O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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e mistérios. É o
acesso à sacialidade, tal como ela se revela ao assumir a condição de mulher, que
constitui o objetivo tanto dos ritos iniciáticos de puberdade como das sociedades
secretas femininas (Weiherbtïnde).

A iniciação começa com a primeira menstruação. Este sintoma fisiológico comanda
uma rotura, o afastamento da jovem de seu mundo familiar: ela é imediatamente
isolada, separada da comunidade. A segregação tem lugar numa cabana especial, na
selva ou num canto escuro da habitação. A jovem catamenial deve manter se numa
posição específica, muito incômoda, e evitar ser vista pelo Sol ou tocada por
qualquer pessoa. Traz um vestido especial, ou um sinal, uma cor que lhe está de
certo modo reservada, e deve nutrir se de alimentos crus.

A segregação e a reclusão na sombra, numa cabana escura na selva, lembram nos o
simbolismo da morte iniciática dos rapazes isolados na floresta, encerrados em
choupanas.

Existe, no entanto, uma diferença: entre as meninas a segregação tem lugar
imediatamente após a primeira menstruação, sendo portanto individual, ao passo que
entre os rapazes é coletiva. A diferença se explica pelo aspecto fisiológico,
manifesto entre as meninas do fim da infância. Mas as meninas acabam por
constituir um grupo, e então a iniciação delas é realizada coletivamente, por velhas
monitoras.

Quanto às sociedades femininas, estão sempre relacionadas com o mistério do
nascimento e da fertilidade. O mistério do parto, quer dizer, a descoberta feita pela
mulher de que ela é criadora no plano da vida, constitui uma experiência religiosa
intraduzível em termos da experiência masculina.

Compreende se então por que o parto deu lugar a rituais secretos femininos que se

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organizam às vezes como verdadeiros mistérios. Até na Europa se conservaram os
traços desses mistérios.

Como entre os homens, encontramos múltiplas formas de associações femininas,
onde o segredo e o mistério aumentam progressivamente. Há, para começar, a
iniciação geral, pela qual passa toda jovem e toda recém casada, e que conduz à
instituição das sociedades femininas. Há, em seguida, as associações femininas de
mistérios, como na África ou, na Antiguidade, nos grupos fechados das Mênades.
Sabe se que essas confrarias femininas de mistério demoraram muito tempo a
desaparecer; lembremos as feiticeiras da Idade Média européia e suas reuniões
rituais.

Morte e iniciação

O simbolismo e o ritual iniciáticos que comportam ser engolido por um monstro
desempenharam um papel considerável tanto nas iniciações como nos mitos
heróicos e nas mitologias da Morte. O simbolismo do regresso ao ventre tem sempre
uma valência cosmológica. É o mundo inteiro que, simbolicamente, regressa com o
neófito à Noite cósmica para poder ser criado de novo, regenerado. Conforme
vimos, recita se o mito cosmológico com fins terapêuticos. Para curar o doente, é
preciso fazê-lo nascer mais uma vez, e o modelo arquetípico do nascimento é a
cosmogonia. É preciso abolir a obra do Tempo, restabelecer o instante auroral de
antes da Criação; no plano humano, isto equivale a dizer que é preciso retornar à
“página branca” da existência, ao começo absoluto, quando nada se encontrava
ainda maculado, quando nada estava ainda estragado. Penetrar no ventre do monstro
– ou ser simbolicamente “enterrado” ou fechado na cabana iniciática – equivale a
uma regressão ao indistinto primordial, à Noite cósmica.

Sair do ventre, ou da cabana tenebrosa, ou da “tumba” iniciática, equivale a uma
cosmogonia. A morte iniciática reitera o retorno exemplar ao Caos para tornar
possível a repetição da cosmogonia, ou seja, para preparar o novo nascimento. A
regressão ao Caos verifica se às vezes literalmente: é o caso, por exemplo, das
doenças iniciáticas dos futuros xamãs, consideradas inúmeras vezes como
verdadeiras loucuras. Assiste se, com efeito, a uma crise total, que conduz muitas
vezes à desintegração da personalidade. O “caos psíquico” é o sinal de que o homem
profano se encontra prestes a “dissolver se” e que uma nova personalidade está
prestes a nascer.

