do Universo e,
sobretudo, que o Templo ou o Palácio eram verdadeiros Centros do Mundo; mas
queria também que sua própria casa se situasse no Centro e que ela fosse uma imago
mundi. E, como vamos ver, acreditava se que as habitações situavam-se de fato no
Centro do Mundo e reproduziam, em escala microcósmica, o Universo. Em outras
palavras, o homem das sociedades tradicionais só podia viver num espaço “aberto”
para o alto, onde a rotura de nível estava simbolicamente assegurada e a
comunicação com o outro mundo, o mundo transcendental, era ritualmente possível.
O santuário – o “Centro” por excelência – estava ali, perto dele, na sua cidade, e a
comunicação com o mundo dos deuses era-lhe afiançada pela simples entrada no
templo. Mas o homo religiosus sentia a necessidade de viver sempre no Centro – tal
como os achilpa, que, como vimos, traziam sempre consigo o poste sagrado, o Axis
mundi, a fim de não se afastarem do Centro e permanecerem em comunicação com o
mundo supra-terrestre. Numa palavra, sejam quais forem as dimensões do espaço
que lhe é familiar e no qual ele se sente situado – seu país, sua cidade, sua aldeia,
sua casa –, o homem religioso experimenta a necessidade de existir sempre num
mundo total e organizado, num Cosmos.

Um Universo origina se a partir do seu Centro, estende se a partir de um ponto
central que é como o seu “umbigo”. É assim que, segundo o Rig Veda (X, 149),

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nasce e se desenvolve o Universo: a partir de um núcleo, de um ponto central. A
tradição judaica é ainda mais explícita: “O Santíssimo criou o mundo como um
embrião. Tal como o embrião cresce a partir do umbigo, do mesmo modo Deus
começou a criar o mundo pelo umbigo e a partir daí difundiu se em todas as
direções”. E visto que o “umbigo da Terra”, o Centro do Mundo é a Terra Santa,
Yoma afirma: “O mundo foi criado a começar por Sionl3. Rabbi bin Gorion disse do
rochedo de Jerusalém que “ele se chama a Pedra angular da Terra, quer dizer, o
umbigo da Terra, pois foi a partir dali que toda a Terra se desenvolveu”. Por outro
lado, uma vez que a criação do homem é uma réplica da cosmogonia, daí resulta que
o primeiro homem foi fabricado no “umbigo da Terra” (tradição mesopotâmica), no
Centro do Mundo (tradição iraniana), no Paraíso situado no “umbigo da Terra” ou
em Jerusalém (tradições judaico-cristãs). E nem podia ser de outra forma, aliás, pois
o Centro é justamente o lugar onde se efetua uma rotura de nível, onde o espaço se
torna sagrado, real por excelência. Uma criação implica superabundância de
realidade, ou, em outras palavras, uma irrupção do sagrado no mundo.

Segue se daí que toda construção ou fabricação tem como modelo exemplar a
cosmogonia. A Criação do Mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador
humano, seja qual for seu plano de referência. Já vimos que a instalação num
território reitera a cosmogonia. Agora, depois de termos captado o valor
cosmogônico do Centro, compreendemos melhor por que todo estabelecimento
humano repete a Criação do Mundo a partir de um ponto central (o “umbigo”). Da
mesma forma que o Universo se desenvolve a partir de um Centro e se estende na
direção dos quatro pontos cardeais, assim também a aldeia se constitui a partir de
um cruzamento. Em Bali, tal como em certas regiões da Ásia, quando se empreende
a construção de uma nova aldeia, procura-se um cruzamento natural, onde se cortam
perpendicularmente dois caminhos. O quadrado construído a começar de um ponto
central é uma imago mundi. A divisão da aldeia em quatro setores – que implica
aliás uma partilha similar da comunidade – corresponde à divisão do Universo em
quatro horizontes. No meio da aldeia deixa se muitas vezes um espaço vazio: ali se
erguerá mais tarde a casa cultual, cujo telhado representa simbolicamente o Céu (em
alguns casos, o Céu é indicado pelo cume de uma árvore ou pela imagem de uma
montanha). Sobre o mesmo eixo perpendicular encontra-se, na outra extremidade, o
mundo dos mortos, simbolizado por certos animais (serpente, crocodilo etc.) ou
pelos ideogramas das trevash.

O simbolismo cósmico da aldeia é retomado na estrutura do santuário ou da casa
cultual. Em Waropen, na Nova Guiné, a “casa dos homens” encontra-se no meio da
aldeia: o telhado representa a abóbada celeste, as quatro paredes correspondem ás
quatro direções do espaço. Em Ceram, a pedra sagrada da aldeia simboliza o Céu, e
as quatro colunas de pedra que a sustentam encarnam os quatro pilares que
sustentam o Céu. Encontram-se concepções análogas entre as tribos algonquinas e
sioux. A cabana sagrada, onde se realizam as iniciações, representa o Universo. O
teto da cabana simboliza a cúpula celeste, o soalho representa a Terra, as quatro
paredes as quatro direções do espaço cósmico. A construção ritual do espaço é

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sublinhada por um triplo simbolismo: as quatro portas, as quatro janelas e as quatro
cores significam os quatro pontos cardeais. A construção da cabana sagrada repete
assim a cosmogonia, pois esta casinha representa o Mundo.

Não é surpreendente encontrar uma concepção similar na Itália antiga e entre os
antigos germanos. Trata-se, em suma, de uma idéia arcaica e muito difundida: a
partir de um Centro projetam-se os quatro horizontes nas quatro direções cardeais. O
mundus romano era uma fossa circular, dividida em quatro; era ao mesmo tempo a
imagem do Cosmos e o modelo exemplar do hábitat humano. Sugeriu se com razão
que a Roma quadrata deve ser entendida não como tendo a forma de um quadrado,
mas como sendo dividida em quatro. O mundus era evidentemente equiparado ao
omphalos, ao umbigo da Terra: a Cidade (Urbs) situava se no meio do orbis
terrarum. Demonstra-se, assim, que idéias similares explicam a estrutura das aldeias