O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade

Disciplina:Historia da Filosofia III55 materiais198 seguidores
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pilar cósmico ao poste sagrado, e da casa cultual ao Universo, entre os Nad’a de
Flores. O poste de sacrifício chama se “Poste do Céu”, e acredita se que o Céu seja
sustentado por ele.

O “Centro do Mundo”

O grito do neófito kwakiutl: “Estou no Centro do Mundo!”, revela nos, de imediato,
uma das mais profundas sigilificações do espaço sagrado. Lá onde, por meio de uma
hierofania, se efetuou a rotura dos níveis, operou se ao mesmo tempo uma
“abertura” em cima (o mundo divino) ou embaixo (as regiões inferiores, o mundo
dos mortos). Os três níveis cósmicos – Terra, Céu, regiões inferiores – tornaram-se
comunicantes. Como acabamos de ver, a comunicação às vezes é expressa por meio
da imagem de uma coluna universal, Axis mundi, que liga e sustenta o Céu e a Terra,
e cuja base se encontra cravada no mundo de baixo (que se chama “Infernos”). Essa
coluna cósmica só pode situar-se no próprio centro do Universo, pois a totalidade do
mundo habitável espalha se à volta dela. Temos, pois, de considerar uma seqüência
de concepções religiosas e imagens cosmológicas que são solidárias e se articulam
num “sistema”, ao qual se pode chamar de “sistema do Mundo” das sociedades
tradicionais: (a) um lugar sagrado constitui uma rotura na homogeneidade do

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espaço; (b) essa rotura é simbolizada por uma “abertura”, pela qual se tornou
possível a passagem de uma região cósmica a outra (do Céu à Terra e vice-versa; da
Terra para o mundo inferior); (c) à comunicação com o Céu é expressa
indiferentemente por certo número de imagens referentes todas elas ao Axis mundi:
pilar (cf. a universalis columna), escada (cf. a escada de Jacó), montanha, árvore,
cipós etc.; (d) em torno desse eixo cósmico estende se o “Mundo” (“nosso mundo”)
– logo, o eixo encontra-se “ao meio”, no “umbigo da Terra”, é o Centro do Mundo.

Um grande número de mitos, ritos e crenças diversas deriva desse “sistema do
Mundo” tradicional. Não é o caso de citá-los aqui. Parece nos mais útil limitar nos a
alguns exemplos, escolhidos entre civilizações diferentes, e que podem nos fazer
compreender o papel do espaço sagrado na vida das sociedades tradicionais –
qualquer que seja, aliás, o aspecto particular sob o qual se apresente esse espaço:
lugar santo, casa cultual, cidade, “Mundo”. Encontramos por toda a parte o
simbolismo do Centro do Mundo, e é ele que, na maior parte dos casos, nos permite
entender o comportamento religioso em relação ao “espaço em que se vive”.

Comecemos por um exemplo que tem o mérito de nos revelar, de imediato, a
coerência e a complexidade de um tal simbolismo: a Montanha Cósmica. Acabamos
de ver que a montanha figura entre as imagens que exprimem a ligação entre o Céu e
a Terra; considera-se, portanto, que a montanha se encontra no Centro do Mundo.
Com efeito, numerosas culturas falam nos dessas montanhas – míticas ou reais –
situadas no Centro do Mundo: é o caso do Meru, na Índia, de Haraberezaiti, no Irã,
da montanha mítica “Monte dos Países”, na Mesopotâmia, de Gerizim, na Palestina,
que se chamava aliás “Umbigo da Terra”. Visto que a montanha sagrada é um Axis
mundi que liga a Terra ao Céu, ela toca de algum modo o Céu e marca o ponto mais
alto do mundo; daí resulta, pois, que o território que a cerca, e que constitui o “nosso
mundo”, é considerado como a região mais alta. É o que proclama a tradição
israelita: a Palestina, sendo a região mais elevada, não foi submersa pelo Dilúvio.
Segundo a tradição islâmica, o lugar mais elevado da Terra é a kâ’aba, pois “a
estrela polar testemunha que ela se encontra defronte do centro do Céu”. Para os
cristãos, é o Gólgota que se encontra no cume da Montanha cósmica. Todas essas
crenças exprimem um mesmo sentimento, que é profundamente religioso: “nosso
mundo” é uma terra santa porque é o lugar mais próximo do Céu, porque daqui,
dentre nós, pode se atingir o Céu; nosso mundo é, pois, um “lugar alto”. Em termos
cosmológicos, essa concepção religiosa traduz se pela projeção do território
privilegiado que é o nosso no cume da montanha cósmica. As especulações
posteriores tiraram toda sorte de conclusões, por exemplo a que acabamos de ver a
propósito da Palestina: que a Terra Santa não foi submersa pelo Dilúvio.

