O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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perto dos objetos consagrados. Essa tendência é compreensível,
pois para os “primitivos”, como para o homem de todas as sociedades pré-modernas,

O Sagrado e o Profano
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o sagrado equivale ao poder e, em última análise, à realidade por excelência. O
sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade,
perenidade e eficácia. A oposição sagrado/profano traduz se muitas vezes como uma
oposição entre real e irreal ou pseudo real. (Não se deve esperar encontrar nas
línguas arcaicas essa terminologia dos filósofos – real-irreal etc. –, mas encontra-se
a coisa.) É, portanto, fácil de compreender que o homem religioso deseje
profundamente ser, participar da realidade, saturar-se de poder.

É deste assunto, sobretudo, que nos ocuparemos nas páginas a seguir: de que
maneira o home m religioso se esforça por manter se o máximo de tempo possível
num universo sagrado e, conseqüentemente, como se apresenta sua experiência total
da vida em relação à experiência do homem privado de sentimento religioso, do
homem que vive, ou deseja viver, num mundo dessacralizado. É preciso dizer, desde
já, que o mundo profano na sua totalidade, o Cosmos totalmente dessacralizado, é
uma descoberta recente na história do espírito humano. Não é nossa tarefa mostrar
mediante quais processos históricos, e em conseqüência de que modificações do
comportamento espiritual, o homem moderno dessacralizou seu mundo e assumiu
uma existência profana. Para o nosso propósito basta constatar que a dessacralização
caracteriza a experiência total do homem não religioso das sociedades modernas, o
qual, por essa razão, sente uma dificuldade cada vez maior em reencontrar as
dimensões existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas.

Dois modos de ser no mundo

Pode se medir o precipício que separa as duas modalidades de experiência – sagrada
e profana – lendo se as descrições concernentes ao espaço sagrado e à construção
ritual da morada humana, ou às diversas experiências religiosas do Tempo, ou às
relações do homem religioso com a Natureza e o mundo dos utensílios, ou à
consagração da própria vida humana, à sacralidade de que podem ser carregadas
suas funções vitais (alimentação, sexualidade, trabalho etc.). Bastará lembrar no que
se tornaram, para o homem moderno e a religioso, a cidade ou a casa, a Natureza, os
utensílios ou o trabalho, para perceber claramente tudo o que o distingue de uni
homem pertencente às sociedades arcaicas ou mesmo de uni camponês da Europa
cristã. Para a consciência moderna, um ato fisiológico – a alimentação, a
sexualidade etc. – não é, em suma, mais do que uni fenômeno orgânico, qualquer
que seja o número de tabus que ainda o envolva (que impõe, por exemplo, certas
regras para “comer convenientemente” ou que interdiz um comportamento sexual
que a moral social reprova). Mas para o “primitivo” um tal ato nunca é
simplesmente fisiológico; é, ou pode tornar-se, uni “sacramento”, quer dizer, uma
comunhão com o sagrado.

O leitor não tardará a dar-se conta de que o sagrado e o profano constituem duas
modalidades de ser no Mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem

Mircea Eliade
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ao longo da sua história. Esses modos de ser no Mundo não interessam unicamente à
história das religiões ou à sociologia, não constituem apenas o objeto de estudos
históricos, sociológicos, etnológicos. Em última instância, os modos de ser sagrado e
profano dependem das diferentes posições que o homem conquistou no Cosmos e,
conseqüentemente, interessam não só ao filósofo mas também a todo investigador
desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana.

Por essa razão, o autor deste pequeno livro, embora um historiador das religiões,
propõe se não escrever unicamente da perspectiva da ciência que cultiva. O homem
das sociedades tradicionais é, por assim dizer, um homo religiosus, mas seu
comportamento enquadra-se no comportamento geral do homem e, por conseguinte,
interessa à antropologia filosófica, à fenomenologia, à psicologia.

A fim de sublinhar melhor as notas específicas da existência num mundo suscetível
de tornar-se sagrado, não hesitaremos em citar exemplos escolhidos entre um grande
número de religiões, pertencentes a idades e culturas diferentes. Nada pode
substituir o exemplo, o fato concreto. Seria vão discorrer acerca da estrutura do
espaço sagrado sem mostrar, com exemplos precisos, como se constrói um tal
espaço e por que é que tal espaço se torna qualitativamente diferente do espaço
profano que o cerca. Tomaremos esses exemplos entre mesopotâmicos, indianos,
chineses, kwakiutls e outras populações primitivas. Da perspectiva histórico cultural,
uma tal justaposição de fatos religiosos, pertencentes a povos tão distantes no tempo
e no espaço, não deixa de ser um tanto perigosa, pois há sempre o risco de se recair
nos erros do século XIX e, principalmente, de se acreditar, como Tvlor ou Frazer,
numa reação uniforme do espírito humano diante dos fenômenos naturais. Ora, os
progressos da etnologia cultural e da história das religiões mostraram que nem
sempre isso ocorre, que as “reações do homem diante da Natureza” são
condicionadas muitas vezes pela cultura – portanto, em última instância, pela
história.

Mas, para o nosso propósito, é mais importante salientar as notas específicas cia
experiência religiosa do que mostrar suas múltiplas variações e as diferenças
ocasionadas pela história. É um pouco como se, a fim de captarmos melhor o
fenômeno poético, apelássemos para uma massa de exemplos heterogêneos, citando,
ao lado de Homero, Virgílio ou Dante, poemas hindus, chineses ou mexicanos – ou
seja, tomando em conta não só poéticas historicamente solidárias (Homero, Virgílio,
Dante) mas também algumas criações baseadas em outras estéticas. Do ponto de
vista da história da literatura, tais justaposições são duvidosas – mas são válidas se
temos em vista a descrição do fenômeno poético como tal, se nos propomos mostrar
a diferença essencial entre a linguagem poética e a linguagem utilitária cotidiana.

O sagrado e a história

O que nos interessa, acima de tudo, é apresentar as dimensões específicas da

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experiência religiosa, salientar suas diferenças com a experiência profana do Mundo.
Não insistiremos sobre os inumeráveis condicionamentos que a experiência religiosa
no Mundo sofreu no curso do tempo. É evidente, por exemplo, que os simbolismos e
os cultos da Terra Mãe, da fecundidade humana e agrária, da sacralidade da mulher
etc. não puderam desenvolver se e constituir um sistema religioso amplamente
articulado senão pela descoberta da agricultura. É igualmente evidente que uma
sociedade pré-agrícola, especializada na caça, não podia sentir da mesma maneira,
nem com a mesma intensidade, a sacralidade da Terra Mãe. Há, portanto, uma
diferença de experiência religiosa que se explica pelas diferenças de economia,
cultura e organização social – numa palavra, pela história. Contudo, entre os
caçadores nômades e os agricultores sedentários, há uma similitude de
comportamento que nos parece infinitamente mais importante do que suas
diferenças: tanto uns como outros vivem num Cosmos sacralizado; uns como outros
participam de uma sacralidade cósmica, que se manifesta tanto no mundo animal
como no mundo vegetal. Basta comparar suas situações existenciais às de um
homem das sociedades modernas, vivendo num Cosmos dessacralizado, para
imediatamente nos darmos conta de tudo o que separa este último dos outros. Do
mesmo modo, damo-nos conta da validade das comparações

entre fatos religiosos pertencentes a diferentes culturas: