O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

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em sua totalidade, pois um símbolo
dirige se ao ser humano integral, e não apenas à sua inteligência.

Estrutura do simbolismo aquático

Antes de falarmos da Terra, precisamos apresentar as valorizações religiosas das
Águas, e isso por duas razões: (1) as Águas existiam antes da Terra (conforme se
exprime o Gênesis, “as trevas cobriam a superfície do abismo, e o Espírito de Deus
planava sobre as águas”); (2) analisando os valores religiosos das Águas, percebe se
melhor a estrutura e a função do símbolo. Ora, o simbolismo desempenha um papel
considerável na vida religiosa da humanidade; graças aos símbolos, o Mundo se
torna “transparente”, suscetível de “revelar” a transcendência.

As águas simbolizam a soma universal das virtualidades: são fons et origo, o
reservatório de todas as possibilidades de existência; precedem toda forma e
sustentam toda criação. Uma das imagens exemplares da Criação é a Ilha que
subitamente se “manifesta” no meio das vagas. Em contrapartida, a imersão na água
simboliza a regressão ao pré-formal, a reintegração no modo indiferenciado da
preexistência. A emersão repete o gesto cosmogônico da manifestação formal; a
imersão equivale a uma dissolução das formas. É por isso que o simbolismo das
Águas implica tanto a morte como o renascimento. O contato com a água comporta
sempre uma regeneração: por um lado, porque a dissolução é seguida de um “novo
nascimento”; por outro lado, porque a imersão fertiliza e multiplica o potencial da
vida. À cosmogonia aquática correspondem, ao nível antropológico, as hilogenias: a
crença segundo a qual o gênero humano nasceu das Águas. Ao dilúvio ou à
submersão periódica dos continentes (mitos do tipo “Atlântica”) corresponde, ao
nível humano, a “segunda morte” do homem (a “umidade” e leimon dos Infernos
etc.), ou a morte iniciática pelo batismo. Mas, tanto no plano cosmológico como no
plano antropológico, a imersão nas Águas equivale não a uma extinção definitiva, e
sim a uma reintegração passageira no indistinto, seguida de uma criação, de uma
nova vida ou de um “homem novo”, conforme se trate de um momento cósmico,
biológico ou soteriológico. Do ponto de vista da estrutura, o “dilúvio” é comparável
ao “batismo”, e a libação funerária às lustrações dos recém nascidos ou aos banhos

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rituais primaveris que trazem saúde e fertilidade.

Em qualquer conjunto religioso em que as encontremos, as águas conservam
invariavelmente sua função: desintegram, abolem as formas, “lavam os pecados”,
purificam e, ao mesmo tempo, regeneram. Seu destino é preceder a Criação e
reabsorvê-la, incapazes que são de ultrapassar seu próprio modo de ser, ou seja, de
se manifestarem em formas. As Águas não podem transcender a condição do virtual,
de germes e latências. Tudo o que é forma se manifesta por cima das Águas,
destacando se delas.

Há aqui um aspecto essencial: a sacralidade das Águas e a estrutura das
cosmogonias e dos apocalipses aquáticos não poderiam ser reveladas integralmente
senão por meio do simbolismo aquático, que é o único “sistema” capaz de integrar
todas as revelações particulares das inúmeras hierofanias. Esta lei é, de resto, a de
todo simbolismo: é o conjunto simbólico que valoriza os diversos significados das
hierofanias. As “Águas da Morte”, por exemplo, só revelam seu sentido profundo
quando se conhece a estrutura do simbolismo aquático.

História exemplar do batismo

Os padres da Igreja não deixaram de explorar certos valores pré-cristãos e universais
do simbolismo aquático, com o risco de os enriquecerem de significados novos,
relativamente à existência histórica do Cristo. Para Tertuliano (De Baptismo III-V),
a água foi a primeira “sede do Espírito divino, que a preferia então a todos os outros
elementos... Foi a água a primeira que produziu o que tem vida, a fim de que nosso
espanto cessasse quando ela gerasse um dia a vida no batismo... Toda água natural
adquire, pois, pela antiga prerrogativa com que foi honrada em sua origem, a virtude
da santificação no sacramento, se Deus for invocado sobre ela. Logo que se
pronunciam as palavras, o Espírito Santo, descido dos Céus, pára sobre as águas,
que ele santifica com sua fecundidade; as águas assim santificadas impregnam se,
por sua vez, da virtude santificadora... O que outrora curava o corpo cura hoje a
alma; o que trazia a saúde no Tempo traz a salvação na eternidade...”

