O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
109 pág.

O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
Pré-visualização40 páginas
confiou a um deus inferior, óbatala, o cuidado de concluí-lo e
governá-lo. Quanto a Olorum, retirou se definitivamente dos negócios terrestres e
humanos, e não há templos, nem estátuas, nem sacerdotes deste Deus supremo.
Todavia, é invocado, como último recurso, em tempos de calamidade.

Retirado no Céu, Ndyambi, o Deus supremo dos héréros, abandonou a humanidade
a divindidades inferiores. “Por que lhe ofereceríamos sacrifícios?” – explica um
indígena. “Não precisamos temê-lo, pois, ao contrário dos nossos [espíritos dos]
mortos, ele não nos faz mal algum.” O Ser supremo dos tumbukas é grande demais
“para se interessar pelas coisas vulgares dos homens”. O mesmo acontece entre os
negros de língua tshi da África ocidental, com Njankupon: não tem culto e só lhe
prestam homenagem em casos de grandes privações ou epidemias, ou depois de uma
violenta borrasca; os homens perguntam-lhe então em que é que o ofenderam.
Dzingbé (“o Pai universal”), o Ser supremo dos ewe, só é invocado durante a seca:
“Ó Céu, a quem devemos nossos agradecimentos, grande é a seca; faz que chova,
que a Terra se refresque e que os campos prosperem.” O afastamento e a passividade
do Ser supremo são admiravelmente expressos num adágio dos gyriamas da África

Mircea Eliade
_________________________________________________

 – 63 –

oriental que descreve também o seu Deus: “Mulugu (Deus) está no alto, os manes
estão embaixo.” Os bantos dizem: “Deus, depois de ter criado o homem, já se não
preocupa mais com ele.” E os negrilhos repetem: “Deus afastou se de nós!” As
populações Fang da pradaria da África equatorial resumem sua filosofia religiosa no
seguinte cântico:

Deus (Nzame) está no alto, o homem está embaixo.
Deus é Deus, o homem é o homem.

Cada um no seu país, cada um em sua casa.

É inútil multiplicar os exemplos. Por toda parte, entre essas religiões primitivas, o
Ser supremo celeste parece ter perdido a atualidade religiosa; está ausente do culto e,
no mito, afasta se cada vez mais dos homens, até se tornar um deus otiosus. Os
homens, porém, lembram-se dele e imploram-lhe em última instância quando
fracassam todos os esforços com os outros deuses e deusas, antepassados e
demônios. Conforme se exprimem os oraons: “Tentamos tudo, mas ainda temos a ti
para nos socorrer!” E sacrificam-lhe um galo branco, gritando: “Ó Deus! Tu és
nosso criador! Tem piedade de nós!”.

A experiência religiosa da vida

O “afastamento divino” traduz na realidade o interesse cada vez maior do homem
por suas próprias descobertas religiosas, culturais e econômicas. Interessado pelas
hierofanias da Vida, em descobrir o sagrado da fecundidade terrestre e sentir se
solicitado por experiências religiosas mais “concretas” (mais carnais, até mesmo
orgiásticas), o homem primitivo afasta se do Deus celeste e transcendente. A
descoberta da agricultura transforma radicalmente não somente a economia do
homem primitivo mas, sobretudo, sua economia do sagrado. Outras forças religiosas
entram em jogo: a sexualidade, a fecundidade, a mitologia da mulher e da Terra etc.
A experiência religiosa torna-se mais concreta, quer dizer, mais intimamente
misturada à Vida. As grandes Deusas Mães e os Deuses fortes ou os gênios da
fecundidade são claramente mais “dinâmicos” e mais acessíveis aos homens do que
o era o Deus criador.

