O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

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. e das cidades germânicas. Em contextos culturais extremamente variados,
reencontramos sempre o mesmo esquema cosmológico e a mesma encenação ritual:
a instalação num território equivale à fundação de um mundo.

Cidade – cosmos

Visto que “nosso mundo” é um Cosmos, qualquer ataque exterior ameaça
transformá-lo em “Caos”. E dado que “nosso mundo” foi fundado pela imitação da
obra exemplar dos deuses, a cosmogonia, os adversários que o atacam são
equiparados aos inimigos dos deuses, aos demônios, e sobretudo ao arquidemônio, o
Dragão primordial vencido pelos deuses nos primórdios dos tempos. O ataque de
“nosso mundo” equivale a uma desforra do Dragão mítico, que se rebela contra a
obra dos deuses, o Cosmos, e se esforça por reduzi Ia ao nada. Os inimigos
enfileiram-se entre as potências do Caos. Toda destruição de uma cidade equivale a
uma regressão ao Caos. Toda vitória contra o atacante reitera a vitória exemplar do
Deus contra o Dragão (quer dizer, contra o “Caos”).

É por essa razão que o faraó era assimilado ao deus Rã, vencedor do dragão
Apophis, ao passo que seus inimigos eram identificados a esse Dragão mítico. Dario
considerava se um novo Thraetaona, herói mítico iraniano de quem se dizia ter
matado um Dragão de três cabeças. Na tradição judaica, os reis pagãos eram
apresentados sob os traços do Dragão: tal é o Nabucodonosor descrito por Jeremias
(51:34) e o Pompeu apresentado nos Salmos de Salomão (IX, 29).

Conforme ainda teremos ocasião de ver, o Dragão é a figura exemplar do Monstro
marinho, da Serpente primordial, símbolo das Águas cósmicas, das trevas, da Noite
e da Morte – numa palavra, do amorfo e do virtual, de tudo o que ainda não tem uma
“forma”. O Dragão teve de ser vencido e esquartejado pelo Deus para que o Cosmos
pudesse vir à luz. Foi do corpo do monstro marinho Tiamat que Marduk deu forma
ao mundo. Jeová criou o Universo depois da vitória contra o monstro primordial
Rahab. Mas, como veremos, essa vitória do deus sobre o Dragão deve ser repetida

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simbolicamente todos os anos, pois todos os anos o mundo deve ser criado de novo.
Da mesma maneira, a vitória do deus contra as forças das Trevas, da Morte e do
Caos repete se a cada vitória da cidade contra os invasores.

É muito provável que as defesas dos lugares habitados e das cidades tenham sido, no
começo, defesas mágicas; essas defesas – fossas, labirintos, muralhas etc. eram
dispostas a fim de impedir a invasão dos demônios e das almas dos mortos mais do
que o ataque dos humanos. No norte da Índia, na época de uma epidemia, descreve
se em volta da aldeia um círculo destinado a interdizer aos demônios da doença a
entrada no recinto. No Ocidente, na Idade Média, os muros das cidades eram
consagrados ritualmente como uma defesa contra o Demônio, a Doença e a Morte.
Aliás, o pensamento simbólico não encontra nenhuma dificuldade em assimilar o
inimigo humano ao Demônio e à Morte. Afinal, o resultado dos ataques, sejam
demoníacos ou militares, é sempre o mesmo: a ruína, a desintegração, a morte.

Notemos que nos nossos dias ainda são utilizadas as mesmas imagens quando se
trata de formular os perigos que ameaçam certo tipo de civilização: fala se do
“caos”, de “desordem”, das “trevas” onde “nosso mundo” se afundará. Todas essas
expressões significam a abolição de uma ordem, de um Cosmos, de uma estrutura
orgânica, e a re-imersão num estado fluido, amorfo, enfim, caótico. Isto prova, ao
que parece, que as imagens exemplares sobrevivem ainda na linguagem e nos
estribilhos do homem não religioso. Algo da concepção religiosa do Mundo
prolonga se ainda no comportamento do homem profano, embora ele nem sempre
tenha consciência dessa herança imemorial.

Assumir a criação do mundo

Sublinhemos a diferença radical que se assinala entre os dois comportamentos –
tradicional (religioso) e profano – relativamente à morada humana. Seria inútil
insistir sobre o valor e a função da habitação nas sociedades industriais; são
suficientemente bem conhecidos. Segundo a fórmula de um célebre arquiteto
contemporâneo, Le Corbusier, a casa é uma “máquina para habitar”. Alinha se,
portanto, entre as inúmeras máquinas fabrica das em série nas sociedades industriais.
A casa ideal do mundo moderno deve ser, antes de tudo, funcional, quer dizer, deve
permitir aos homens trabalharem e repousarem a fim de assegurarem o trabalho.
Pode se mudar a “máquina de habitar” tão freqüentemente quanto se troca uma
bicicleta, uma geladeira ou um carro. Pode se, igualmente, mudar da cidade ou
província natais, sem nenhum outro inconveniente alé m daquele que decorre da
mudança de clima.

Não cabe no nosso tema descrever a história da lenta dessacralização da morada
humana. Esse processo faz parte integrante da gigantesca transformação do mundo
assumida pelas sociedades industriais – transformação que se tornou possível pela
dessacralização do Cosmos, a partir do pensamento científico e, sobretudo, das

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descobertas sensacionais da física e da química. Mais tarde, teremos ocasião de
indagar-se essa secularização da Natureza é realmente definitiva, se não há nenhuma
possibilidade, para o homem não religioso, de reencontrar a dimensão sagrada da
existência no Mundo. Como acabamos de ver, e como veremos ainda melhor nas
páginas seguintes, algumas imagens tradicionais, alguns traços da conduta do
homem arcaico persistem ainda no estado de “sobrevivências”, mesmo nas
sociedades mais industrializadas. Mas o que nos interessa no momento é mostrar, no
estado puro, o comportamento religioso em relação à habitação e esclarecer a
concepção do mundo que ele implica.

Instalar-se num território, construir uma morada pede, conforme vimos, uma decisão
vital, tanto para a comunidade como para o indivíduo. Trata-se de assumir a criação
do “mundo” que se escolheu habitar. É preciso, pois, imitar a obra dos deuses, a
cosmogonia. Mas isso nem sempre é fácil de fazer, pois existem também
cosmogonias trágicas, sangrentas: como imitador dos gestos divinos, o homem deve
reiterá-las. Se os deuses tiveram de espancar e esquartejar um Monstro marinho ou
um Ser primordial para poderem criar a partir dele o mundo, o homem, por sua vez,
deve imitar essa ação quando constrói seu mundo próprio, a cidade ou a casa. Daí a
necessidade de sacrifícios sangrentos ou simbólicos por ocasião das construções, as
inúmeras formas de Bauopfer, acerca do qual teremos ocasião de dizer mais tarde
algumas palavras.

Seja qual for a estrutura de uma sociedade tradicional – seja uma sociedade de
caçadores, pastores, agricultores, ou uma sociedade que já se encontre no estágio da
civilização urbana –, a habitação é sempre santificada, pois constitui uma imago
mundi, e o mundo é uma criação divina. Mas existem várias maneiras de equiparar a
morada ao Cosmos, justamente porque existem vários tipos de cosmogonia. Para
nosso propósito, basta nos distinguir dois meios de transformar ritualmente a
morada (tanto o território como a casa) em Cosmos, quer dizer, de lhe conferir o
valor de imago mundi: (a) assimilandoa ao Cosmos pela projeção dos quatro
horizontes a partir de um ponto central, quando se trate de uma aldeia, ou pela
instalação simbólica do Axis mundi quando se trate da habitação familiar; (b)
repetindo, mediante um ritual de construção, o ato exemplar dos deuses, graças ao
qual o Mundo tomou nascimento do corpo de um Dragão marinho ou de um Gigante
primordial. Não nos incumbe discutir aqui a diferença radical de “Concepção do
Mundo” entre esses dois meios de santificar a morada, nem seus pressupostos
histórico culturais. Basta dizer que o primeiro meio – ou seja, a “cosmização” de um
espaço pela projeção