O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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é a
suprema criação dos deuses.

A orgia ritual em favor das colheitas também tem um modelo divino: a hierogamia
do deus fecundador com a Terra Mãe. A fertilidade agrária é estimulada por um
frenesi genésico ilimitado. De certo ponto de vista, a orgia corresponde à

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indiferenciação de antes da Criação. É por isso que certos cerimoniais do Ano Novo
comportam rituais orgiásticos: a “confusão” social, a libertinagem e as saturnais
simbolizam a regressão ao estado amorfo anterior à Criação do Mundo. Quando se
trata de uma “criação” ao nível da vida vegetal, a encenação cosmológico ritual se
repete, pois a nova colheita equivale a uma nova “Criação”. A idéia de renovação –
presente nos rituais do Ano Novo, em que se tratava ao mesmo tempo de renovação
do Tempo e da regeneração do Mundo – é encontrada novamente nas encenações
orgiásticas agrárias. Aqui também a orgia é uma regressão à Noite cósmica, ao pré-
formal, às “Águas”, a fim de assegurar a regeneração total da Vida e, por
conseqüência, a fertilidade da Terra e a opulência das colheitas.

Simbolismo da arvore cósmica e cultos da vegetação

Como acabamos de ver, os mitos e os ritos da Terra-Mãe exprimem sobretudo as
idéias de fecundidade e riqueza. Trata-se de idéias religiosas, pois os múltiplos
aspectos da fertilidade universal revelam, em suma, o mistério da geração, da
criação da Vida. Ora, a aparição da Vida é, para o homem religioso, o mistério
central do Mundo. A Vida “vem” de qualquer parte que não é este mundo e,
finalmente, retira-se daqui de baixo e “vai se” para o além, prolongando se de
maneira misteriosa num lugar desconhecido, inacessível à maior parte dos vivos.

A vida humana não é sentida como uma breve aparição no Tempo, entre dois Nadas;
é precedida de uma preexistência e prolonga se numa pós-existência. Muito pouco
se conhece acerca desses dois estágios extraterrestres da Vida humana, mas sabe se
pelo menos que eles existem. Para o homem religioso, portanto, a morte não põe um
termo definitivo à vida: a morte não é mais do que uma outra modalidade da
existência humana.

Tudo isto, aliás, está “cifrado” nos ritmos cósmicos: basta que se decifre o que o
Cosmos “diz” por seus múltiplos modos de ser para se compreender o mistério da
Vida. Ora, uma coisa parece evidente: o Cosmos é um organismo vivo, que se
renova periodicamente. O mistério da inesgotável aparição da Vida corresponde à
renovação rítmica do Cosmos. É por essa razão que o Cosmos foi imaginado sob a
forma de uma árvore gigante: o modo de ser do Cosmos, e sobretudo sua capacidade
infinita de se regenerar, é expresso simbolicamente pela vida da árvore.

É preciso notar, porém, que não se trata de uma simples transposição de imagens da
escala microcósmica para a escala macroscósmica. Como “objeto natural”, a árvore
não podia sugerir a totalidade da Vida cósmica: ao nível da experiência profana, seu
modo de ser não abrange o modo de ser do Cosmos em toda a sua complexidade. Ao
nível da experiência profana, a vida vegetal revela apenas uma seqüência de
“nascimentos” e “mortes”. É a visão religiosa da Vida que permite “decifrar” outros
significados no ritmo da vegetação, principalmente as idéias de regeneração, de
eterna juventude, de saúde, de imortalidade. A idéia religiosa da realidade absoluta é

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simbolicamente expressa, entre tantas outras imagens, pela figura de um “fruto
miraculoso” que confere, ao mesmo tempo, imortalidade, onisciência e onipotência
e que é capaz de transformar os homens em deuses.

