O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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é a 
suprema criação dos deuses. 
A orgia ritual em favor das colheitas também tem um modelo divino: a hierogamia 
do deus fecundador com a Terra Mãe. A fertilidade agrária é estimulada por um 
frenesi genésico ilimitado. De certo ponto de vista, a orgia corresponde à 
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indiferenciação de antes da Criação. É por isso que certos cerimoniais do Ano Novo 
comportam rituais orgiásticos: a \u201cconfusão\u201d social, a libertinagem e as saturnais 
simbolizam a regressão ao estado amorfo anterior à Criação do Mundo. Quando se 
trata de uma \u201ccriação\u201d ao nível da vida vegetal, a encenação cosmológico ritual se 
repete, pois a nova colheita equivale a uma nova \u201cCriação\u201d. A idéia de renovação \u2013 
presente nos rituais do Ano Novo, em que se tratava ao mesmo tempo de renovação 
do Tempo e da regeneração do Mundo \u2013 é encontrada novamente nas encenações 
orgiásticas agrárias. Aqui também a orgia é uma regressão à Noite cósmica, ao pré-
formal, às \u201cÁguas\u201d, a fim de assegurar a regeneração total da Vida e, por 
conseqüência, a fertilidade da Terra e a opulência das colheitas. 
 
Simbolismo da arvore cósmica e cultos da vegetação 
 
Como acabamos de ver, os mitos e os ritos da Terra-Mãe exprimem sobretudo as 
idéias de fecundidade e riqueza. Trata-se de idéias religiosas, pois os múltiplos 
aspectos da fertilidade universal revelam, em suma, o mistério da geração, da 
criação da Vida. Ora, a aparição da Vida é, para o homem religioso, o mistério 
central do Mundo. A Vida \u201cvem\u201d de qualquer parte que não é este mundo e, 
finalmente, retira-se daqui de baixo e \u201cvai se\u201d para o além, prolongando se de 
maneira misteriosa num lugar desconhecido, inacessível à maior parte dos vivos. 
A vida humana não é sentida como uma breve aparição no Tempo, entre dois Nadas; 
é precedida de uma preexistência e prolonga se numa pós-existência. Muito pouco 
se conhece acerca desses dois estágios extraterrestres da Vida humana, mas sabe se 
pelo menos que eles existem. Para o homem religioso, portanto, a morte não põe um 
termo definitivo à vida: a morte não é mais do que uma outra modalidade da 
existência humana. 
Tudo isto, aliás, está \u201ccifrado\u201d nos ritmos cósmicos: basta que se decifre o que o 
Cosmos \u201cdiz\u201d por seus múltiplos modos de ser para se compreender o mistério da 
Vida. Ora, uma coisa parece evidente: o Cosmos é um organismo vivo, que se 
renova periodicamente. O mistério da inesgotável aparição da Vida corresponde à 
renovação rítmica do Cosmos. É por essa razão que o Cosmos foi imaginado sob a 
forma de uma árvore gigante: o modo de ser do Cosmos, e sobretudo sua capacidade 
infinita de se regenerar, é expresso simbolicamente pela vida da árvore. 
É preciso notar, porém, que não se trata de uma simples transposição de imagens da 
escala microcósmica para a escala macroscósmica. Como \u201cobjeto natural\u201d, a árvore 
não podia sugerir a totalidade da Vida cósmica: ao nível da experiência profana, seu 
modo de ser não abrange o modo de ser do Cosmos em toda a sua complexidade. Ao 
nível da experiência profana, a vida vegetal revela apenas uma seqüência de 
\u201cnascimentos\u201d e \u201cmortes\u201d. É a visão religiosa da Vida que permite \u201cdecifrar\u201d outros 
significados no ritmo da vegetação, principalmente as idéias de regeneração, de 
eterna juventude, de saúde, de imortalidade. A idéia religiosa da realidade absoluta é 
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simbolicamente expressa, entre tantas outras imagens, pela figura de um \u201cfruto 
miraculoso\u201d que confere, ao mesmo tempo, imortalidade, onisciência e onipotência 
e que é capaz de transformar os homens em deuses. 
A imagem da árvore não foi escolhida unicamente para simbolizar o Cosmos, mas 
