O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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da abóbada celeste é suficiente para desencadear uma 
experiência religiosa. O Céu revela se infinito, transcendente. É por excelência o 
ganz andere diante do qual o homem e seu meio ambiente pouco representam. A 
transcendência revela se pela simples tomada de consciência da altura infinita. O 
\u201cmuito alto\u201d torna-se espontaneamente um atributo da divindade. As regiões 
superiores inacessíveis ao homem, as zonas siderais, adquirem o prestígio do 
transcendente, da realidade absoluta, da eternidade. Lá é a morada dos deuses; é lá 
que chegam alguns privilegiados, mediante ritos de ascensão; para lá se elevam, 
segundo as concepções de certas religiões, as almas dos mortos. O \u201cmuito alto\u201d é 
uma dimensão inacessível ao homem como tal; pertence de direito às forças e aos 
Seres sobre humanos. Aquele que se eleva subindo a escadaria de um santuário, ou a 
escada ritual que conduz ao Céu, deixa então de ser homem: de uma maneira ou de 
outra, passa a fazer parte da condição divina. 
Não se trata de uma operação lógica, racional. A categoria transcendental da 
\u201caltura\u201d, do supra-terrestre, do infinito revela se ao homem como um todo, tanto à 
sua inteligência como à sua alma. É uma tomada de consciência total: em face do 
Céu, o homem descobre ao mesmo tempo a incomensurabilidade divina e sua 
própria situação no Cosmos. O Céu revela, por seu próprio modo de ser, a 
transcendência, a força, a eternidade. Ele existe de uma maneira absoluta, pois é 
elevado, infinito, eterno, poderoso. 
É nesse sentido que se deve compreender o que dizíamos mais atrás, que os deuses 
manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo: 
o Cosmos \u2013 a obra exemplar dos deuses \u2013 é \u201cconstruído\u201d de tal maneira, que o 
sentimento religioso da transcendência divina é incitado pela própria existência do 
Céu. E, visto que o Céu existe de maneira absoluta, um grande número de deuses 
supremos das populações primitivas são chamados por nomes que designam a altura, 
a abóbada celeste, os fenômenos meteorológicos; ou são chamados muito 
simplesmente de \u201cProprietários do Céu\u201d, ou \u201cHabitantes do Céu\u201d. 
A divindade suprema dos maori chama se lho; ibo tem o sentido de \u201celevado, 
acima\u201d. Uwoluwu, o Deus supremo dos negros akposo, significa \u201co que está no alto, 
as regiões superiores\u201d. Entre os selk\u2019nam da Terra do Fogo, Deus se chama 
\u201cHabitante do Céu\u201d ou \u201cAquele que está no Céu\u201d. Puluga, o Ser supremo dos 
andamanais, habita o Céu; sua voz é o trovão, o vento seu hálito; o furacão é o sinal 
de sua cólera, pois ele pune com o raio aqueles que infringem suas ordens. O Deus 
do Céu dos iorubas da costa dos Escravos chama se Olorum, literalmente 
\u201cProprietário do Céu\u201d. Os samoiedos adoram Num, Deus que habita o mais alto do 
Céu e cujo nome significa \u201cCéu\u201d. Entre os koryaks, a divindade suprema chama se o 
Mircea Eliade 
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\u201cUm do alto\u201d, \u201co Senhor do Alto\u201d, \u201cAquele que existe\u201d. Os ainos conhecem no 
como \u201co Chefe divino do Céu\u201d, \u201co Deus celeste\u201d, \u201co Criador divino dos mundos\u201d, 
mas também como Kamui, que quer dizer \u201cCéu\u201d. E pode alongar-se facilmente a 
lista. 
O mesmo ocorre entre as religiões de povos mais civilizados, quer dizer, dos povos 
que desempenharam um papel importante na História. O nome mongol do Deus 
supremo é Tengri, que significa \u201cCéu\u201d. O T\u2019ien chinês denota ao mesmo tempo o 
\u201cCéu\u201d e \u201cDeus do Céu\u201d. O termo sumério para divindade, dingir, tinha como 
significado primitivo uma epifania celeste: \u201cclaro, brilhante\u201d. O Anu babilônio 
exprime igualmente a noção de \u201cCéu\u201d. O Deus supremo indo europeu, Diêus, denota 
ao mesmo tempo a epifania celeste e o sagrado (cf. \u201cbrilhar\u201d, \u201cdia\u201d; dyaus, \u201ccéu\u201d, 
\u201cdia\u201d \u2013 Dyaus, deus indiano do Céu). Zeus, Júpiter guardam ainda nos nomes a 
recordação da sacralidade celeste. O celta Taranis (de taran, \u201ctrovejar\u201d), o báltico 
Perkunas (\u201crelâmpago\u201d) e o protoeslavo Perun (cf. o piorum polonês: \u201crelâmpago\u201d) 
mostram sobretudo as transformações ulteriores dos deuses do Céu em deuses da 
Tempestade. 
