O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

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pela
crença em espíritos. O. P. Wilhelm Schmidt (1868 1954) retomou essa idéia e
elaborando a nas perspectivas do método histórico cultural, esforçou se por
demonstrar a existência de um monoteísmo, fundamental (cf. Der Ursprung der
Gottesidee, 12 volumes, 1912-1955).

Durante a primeira metade do século XIX surgem outros movimentos. Emile
Durkheim (1858-1917) julgava ter encontrado no totemismo a explicação
sociológica da religião. (O termo totem designa, entre os Odjibwa da América, o
animal cujo nome o clã usa e que é considerado o antepassado da raça.) já em 1869,
J. F. Mac Lennan afirmava que o totemismo constitui a primeira forma religiosa.
Mas investigações posteriores, sobretudo as de Frazer, mostraram que o totemismo
não se difundiu por todo o mundo e que. portanto, não podia ser considerado a
forma religiosa mais antiga. Lucien Lé vy-Bruhl tentou provar que o comportamento
religioso se explicaria pela mentalidade pré-lógica dos primitivos – hipótese a que
renunciou no,fim da sua vida. Mas essas hipóteses sociológicas não exerceram lima
influência duradoura sobre as investigações histórico-religiosas. Alguns etnólogos,
esforçando-se por fazer de sua disciplina lima ciência histórica, contribuíram
indiretamente para a história das religiões. Entre esses etnólogos, podemos citar Fr.
Graebner. Leo Frobenius, W. W Rivers, Wilhelm Schmidt na Europa, e a escola
americana de Franz Boas. Wilhelm Wundt (1832 1920), Willian James (1842-1910)
e Sigmund Freud (1856-1939) propuseram explicações psicológicas da religião. A
fenomenologia da religião teve o seu primeiro representante autorizado em Gerardus
van der Leeuw (1890-1950).

Atualmente, os historiadores das religiões estão divididos entre duas orientações
metodológicas divergentes, mas complementares: uns concentram sua atenção
principalmente nas estruturas específicas dos fenômenos religiosos, enquanto outros
interessam-se de preferência pelo contexto histórico desses fenômenos; os primeiros
esforçam-se por compreender a essência da religião, os outros trabalham por decifrar
e apresentar sua história.

O Sagrado e o Profano
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INTRODUÇÃO

Ainda nos lembramos da repercussão mundial que obteve o livro de Rudolf Otto,
Das Heilige (1917). Seu sucesso deu se graças, sem dúvida, à novidade e à
originalidade da perspectiva adotada pelo autor. Em vez de estudar as idéias de Deus
e de religião, Rudolf Otto aplicara-se na análise das modalidades da experiência
religiosa. Dotado de grande refinamento psicológico e fortalecido por uma dupla
preparação de teólogo e de historiador das religiões, Rudolf Otto conseguiu
esclarecer o conteúdo e o caráter específico dessa experiência. Negligenciando o
lado racional e especulativo da religião, Otto voltou se sobretudo para o lado
irracional, pois tinha lido Lutero e compreendera o que quer dizer, para um crente, o
“Deus vivo”. Não era o Deus dos filósofos, o Deus de Erasmo, por exemplo; não era
uma idéia, uma noção abstrata, uma simples alegoria moral. Era, pelo contrário, um
poder terrível, manifestado na “cólera” divina.

Na obra Das Heilige, Rudolf Otto esforça se por clarificar o caráter específico dessa
experiência terrífica e irracional. Descobre o sentimento de pavor diante do sagrado,
diante desse mysterium tremendum, dessa majestas que exala uma superioridade
esmagadora de poder; encontra o temor religioso diante do mysterium fascinans, em
que se expande a perfeita plenitude do ser. R. Otto designa todas essas experiências
como numinosas (do latim numen, “deus”) porque elas são provocadas pela
revelação de um aspecto do poder divino. O numinoso singulariza se como qualquer
coisa de ganz andere, radical e totalmente diferente: não se assemelha a nada de
humano ou cósmico; em relação ao ganz andere, o homem tem o sentimento de sua
profunda nulidade, o sentimento de “não ser mais do que uma criatura”, ou seja –
segundo os termos com que Abraão se dirigiu ao Senhor –, de não ser “senão cinza e
pó” (Gênesis, 18: 27).

O sagrado manifesta se sempre como uma realidade inteiramente diferente das
realidades “naturais”. É certo que a linguagem exprime ingenuamente o tremendum,
ou a majestas, ou o mysterium fascinans mediante termos tomados de empréstimo
ao domínio natural ou à vida espiritual profana do homem. Mas sabemos que essa
terminologia analógica se deve justamente à incapacidade humana de exprimir o
ganz andere: a linguagem apenas pode sugerir tudo o que ultrapassa a experiência
natural do homem mediante termos tirados dessa mesma experiência natural.

Passados quarenta anos, as análises de R. Otto guardam ainda seu valor; o leitor
tirará proveito da leitura e da meditação delas. Mas nas páginas que seguem
situamo-nos numa outra perspectiva. Propomo-nos apresentar o fenômeno do
sagrado em toda a sua complexidade, e não apenas no que ele comporta de
irracional. Não é a relação entre os elementos não racional e racional da religião que

Mircea Eliade
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nos interessa, mas sim o sagrado na sua totalidade. Ora, a primeira definição que se
pode dar ao sagrado é que ele se opõe ao profano. As páginas que o leitor vai
abordar têm por objetivo ilustrar e precisar essa oposição entre o sagrado e o
profano.

Quando o sagrado se manifesta

O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como
algo absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos o ato da manifestação
do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica
nenhuma precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu
conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. Poder-se-ia dizer
que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais elaboradas – é
constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das
realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a
manifestação do sagrado num objeto qualquer, urna pedra ou uma árvore – e até a
hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo,
não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato
misterioso: a manifestação de algo “de ordem diferente” – de uma realidade que não
pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo
“natural”, “profano”.

O homem ocidental moderno experimenta um certo mal estar diante de inúmeras
formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres
humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. Mas,
como não tardaremos a ver, não se trata de uma veneração da pedra como pedra, de
um culto da árvore como árvore. A pedra sagrada, a árvore sagrada não são adoradas
com pedra ou como árvore, mas justamente porque são hierofanias, porque
“revelam” algo que já não é nem pedra, nem árvore, mas o sagrado, o ganz andere.

Nunca será demais insistir no paradoxo que constitui toda hierofania, até a ma is
elementar. Manifestando o sagrado, um objeto qualquer torna-se outra coisa e,
contudo, continua a ser ele mesmo, porque continua a participar do meio cósmico
envolvente. Uma pedra sagrada nem por isso é menos uma pedra; aparentemente
(para sermos mais exatos, de um ponto de vista profano) nada a distingue de todas as
demais pedras. Para aqueles a cujos olhos uma pedra se revela sagrada, sua realidade
imediata transmuda se numa realidade sobrenatural. Em outras palavras, para
aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a Natureza é suscetível de revelar-
se como sacralidade cósmica. O Cosmos, na sua totalidade, pode tornar-se uma
hierofania.

O homem das sociedades arcaicas tem a tendência para viver o mais possível no
sagrado ou muito