O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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e mitologias degradadas.
Isso, porém, não nos surpreende, pois, como vimos, o homem profano descende do
homo religiosus e não pode anular sua própria história, quer dizer, os
comportamentos de seus antepassados religiosos, que o constituíram tal como ele é
hoje.

Mircea Eliade
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Além do mais, grande parte de sua existência é alimentada por pulsões que lhe
chegam do mais profundo de seu ser, da zona que se chamou de inconsciente. Um
homem exclusivamente racional é uma abstração; jamais o encontramos na
realidade. Todo ser humano é constituído, ao mesmo tempo, por uma atividade
consciente e por experiências irracionais. Ora, os conteúdos e as estruturas do
inconsciente apresentam semelhanças surpreendentes com as imagens e figuras
mitológicas. Não queremos dizer que as mitologias sejam “produto” do
inconsciente, pois o modo de ser do mito é justamente que ele se revela como mito,
ou seja, proclama que algo se manifestou de maneira exemplar. Um mito é
“produzido” pelo inconsciente da mesma maneira que se pode dizer que Madame
Bovary é “produto” de um adultério.

Todavia, os conteúdos e estruturas do inconsciente são o resultado das situações
existenciais imemoriais, sobretudo das situações críticas, e é por essa razão que o
inconsciente apresenta uma aura religiosa. Toda crise existencial põe de novo em
questão, ao mesmo tempo, a realidade do Mundo e a presença do homem no Mundo:
em suma, a crise existencial é “religiosa”, visto que, aos níveis arcaicos de cultura, o
ser confunde se com o sagrado. Conforme vimos, é a experiência do sagrado que
funda o mundo, e mesmo a religião mais elementar é, antes de tudo, uma ontologia.
Em outras palavras, na medida em que o inconsciente é o resultado de inúmeras
experiências existenciais, não pode deixar de assemelhar-se aos diversos universos
religiosos. Pois a religião é a solução exemplar de toda crise existencial, não apenas
porque é indefinidamente repetível, mas também porque é considerada de origem
transcendental e, portanto, valorizada como revelação recebida de um outro mundo,
trans humano. A solução religiosa não somente resolve a crise, mas, ao mesmo
tempo, torna a existência “aberta” a valores que já não são contingentes nem
particulares, permitindo assim ao homem ultrapassar as situações pessoais e, no fim
das contas, alcançar o mundo do espírito.

Não nos cabe desenvolver aqui todas as conseqüências da relação entre o conteúdo e
as estruturas do inconsciente, por um lado, e os valores da religião, por outro. O
objetivo dessa alusão foi mostrar em que sentido mesmo o homem mais francamente
a religioso partilha ainda, no mais profundo de seu ser, de um comportamento
religiosamente orientado. Mas as ’`mitologias” privadas do homem moderno – seus
sonhos, devaneios, fantasias etc. – não conseguem alçar-se ao regime ontológico dos
mitos, justamente porque não são vividas pelo homem total e não transformam uma
situação particular em situação exemplar. Do mesmo modo que as angústias do
homem moderno, suas experiências oníricas ou imaginárias, ainda que “religiosas”
(to ponto de vista forma l, não se integram, como entre o homo religiosus, numa
concepção do mundo e não fundam um comportamento. Um exemplo nos permitirá
perceber melhor as diferenças entre as duas categorias de experiência. A atividade
inconsciente do homem moderno não cessa de lhe apresentar inúmeros símbolos, e
cada um tem uma certa mensagem a transmitir, uma certa missão a desempenhar,
tendo em vista assegurar o equilíbrio da psique ou restabelecê-lo. Conforme vimos,
o símbolo não somente torna o Mundo “aberto”, mas também ajuda o homem

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religioso a alcançar o universal. Pois é graças aos símbolos que o homem sai de sua
situação particular e se “abre” para o geral e o universal. Os símbolos despertam a
experiência individual e transmudam na em ato espiritual, em compreensão
metafísica do Mundo. Diante de uma árvore qualquer, símbolo da Árvore do Mundo
e imagem da Vida cósmica, um homem das sociedades pré-modernas é capaz de
alcançar a mais alta espiritualidade: ao compreender o símbolo, ele consegue viver o
universal. É a visão religiosa do Mundo e a ideologia que o exprime que lhe
permitem fazer frutificar essa experiência individual, “abri-la” para o universal. A
imagem da Árvore é ainda muito freqüente nos universos imaginários do homem
moderno a religioso: constitui um marco de sua vida profunda, do drama que se
desenrola no inconsciente e que diz respeito à integridade de sua vida psíquico
mental e, portanto, à sua própria existência. Mas enquanto o símbolo da Árvore não
desperta a consciência total do homem, tornando a “aberta” ao universal, não se
pode dizer que o símbolo desempenhou completamente sua função. Ele só em parte
“salvou” o homem de sua situação individual – ao permitir-lhe, por exemplo,
integrar unia crise de profundidade e ao devolver-lhe o equilíbrio psíquico
provisoriamente ameaçado –, mas não o elevou ainda à espiritualidade, ou seja, não
conseguiu revelar-lhe uma das estruturas do real.

Este exemplo basta, parece nos, para mostrar em que sentido o homem a religioso
das sociedades modernas é ainda alimentado e ajudado pela atividade de seu
inconsciente, sem que por isso alcance uma experiência e uma visão do mundo
propriamente religiosa. O inconsciente oferece-lhe soluções para as dificuldades de
sua própria existência e, neste sentido, desempenha o papel da religião, pois, antes
de tornar uma existência criadora de valores, a religião assegura-lhe a integridade.
De certo ponto de vista, quase se poderia dizer que, entre os modernos que se
proclamam a religiosos, a religião e a mitologia estão “ocultas” nas trevas de seu
inconsciente – o que significa também que as possibilidades de reintegrar uma
experiência religiosa da vida jazem, nesses seres, muito profundamente neles
próprios. De uma perspectiva cristã, poder-se-ia dizer igualmente que a não religião
equivale a uma nova “queda” do homem: o homem a religioso teria perdido a
capacidade de viver conscientemente a religião e, portanto, de compreendê-la e
assumi-la; mas, no mais profundo de seu ser, ele guarda ainda a recordação dela, da
mesma maneira que, depois da primeira “queda”, e embora espiritualmente cego,
seu antepassado, o Homem primordial, conservou inteligência suficiente para lhe
permitir reencontrar os traços de Deus visíveis no Mundo. Depois da primeira
“queda”, a religiosidade caiu ao nível da consciência dilacerada; depois da segunda,
caiu ainda mais profundamente, no mais fundo do inconsciente: foi “esquecida”.

Param aqui as considerações do historiador das religiões. É aqui também que
principia a problemática própria ao filósofo, ao psicólogo e até mesmo ao teólogo.

Mircea Eliade
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BIBLIOGRAFIA

INTRODUÇÃO

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