O “homem velho” morre por imersão na água e dá nascimento a um novo ser
regenerado. Este simbolismo é admiravelmente expresso por João Crisóstomo
(Homil. in Joh., XXV, 2), que, falando da multivalência simbólica do batismo,
escreve: “Ele representa a morte e a sepultura, a vida e a ressurreição... Quando
mergulhamos a cabeça na água como num sepulcro, o homem velho fica imerso,
enterrado inteiramente; quando saímos da água, aparece imediatamente o homem
novo.”

Como se vê, as interpretações de Tertuliano e João Crisóstomo harmonizam-se
perfeitamente com a estrutura do simbolismo aquático. Intervêm, contudo, na
valorização cristã das águas certos elementos novos ligados a uma `história’; neste

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caso a História sagrada. Há, antes de tudo, a valorização do batismo como descida
ao abismo das Águas para um duelo com o monstro marinho. Esta descida tem um
modelo: o do Cristo no Jordão, que era ao mesmo tempo uma descida nas Águas da
Morte. Conforme escreve Cirilo de Jerusalém, “o dragão Behemoth, segundo Jó,
estava nas Águas e recebia o Jordão em sua garganta. Ora, como era preciso
esmagar as cabeças do dragão, Jesus, tendo descido nas Águas, atacou a fortaleza
para que adquiríssemos o poder de caminhar sobre os escorpiões e as serpentes”.

Vem, em seguida, a valorização do batismo como repetição do dilúvio. Segundo
Justino, o Cristo, novo Noé, saiu vitorioso das Águas e tornou-se o chefe de uma
outra raça. O dilúvio simboliza tanto a descida às profundezas marinhas como o
batismo. “O dilúvio era, pois, uma imagem que o batismo acabava de consumar...
Assim como Noé havia afrontado o mar da Morte, onde a humanidade pecadora
tinha sido aniquilada e do qual emergira, também aquele que se batiza desce na
piscina batismal para afrontar o dragão do mar num combate supremo e sair dele
vencedor.”

Mas, ainda acerca do rito batismal, estabeleceu se também um paralelo entre o
Cristo e Adão. O paralelo Adão Cristo assume um lugar considerável já na teologia
de S. Paulo. “Pelo batismo”, afirma Tertuliano, “o homem recupera a semelhança
com Deus.” (De Bapt, V.) Para Cirilo, “o batismo não é somente purificação dos
pecados e graça da adoção, mas também antitypos da Paixão de Cristo”. Também a
nudez batismal encerra, ao mesmo tempo, um significado ritual e metafísico: o
abandono da “antiga veste de corrupção e pecado da qual o batizado se despoja por
Cristo, aquela com que Adão se cobriu depois do pecado”, mas igualmente o retorno
à inocência primitiva, condição de Adão antes da queda. “Ó coisa admirável”,
escreve Cirilo. “Vós estáveis nus aos olhos de todos e não vos envergonhastes disso.
É que em verdade trazeis em vós a imagem do primeiro Adão, que no Paraíso se
encontrava nu e não se envergonhava.”

Nesses poucos textos, podemos perceber o sentido das inovações cristãs: por um
lado, os padres procuravam correspondência entre os dois testamentos; por outro
lado, mostravam que Jesus Cristo tinha cumprido realmente as promessas feitas por
Deus ao povo de Israel. Mas é importante observar que essas novas valorizações do
simbolismo batismal não contradiziam o simbolismo aquático universalmente
difundido. Tudo se reencontra ali: Noé e o Dilúvio tiveram como recíproco, em
inúmeras tradições, o cataclismo que pôs fim a uma “humanidade”