O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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da abóbada celeste é suficiente para desencadear uma
experiência religiosa. O Céu revela se infinito, transcendente. É por excelência o
ganz andere diante do qual o homem e seu meio ambiente pouco representam. A
transcendência revela se pela simples tomada de consciência da altura infinita. O
“muito alto” torna-se espontaneamente um atributo da divindade. As regiões
superiores inacessíveis ao homem, as zonas siderais, adquirem o prestígio do
transcendente, da realidade absoluta, da eternidade. Lá é a morada dos deuses; é lá
que chegam alguns privilegiados, mediante ritos de ascensão; para lá se elevam,
segundo as concepções de certas religiões, as almas dos mortos. O “muito alto” é
uma dimensão inacessível ao homem como tal; pertence de direito às forças e aos
Seres sobre humanos. Aquele que se eleva subindo a escadaria de um santuário, ou a
escada ritual que conduz ao Céu, deixa então de ser homem: de uma maneira ou de
outra, passa a fazer parte da condição divina.

Não se trata de uma operação lógica, racional. A categoria transcendental da
“altura”, do supra-terrestre, do infinito revela se ao homem como um todo, tanto à
sua inteligência como à sua alma. É uma tomada de consciência total: em face do
Céu, o homem descobre ao mesmo tempo a incomensurabilidade divina e sua
própria situação no Cosmos. O Céu revela, por seu próprio modo de ser, a
transcendência, a força, a eternidade. Ele existe de uma maneira absoluta, pois é
elevado, infinito, eterno, poderoso.

É nesse sentido que se deve compreender o que dizíamos mais atrás, que os deuses
manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo:
o Cosmos – a obra exemplar dos deuses – é “construído” de tal maneira, que o
sentimento religioso da transcendência divina é incitado pela própria existência do
Céu. E, visto que o Céu existe de maneira absoluta, um grande número de deuses
supremos das populações primitivas são chamados por nomes que designam a altura,
a abóbada celeste, os fenômenos meteorológicos; ou são chamados muito
simplesmente de “Proprietários do Céu”, ou “Habitantes do Céu”.

A divindade suprema dos maori chama se lho; ibo tem o sentido de “elevado,
acima”. Uwoluwu, o Deus supremo dos negros akposo, significa “o que está no alto,
as regiões superiores”. Entre os selk’nam da Terra do Fogo, Deus se chama
“Habitante do Céu” ou “Aquele que está no Céu”. Puluga, o Ser supremo dos
andamanais, habita o Céu; sua voz é o trovão, o vento seu hálito; o furacão é o sinal
de sua cólera, pois ele pune com o raio aqueles que infringem suas ordens. O Deus
do Céu dos iorubas da costa dos Escravos chama se Olorum, literalmente
“Proprietário do Céu”. Os samoiedos adoram Num, Deus que habita o mais alto do
Céu e cujo nome significa “Céu”. Entre os koryaks, a divindade suprema chama se o

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“Um do alto”, “o Senhor do Alto”, “Aquele que existe”. Os ainos conhecem no
como “o Chefe divino do Céu”, “o Deus celeste”, “o Criador divino dos mundos”,
mas também como Kamui, que quer dizer “Céu”. E pode alongar-se facilmente a
lista.

O mesmo ocorre entre as religiões de povos mais civilizados, quer dizer, dos povos
que desempenharam um papel importante na História. O nome mongol do Deus
supremo é Tengri, que significa “Céu”. O T’ien chinês denota ao mesmo tempo o
“Céu” e “Deus do Céu”. O termo sumério para divindade, dingir, tinha como
significado primitivo uma epifania celeste: “claro, brilhante”. O Anu babilônio
exprime igualmente a noção de “Céu”. O Deus supremo indo europeu, Diêus, denota
ao mesmo tempo a epifania celeste e o sagrado (cf. “brilhar”, “dia”; dyaus, “céu”,
“dia” – Dyaus, deus indiano do Céu). Zeus, Júpiter guardam ainda nos nomes a
recordação da sacralidade celeste. O celta Taranis (de taran, “trovejar”), o báltico
Perkunas (“relâmpago”) e o protoeslavo Perun (cf. o piorum polonês: “relâmpago”)
mostram sobretudo as transformações ulteriores dos deuses do Céu em deuses da
Tempestade.