A imagem da árvore não foi escolhida unicamente para simbolizar o Cosmos, mas
também para exprimir a Vida, a juventude, a imortalidade, a sapiência. Além das
árvores cósmicas, como Yggdrasff, da mitologia germânica, a história das religiões
conhece Árvores da Vida (Mesopotâmia), da Imortalidade (Ásia, Antigo
Testamento), da Sabedoria (Antigo Testamento), da juventude (Mesopotâmia, Índia,
Irã) etc.29 Em outras palavras, a árvore conseguiu exprimir tudo o que o homem
religioso considera real e sagrado por excelência, tudo o que ele sabe que os deuses
possuem por sua própria natureza e que só raramente é acessível aos indivíduos
privilegiados, os heróis e semi-deuses. É por isso que os mitos da busca da
imortalidade ou da juventude ostentam uma árvore de frutos de ouro ou de folhagem
miraculosa, que se encontra “num país longínquo” (na realidade, no outro mundo) e
que é guardada por monstros (grifos, dragões, serpentes). Aquele que deseja colher
os frutos deve lutar com o monstro guardião e matá-lo, ou seja, submeter se a uma
prova iniciática de tipo beróico: o vencedor obtém “pela violência” a condição sobre
humana, quase divina, da eterna juventude, da invencibilidade e da onipotência.

É nesses símbolos de uma Árvore cósmica, ou da imortalidade ou da Ciência, que se
exprimem com o máximo de força e clareza as valências religiosas da vegetação.
Em outras palavras, a árvore sagrada ou as plantas sagradas revelam uma estrutura
que não é evidente nas diversas espécies vegetais concretas. Conforme já
salientamos, é a sacralidade que desvenda as estruturas mais profundas do Mundo. O
Cosmos só se apresenta como uma “cifra” segundo uma perspectiva religiosa. É
para o homem religioso que os ritmos da vegetação revelam o mistério da Vida e da
Criação, e também da renovação, da juventude e da imortalidade. Poder-se-ia dizer
que todas as árvores e plantas consideradas sagradas (por exemplo, o arbusto
asbvatba, na Índia) devem sua condição privilegiada ao fato de encarnarem o
arquétipo, a imagem exemplar da vegetação. Por outro lado, é o valor religioso que
faz que uma planta seja cuidada e cultivada. Segundo alguns autores, todas as
plantas cultivadas atualmente foram consideradas na origem plantas sagradas.

Aquilo que se chama de cultos de vegetação não depende de uma experiência
profana, “naturista”, em relação, por exemplo, com a primavera e a renovação da
vegetação. É, pelo contrário, a experiência religiosa da renovação (recomeço,
recriação) do Mundo que precede e justifica a valorização da primavera como
ressurreição da Natureza. É o Mistério da .regeneração periódica do Cosmos que
fundou a importância religiosa da primavera. Aliás, nos cultos da vegetação, nem
sempre é o fenômeno natural da primavera e da aparição da vegetação que importa,
mas o sinal prenunciador do mistério cósmico. Grupos de jovens visitam
cerimonialmente as casas da aldeia e mostram um ramo verde, um ramalhete de
flores, uma ave. É o sinal da ressurreição iminente da vida vegetal, o testemunho de

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que o mistério se realizou, que a primavera não tardará a vir. A maior parte desses
rituais tem lugar antes do “fenômeno natural” da primavera.

Dessacralização da natureza

já dissemos que, para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente
“natural”. A experiência de uma Natureza radicalmente dessacralizada é uma
descoberta recente, acessível apenas a uma minoria das sociedades modernas,
sobretudo aos homens de ciência. Para o resto das pessoas, a Natureza apresenta
ainda um “encanto”, um “ mistério”, uma “majestade”, onde se podem decifrar os
traços dos antigos valores religiosos. Não há homem moderno, seja qual for o grau
de sua irreligiosidade, que não seja sensível aos “encantos” da Natureza. Não se
trata unicamente dos valores estéticos, desportivos ou higiênicos concedidos à
Natureza, mas também de um sentimento confuso e difícil de definir, no qual ainda
se reconhece a recordação de uma experiência religiosa degradada.

Será interessante mostrar, com a ajuda de um exemplo preciso, as modificações e a