O mesmo simbolismo do Centro explica outras séries de imagens cosmológicas e
crenças religiosas, entre as quais vamos reter as mais importantes: (a) as cidades
santas e os santuários estão no Centro do Mundo; (b) os templos são réplicas da
Montanha cósmica e, conseqüentemente, constituem a “ligação” por excelência
entre a Terra e o Céu; (c) os alicerces dos templos mergulham profundamente nas

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regiões inferiores. Alguns exemplos serão suficientes. Em seguida trataremos de
integrar todos esses diversos aspectos de um mesmo simbolismo; veremos então
mais claramente como são coerentes essas concepções tradicionais do Mundo.

A capital do soberano chinês perfeito encontra-se no Centro do Mundo: aí, no dia do
solstício do verão, ao meio dia, o gnomo não deve ter sombras. É surpreendente
encontrar o mesmo simbolismo aplicado ao Templo de Jerusalém: o rochedo sobre o
qual se erguia o templo era o “umbigo da Terra”. O peregrino islandês Nicolau de
Thvera, que visitara Jerusalém no século XIII, escreveu acerca do Santo Sepulcro:
“É ali o meio do Mundo; ali, no dia do solstício do verão, a luz do Sol cai
perpendicular do Céu”. A mesma concepção no Irã: a região iraniana (Airyanam
Vaejab) é o centro e o coração do Mundo. Tal como o coração se encontra no meio
do corpo, “o país do Irã é mais precioso que todos os demais países porque está
situado no meio do Mundo”. É por isso que Shiz, a “Jerusalém” dos iranianos (por
se encontrar no Centro do Mundo), era reputada como o lugar original do poder real
e, ao mesmo tempo, a cidade onde Zaratustra nascera”.

Quanto à assimilação dos templos às Montanhas cósmicas e à sua função de
“ligação” entre a Terra e o Céu, testemunham no os próprios nomes das torres e dos
santuários babilônios: chamam-se “Monte da Casa”, “Casa do Monte de todas as
Terras”, “Monte das Tempestades”, “Ligação entre o Céu e a Terra” etc. A ziqqurat
era, propriamente falando, uma Montanha cósmica: os sete andares representavam
os sete céus planetários; subindo os, o sacerdote ascendia ao cume do Universo. Um
simbolismo análogo explica a enorme construção do templo de Barabudur, em Java,
erigido como uma montanha artificial. Sua escalada equivale a uma viagem extãtica
ao Centro do Mundo; atingindo o terraço superior, o peregrino realiza uma rotura de
nível; penetra numa “região pura”, que transcende o mundo profano.

Dur-na-ki, “ligação entre o Céu e a Terra”, era um nome que se aplicava a vários
santuários babilônios (em Nippur, Larsa, Sippar etc.). Babilônia tinha inúmeros
nomes, entre os quais “Casa da base do Céu e da Terra”, “Ligação entre o Céu e a
Terra”. Mas é ainda em Babilônia que se fazia a ligação entre a Terra e as regiões
inferiores, porque a cidade havia sido construída sobre bâbapsú, “a Porta de Apsü”,
designando apsâ as Águas do Caos anterior à Criação. Encontra-se a mesma tradição
entre os hebreus: o rochedo do templo de Jerusalém penetrava profundamente o
tebôm, o equivalente hebraico de apsú. E tal como na Babilônia havia a “Porta de
Apsú”, o rochedo do templo de Jerusalém tapava a “boca de tebóm”.

O apsú, o tehôm simbolizam ao mesmo tempo o “Caos” aquático – a modalidade
pré-formal da matéria cósmica – e o mundo da Morte, de tudo o que precede a vida e
a sucede. A “Porta de Apsú” e o rochedo que oculta a “boca de tehôm” designam
não somente o ponto de intersecção – e portanto de comunicação – entre o mundo
inferior e a Terra, mas também a diferença de regime ontológico