Não se trata de “naturismo”. O Deus celeste não é identificado com o Céu, pois foi o
próprio Deus que, criador de todo o Cosmos, criou também o Céu. É por esta razão
que é chamado “Criador”, “Todo Poderoso”, “Senhor”, “Chefe”, “Pai” etc. O Deus
celeste é urna pessoa e não uma epifania uraniana. Mas ele habita o Céu e manifesta
se por meio dos fenômenos meteoroló gicos: trovão, raio, tempestade, meteoros etc.
Em outras palavras, algumas estruturas privilegiadas do Cosmos – o Céu, a
atmosfera – constituem as epifanias favoritas do Ser supremo: ele revela sua
presença por meio daquilo que lhe é específico: a majestas da imensidade celeste, o
tremendum da tempestade.

O Deus longínquo

A história dos Seres supremos de estrutura celeste é de grande importância para a
compreensão da história religiosa da humanidade como um todo. Não será possível
escrevê-la aqui, nestas poucas páginas, mas não podemos deixar de mencionar um
fato que nos parece capital: os Seres supremos de estrutura celeste têm tendência a
desaparecer do culto; “afastam se” dos homens, retiram-se para o Céu e tornam-se
dei otiosi. Numa palavra, pode se dizer que esses deuses, depois de terem criado o
Cosmos, a vida e o homem, sentem uma espécie de “fadiga”, como se o enorme
empreendimento da Criação lhes tivesse esgotado os recursos. Retiram se, pois, para
o Céu, deixando na Terra um filho ou um demiurgo, para acabar ou aperfeiçoar a
Criação. Aos poucos, o lugar deles é tomado por outras figuras divinas: os
Antepassados míticos, as Deusas Mães, os Deuses fecundadores etc. O deus da
Tempestade conserva ainda uma estrutura celeste, mas já não é um Ser supremo
criador: é apenas um Fecundador da Terra, e às vezes não passa de um auxiliar de

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sua parenta, a Terra Mãe. O Ser supremo de estrutura celeste só conserva seu lugar
preponderante entre os povos pastores, e ganha uma situação única nas religiões de
tendência monoteísta (Ahura Mazda) ou monoteístas (Jeová, Alá).

O fenômeno do “afastamento” do Deus supremo revela se desde os níveis arcaicos
de cultura. Entre os australianos kulin, o Ser supremo Bundjil criou o Universo, os
animais, as árvores e o próprio homem; mas, depois de ter investido seu filho com o
poder sobre a Terra, e sua filha com o poder sobre o Céu, Bundjil retirou se do
mundo. Habita sobre as nuvens, como um “senhor”, tendo um grande sabre na mão.
Puluga, o Ser supremo dos andamanais, retirou se depois de ter criado o mundo e o
primeiro homem. Ao mistério do “afastamento” corresponde a ausência quase
completa de culto: nenhum sacrifício, nenhuma solicitação, nenhuma ação de
graças. Apenas alguns costumes religiosos em que ainda sobrevive a recordação de
Puluga: por exemplo, o “silêncio sagrado” dos caçadores que regressam à aldeia
depois de uma caçada feliz.

O “Habitante do Céu” ou “Aquele que está no Céu” dos selk’nam é eterno,
onisciente, onipotente, criador, mas a Criação foi concluída pelos antepassados
míticos, criados pelo Deus supremo antes de se retirar para cima das estrelas.
Atualmente, esse Deus isolou se dos homens, indiferente às coisas do mundo. Não
tem imagens, nem sacerdotes. Somente em caso de doença lhe dirigem preces: “Tu,
do alto, não leves meu filho; é ainda muito pequeno!”, Só lhe fazem oferendas
durante as intempéries.

O mesmo acontece entre a maioria das populações africanas: o grande Deus celeste,
o Ser supremo, criador e onipotente, desempenha um papel insignificante na vida
religiosa da tribo. Encontra-se muito longe, ou é bom demais para ter necessidade de
um culto propriamente dito, e invocam no apenas em casos extremos. Assim, por
exemplo, o Olorum (“Proprietário do Céu”) dos iorubas, depois de ter iniciado a
criação do mundo,