O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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retomada várias vezes posteriormente. Teofrasto (372 287). que 
sucedeu a Aristóteles na direção do Liceu. pode ser considerado o primeiro 
historiador grego das religiões: segundo Diógenes Laércio (V. 48), Teofrasto 
compôs uma história das religiões em seis livros. 
Mas foi a partir das conquistas de Alexandre, o Grande (356-323), que os escritores 
gregos tiveram oportunidade de conhecer diretamente e descrever as tradições 
religiosas dos povos orientais. Sob Alexandre, Bérose, sacerdote de Bel, publica 
suas Babyloniká. Megasténe, várias vezes enviado por Seleukos Nikator, entre os 
anos de 302 e 297, em embaixada ao rei indiano Chandragupta, publica Indiká. 
Hecateu de Abdera ou de Mos (365-270/275) escreve sobre os hiperbóreos e 
consagra à teologia dos egípcios os seus Aigyptiaká. O sacerdote egípcio Manéton 
(século 111) aborda o mesmo assunto em obra publicada sob o mesmo título. Foi 
assim que o mundo alexandrino passou a conhecer um grande número de mitos, ritos 
e costumes religiosos exóticos. 
No início do século III, em Atenas, Epicuro (341-270) empreendeu uma crítica 
radical da religião: segundo ele, o \u201cconsenso universal\u201d prova que os deuses 
existem, mas Epicuro considera-os seres superiores e longínquos, sem nenhuma 
relação com os .homens. Suas teses ganharam popularidade no mundo latino no 
século I a.C, graças, sobretudo, a Lucrécio (c. 98 c. 53). 
Mas foram os estóicos que, no final do período antigo, exerceram uma influência 
profunda, ao elaborarem a exegese alegórica, método que lhes permitiu resgatar e, 
ao mesmo tempo, revalorizar a herança mitológica. Segundo os estóicos, os mitos 
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revelavam visões filosóficas sobre a natureza profunda das coisas, ou encerravam 
preceitos morais. Os múltiplos nomes dos deuses designavam uma só divindade, e 
todas as religiões exprimiam a mesma verdade fundamental; só variava a 
terminologia. O alegorismo estóico permitiu a tradução, numa linguagem universal e 
facilmente compreensível, de qualquer tradição antiga ou exótica. O método 
alegórico alcançou sucesso considerável;; desde então passou a ser freqüentemente 
utilizado. 
A idéia de que certos deuses eram reis ou heróis divinizados pelos serviços que 
haviam prestado à humanidade abria caminho desde Heródoto. Mas foi Evêmero (c. 
330 c. 260) que popularizou essa interpretação pseudo-histórica da mitologia em seu 
livro A Inscrição Sagrada. A grande difusão do evemerismo deveu se, sobretudo, ao 
poeta Ennius (239-169), que verteu para o latim A Inscrição Sagrada, aos 
polemistas cristãos, que mais tarde se apoderaram dos argumentos de Evêmero. 
Com um método muito mais rigoroso, o erudito Políbio (c. 210-205 c. 125) e o 
geógrafo Estrabão (c. 60 c. 25 d.C.) esforçaram-se por esclarecer o fundo histórico 
que certos mitos gregos podiam encerrar. 
Entre os ecléticos romanos, Cícero (106-43) e Varrão (116-27) merecem menção 
especial pelo valor histórico-religioso de suas obras. Os quarenta livros das 
Antiguidades Romanas, de Varrão, acumulavam uma erudição imensa. No De 
Natura Deorum, Cícero dava uma descrição bastante fiel da situação dos ritos e 
crenças no último século da era pagã. 
A difusão dos cultos orientais e das religiões dos mistérios no Império Romano, e o 
sincretismo religioso que daí resultou, sobretudo na Alexandria, favoreceu o 
conhecimento das religiões exóticas e as investigações sobre as antiguidades 
religiosas dos diversos países. Nos dois primeiros séculos da era cristã, o evemerista 
Herennius Philon publicou sua História Fenícia, Pausânias a Descrição da Grécia 
inesgotável mina para o historiador das religiões \u2013 e (o pseudo-) Apolodoro sua 
Biblioteca consagrada à mitologia. O neopitagorismo e o neoplatonismo efetuaram, 
com base nessas obras, a revalorização da exegese espiritualista dos mitos e dos 
ritos. Um representante típico dessa exegese é Plutarco (45-50 c. 125), 
particularmente no seu tratado De Iside et Osiride. Segundo 
Plutarco, a diversidade das formas religiosas é apenas aparente; os simbolismos 
revelam a unidade fundamental das religiões. A tese estóica é expressa com um 
novo brilho por Séneca (2 66): as múltiplas divindades são os aspectos de um Deus 
único. Por outro lado, as descrições das religiões estrangeiras e dos cultos esotéricos 
multiplicam-se. César (101-44 a.C.) e Tácito (c. 55-120) forneceram informações 
preciosas sobre as religiões dos gauleses e dos germanos; Apuleio (século II d.C.) 