Mas, como acabamos de ver, em casos de aflição extrema, quando tudo foi tentado
em vão, e sobretudo em casos de desastres provenientes do Céu – seca, tempestade,
epidemia –, os homens voltam-se para o Ser supremo e imploram-lhe. Esta atitude
não é exclusiva das populações primitivas. Todas as vezes que os antigos hebreus
viviam uma época de paz e prosperidade econômica relativas, afastavam-se de Jeová
e tornavam a aproximar-se dos Baals e das Astartes dos seus vizinhos. Só as
catástrofes históricas forçavam nos a voltarem se para Jeová. “Então clamaram ao
Eterno e disseram: pecamos porque abandonamos o Eterno e servimos Baal e
Astartes; agora, pois, livramo-nos da mão de nossos inimigos, e servir teemos.” (I,
Samuel, 12:10)

O Sagrado e o Profano
_________________________________________________

– 64 –

Os hebreus voltavam-se para Jeová em conseqüência das catástrofes históricas e na
iminência de um aniquilamento regido pela História; os primitivos lembram-se de
seus Seres supremos em casos de catástrofes cósmicas. Mas o sentido do retorno ao
Deus celeste é o mesmo para uns e para outros: numa situação extremamente crítica,
em que a própria existência da coletividade está em jogo, abandonam-se as
divindades que asseguram e exaltam a Vida em tempos normais, para reencontrar o
Deus supremo. Trata-se, aparentemente, de um grande paradoxo: as divindades que,
entre os primitivos, substituíram os deuses de estrutura celeste eram – tal como os
Baals e as Astartes entre os hebreus – divindades da fecundidade, da opulência, da
plenitude vital; em resumo, divindades que exaltavam e amplificavam a Vida, tanto
a vida cósmica – vegetação, agricultura, gado – como a vida humana.
Aparentemente, essas divindades eram fortes, poderosas. Sua atualidade religiosa
explicava-se justamente por sua força, suas reservas vitais ilimitadas, sua
fecundidade.

E, contudo, seus adoradores – primitivos ou hebreus – tinham o sentimento de que
todas as grandes deusas e todos os deuses agrários eram incapazes de salvá-los, isto
é, de lhes assegurarem a existência nos momentos realmente críticos. Esses deuses e
deusas só podiam reproduzir a vida e aumentá-la, e mesmo assim só em épocas
“normais”; em resumo, eram divindades que regiam admiravelmente os ritmos
cósmicos, mas se revelavam incapazes de salvar o Cosmos ou a sociedade humana
num momento de crise (crise “histórica” entre os hebreus).

As diversas divindades que substituíram os Seres supremos acumularam os poderes
mais concretos e mais esplendorosos, os poderes da Vida. Mas, exatamente por isso,
“especializaram se” na procriação e perderam os poderes mais sutis, mais “nobres”,
mais “espirituais” dos Deuses criadores. Descobrindo a sacralidade da Vida, o
homem deixou se arrastar progressivamente por sua própria descoberta: abandonou-
se às hierofanias vitais e afastou se da sacralidade que transcendia suas necessidades
imediatas e cotidianas.

Perenidade dos símbolos celestes

Notemos, contudo que, mesmo quando a vida religiosa já não é dominada pelos
deuses celestes, as regiões siderais, o simbolismo uraniano, os mitos e os ritos de
ascensão etc. conservam um lugar preponderante na economia do sagrado. Aquele
que está “no alto”, o “elevado”, continua a revelar o transcendente em qualquer
conjunto religioso. Afastado do culto, e relegado às mitologias, o céu mantém se
presente na vida religiosa por intermédio do simbolismo. E esse simbolismo celeste
infunde e sustenta, por sua vez, numerosos ritos (de ascensão, de escalada, de
iniciação, de realeza etc.), mitos (a Árvore cósmica, a Montanha cósmica, a cadeia
das flechas que liga a Terra ao Céu etc.) e lendas (o vôo mágico etc.). O simbolismo
do “Centro do Mundo” também ilustra a importância do simbolismo religioso: é

Mircea Eliade
_________________________________________________

 – 65 –

num “Centro” que se efetua a comunicação com o Céu, e esta constitui a imagem
exemplar da transcendência.

Poder-se-ia dizer que a própria estrutura do Cosmos conserva viva a recordação do
Ser supremo celeste. Como se os deuses tivessem criado o Mundo de tal maneira
que ele não pudesse refletir-lhes a existência; pois nenhum mundo é possível sem a
verticalidade, e esta dimensão, por si só, basta para evocar a transcendência.

Retirado da vida religiosa propriamente dita, o sagrado celeste permanece ativo por
meio do simbolismo. Um símbolo religioso transmite sua mensagem mesmo quando
deixa de ser compreendido, conscientemente,