Compreende se por que o mesmo esquema iniciático – sofrimentos, morte e
ressurreição (renascimentos) se reencontra em todos os mistérios, tanto nos ritos de
puberdade como naqueles que dão acesso a uma sociedade secreta; e por que o
mesmo cenário se deixa revelar nas intrigantes experiências íntimas que precedem a
vocação mística (entre os primitivos, as doenças iniciáticas” dos futuros xamãs). O
homem das sociedades primitivas esforçou se por vencer a morte transformando a

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em rito de passagem. Em outras palavras, para os primitivos, morre se sempre para
qualquer coisa que não seja essencial; morre se sobretudo para a vida profana. Em
resumo, a morte chega a ser considerada como a suprema iniciação, quer dizer,
como o começo de uma nova existência espiritual. Mais ainda: geração, morte e
regeneração (renascimento) foram compreendidas como os três momentos de um
mesmo mistério, e todo o esforço espiritual do homem arcaico foi empregado em
mostrar que não devem existir cortes entre esses três momentos. Não se pode parar
em um dos três momentos. O movimento, a regeneração continuam sempre.

Refaz se infatigavelmente a cosmogonia para se estar seguro de que se faz de fato
alguma coisa: uma criança, por exemplo, ou uma casa, ou uma vocação espiritual. É
por isso que se encontra sempre a valência cosmogônica dos ritos de iniciação.

O “segundo nascimento” e a criação espiritual

O quadro iniciático – quer dizer, morte para a condição profana, seguida do
renascimento para o mundo sagrado, para o mundo dos deuses – também
desempenha um papel importante nas religiões evoluídas. O sacrifício indiano
constitui um exemplo célebre. Seu objetivo é alcançar, após a morte, o Céu, a
morada dos deuses ou a qualidade de deus (devâtma). Em outras palavras, pelo
sacrifício forja se uma condição sobre humana, resultado que pode ser comparado ao
das iniciações arcaicas. Ora, o sacrificante deve ser previamente consagrado pelos
sacerdotes, e a consagração (dikshâ) comporta um simbolismo iniciático de estrutura
obstétrica; propriamente falando, a dikshâ transforma ritualmente o sacrificante em
embrião, fazendo o nascer uma segunda vez.

Os textos enfatizam longamente o sistema de correspondência graça ao qual o
sacrificante sofre um regressus ad uterum seguido de um novo nascimento.
Vejamos, por exemplo, o que diz a esse respeito o Aitareya Brâhmana (I, 3). “Os
sacerdotes transformam em embrião aquele a quem concedem a consagração
(dikshâ). Aspergem no com água: a água é a semente viril... Fazem no entrar no
abrigo especial: o abrigo especial é a matriz de quem faz a dikshâ; fazem no entrar
assim na matriz que lhe convém. Recobrem no com uma veste, a veste é o âmnio...
Põem-lhe por cima uma pele de antílope negro; o córion está, de fato, por cima do
âmnio... Ele tem os punhos cerrados; com efeito, o embrião tem os punhos cerrados
enquanto está no ventre, a criança tem os punhos fechados quando nasce. Ele tira a
pele de antílope para entrar no banho; é por isso que os embriões vêm ao mundo
despojados do córion. Ele mantém a veste para entrar no mundo e é por isso que a
criança nasce com âmnio por cima de si.”

O conhecimento sagrado e, por extensão, a sabedoria são concebidos como o fruto
de uma iniciação, e é significativo que tanto na Índia antiga como na Grécia se
encontre o simbolismo obstétrico ligado ao despertar da consciência suprema. Não
era sem razão que Sócrates se comparava a uma parteira: ele de fato ajudava o

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