descreveu a iniciação dos mistérios de ísis; Luciano apresentou o culto sírio no seu 
De Dea Syria (c. 120 d. C.) 
Para os apologistas e os heresiarcas cristãos, a questão se colocava num outro plano, 
pois aos múltiplos deuses do paganismo eles opunham o deus único da religião 
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revelada. Era-lhes necessário, portanto, demonstrar, por um lado, a origem 
sobrenatural do cristianismo \u2013 e, por conseqüência, sua superioridade \u2013 e, por outro 
lado, tinham de explicar a origem dos deuses pagãos, sobretudo a idolatria do 
mundo pré-cristão. Também precisavam explicar as semelhanças entre as religiões 
dos mistérios e o cristianismo. Foram sustentadas várias teses: 1) os demônios, 
nascidos do comércio dos anjos caídos com as filhas dos homens\u2019; tinham arrastado 
os povos para a idolatria; 2) o plágio (os anjos maus, conhecendo as profecias, 
estabeleceram semelhanças entre as religiões pagãs e o judaísmo e o cristianismo, 
afim de perturbarem os crentes; os filósofos do paganismo haviam inspirado suas 
doutrinas em Moisés e nos profetas); 3) a razão humana pode elevar-se por si mesma 
ao conhecimento da verdade, portanto o mundo pagão podia ter um conhecimento 
natural de Deus. 
A reação pagã tomou múltiplas vias. Manifestou se pelo ataque violento, por volta 
de 178, do neopitagórico Celso contra a originalidade e o valor espiritual do 
cristianismo; pela Vida de Apolônio de Tiana, escrita pelo sofista Filostrato (c. 175-
149), na qual são comparadas as concepções religiosas dos indianos, dos gregos e 
dos egípcios e que propõe um ideal de religiosidade pagã e de tolerância; pelo 
neoplatônico Porfírio (c. 233 c. 305), discípulo e editor de Plotino, que ataca 
habilmente o cristianismo utilizando o método alegórico; por Jâmblico (c. 280 c. 
230), que milita por um ideal de sincretismo e tolerância. 
No contra-ataque cristão distinguem se, no grupo africano, Minucius Félix, 
Tertuliano, Lactâncio, Firminus Maternus e, no grupo alexandrino, os grandes 
eruditos Clemente de Alexandria e Orígenes. Eusébio de Cesaréia na sua Crônica, 
Santo Agostinho na Cidade de Deus e Paulo Orósio nas suas Histórias trouxeram as 
últimas refutações do paganismo. Concordavam com os autores pagãos ao 
sustentarem a tese da degenerescência crescente das religiões. Nos seus escritos, 
como aliás nos escritos de seus adversários e dos outros autores cristãos, conservou 
se um número considerável de informações histórico religiosas sobre os mitos, ritos 
e costumes de quase todos os povos do Império Romano, bem como sobre os 
gnósticos e as seitas heréticas cristãs. 
No Ocidente, o interesse pelas religiões estrangeiras foi suscitado durante a Idade 
Média pelo confronto com o Islã. Em 1411, Pedro, o Venerável, mandou que 
Roberto de Rétines traduzisse o Corão, e em 1250 fundaram-se escolas de ensino do 
árabe. Nessa data, o Islã já produzira obras importantes acerca das religiões pagãs. 
Az Biruní (973-1048) fizera uma descrição notável das religiões e das filosofias 
indianas; Chaharastani (m. 1153) escrevera um tratado sobre as escolas islâmicas; 
Ibn Hazn (994-1064) compilara um volumoso e erudito Livro das soluções decisivas 
relativas às religiões, seitas e escolas, no qual falava do dualismo masdeísta e 
maniqueu dos brâmanes, judeus, cristãos, ateístas