Não se trata de \u201cnaturismo\u201d. O Deus celeste não é identificado com o Céu, pois foi o 
próprio Deus que, criador de todo o Cosmos, criou também o Céu. É por esta razão 
que é chamado \u201cCriador\u201d, \u201cTodo Poderoso\u201d, \u201cSenhor\u201d, \u201cChefe\u201d, \u201cPai\u201d etc. O Deus 
celeste é urna pessoa e não uma epifania uraniana. Mas ele habita o Céu e manifesta 
se por meio dos fenômenos meteoroló gicos: trovão, raio, tempestade, meteoros etc. 
Em outras palavras, algumas estruturas privilegiadas do Cosmos \u2013 o Céu, a 
atmosfera \u2013 constituem as epifanias favoritas do Ser supremo: ele revela sua 
presença por meio daquilo que lhe é específico: a majestas da imensidade celeste, o 
tremendum da tempestade. 
 
O Deus longínquo 
 
A história dos Seres supremos de estrutura celeste é de grande importância para a 
compreensão da história religiosa da humanidade como um todo. Não será possível 
escrevê-la aqui, nestas poucas páginas, mas não podemos deixar de mencionar um 
fato que nos parece capital: os Seres supremos de estrutura celeste têm tendência a 
desaparecer do culto; \u201cafastam se\u201d dos homens, retiram-se para o Céu e tornam-se 
dei otiosi. Numa palavra, pode se dizer que esses deuses, depois de terem criado o 
Cosmos, a vida e o homem, sentem uma espécie de \u201cfadiga\u201d, como se o enorme 
empreendimento da Criação lhes tivesse esgotado os recursos. Retiram se, pois, para 
o Céu, deixando na Terra um filho ou um demiurgo, para acabar ou aperfeiçoar a 
Criação. Aos poucos, o lugar deles é tomado por outras figuras divinas: os 
Antepassados míticos, as Deusas Mães, os Deuses fecundadores etc. O deus da 
Tempestade conserva ainda uma estrutura celeste, mas já não é um Ser supremo 
criador: é apenas um Fecundador da Terra, e às vezes não passa de um auxiliar de 
O Sagrado e o Profano 
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sua parenta, a Terra Mãe. O Ser supremo de estrutura celeste só conserva seu lugar 
preponderante entre os povos pastores, e ganha uma situação única nas religiões de 
tendência monoteísta (Ahura Mazda) ou monoteístas (Jeová, Alá). 
O fenômeno do \u201cafastamento\u201d do Deus supremo revela se desde os níveis arcaicos 
de cultura. Entre os australianos kulin, o Ser supremo Bundjil criou o Universo, os 
animais, as árvores e o próprio homem; mas, depois de ter investido seu filho com o 
poder sobre a Terra, e sua filha com o poder sobre o Céu, Bundjil retirou se do 
mundo. Habita sobre as nuvens, como um \u201csenhor\u201d, tendo um grande sabre na mão. 
Puluga, o Ser supremo dos andamanais, retirou se depois de ter criado o mundo e o 
primeiro homem. Ao mistério do \u201cafastamento\u201d corresponde a ausência quase 
completa de culto: nenhum sacrifício, nenhuma solicitação, nenhuma ação de 
graças. Apenas alguns costumes religiosos em que ainda sobrevive a recordação de 
Puluga: por exemplo, o \u201csilêncio sagrado\u201d dos caçadores que regressam à aldeia 
depois de uma caçada feliz. 
O \u201cHabitante do Céu\u201d ou \u201cAquele que está no Céu\u201d dos selk\u2019nam é eterno, 
onisciente, onipotente, criador, mas a Criação foi concluída pelos antepassados 
míticos, criados pelo Deus supremo antes de se retirar para cima das estrelas. 
Atualmente, esse Deus isolou se dos homens, indiferente às coisas do mundo. Não 
tem imagens, nem sacerdotes. Somente em caso de doença lhe dirigem preces: \u201cTu, 
do alto, não leves meu filho; é ainda muito pequeno!\u201d, Só lhe fazem oferendas 
durante as intempéries. 
O mesmo acontece entre a maioria das populações africanas: o grande Deus celeste, 
o Ser supremo, criador e onipotente, desempenha um papel insignificante na vida 
religiosa da tribo. Encontra-se muito longe, ou é bom demais para ter necessidade de 
um culto propriamente dito, e invocam no apenas em casos extremos. Assim, por 
exemplo, o Olorum (\u201cProprietário do Céu\u201d) dos iorubas, depois de ter iniciado a 
criação do mundo,