também para exprimir a Vida, a juventude, a imortalidade, a sapiência. Além das 
árvores cósmicas, como Yggdrasff, da mitologia germânica, a história das religiões 
conhece Árvores da Vida (Mesopotâmia), da Imortalidade (Ásia, Antigo 
Testamento), da Sabedoria (Antigo Testamento), da juventude (Mesopotâmia, Índia, 
Irã) etc.29 Em outras palavras, a árvore conseguiu exprimir tudo o que o homem 
religioso considera real e sagrado por excelência, tudo o que ele sabe que os deuses 
possuem por sua própria natureza e que só raramente é acessível aos indivíduos 
privilegiados, os heróis e semi-deuses. É por isso que os mitos da busca da 
imortalidade ou da juventude ostentam uma árvore de frutos de ouro ou de folhagem 
miraculosa, que se encontra \u201cnum país longínquo\u201d (na realidade, no outro mundo) e 
que é guardada por monstros (grifos, dragões, serpentes). Aquele que deseja colher 
os frutos deve lutar com o monstro guardião e matá-lo, ou seja, submeter se a uma 
prova iniciática de tipo beróico: o vencedor obtém \u201cpela violência\u201d a condição sobre 
humana, quase divina, da eterna juventude, da invencibilidade e da onipotência. 
É nesses símbolos de uma Árvore cósmica, ou da imortalidade ou da Ciência, que se 
exprimem com o máximo de força e clareza as valências religiosas da vegetação. 
Em outras palavras, a árvore sagrada ou as plantas sagradas revelam uma estrutura 
que não é evidente nas diversas espécies vegetais concretas. Conforme já 
salientamos, é a sacralidade que desvenda as estruturas mais profundas do Mundo. O 
Cosmos só se apresenta como uma \u201ccifra\u201d segundo uma perspectiva religiosa. É 
para o homem religioso que os ritmos da vegetação revelam o mistério da Vida e da 
Criação, e também da renovação, da juventude e da imortalidade. Poder-se-ia dizer 
que todas as árvores e plantas consideradas sagradas (por exemplo, o arbusto 
asbvatba, na Índia) devem sua condição privilegiada ao fato de encarnarem o 
arquétipo, a imagem exemplar da vegetação. Por outro lado, é o valor religioso que 
faz que uma planta seja cuidada e cultivada. Segundo alguns autores, todas as 
plantas cultivadas atualmente foram consideradas na origem plantas sagradas. 
Aquilo que se chama de cultos de vegetação não depende de uma experiência 
profana, \u201cnaturista\u201d, em relação, por exemplo, com a primavera e a renovação da 
vegetação. É, pelo contrário, a experiência religiosa da renovação (recomeço, 
recriação) do Mundo que precede e justifica a valorização da primavera como 
ressurreição da Natureza. É o Mistério da .regeneração periódica do Cosmos que 
fundou a importância religiosa da primavera. Aliás, nos cultos da vegetação, nem 
sempre é o fenômeno natural da primavera e da aparição da vegetação que importa, 
mas o sinal prenunciador do mistério cósmico. Grupos de jovens visitam 
cerimonialmente as casas da aldeia e mostram um ramo verde, um ramalhete de 
flores, uma ave. É o sinal da ressurreição iminente da vida vegetal, o testemunho de 
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que o mistério se realizou, que a primavera não tardará a vir. A maior parte desses 
rituais tem lugar antes do \u201cfenômeno natural\u201d da primavera. 
 
Dessacralização da natureza 
 
já dissemos que, para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente 
\u201cnatural\u201d. A experiência de uma Natureza radicalmente dessacralizada é uma 
descoberta recente, acessível apenas a uma minoria das sociedades modernas, 
sobretudo aos homens de ciência. Para o resto das pessoas, a Natureza apresenta 
ainda um \u201cencanto\u201d, um \u201c mistério\u201d, uma \u201cmajestade\u201d, onde se podem decifrar os 
traços dos antigos valores religiosos. Não há homem moderno, seja qual for o grau 
de sua irreligiosidade, que não seja sensível aos \u201cencantos\u201d da Natureza. Não se 
trata unicamente dos valores estéticos, desportivos ou higiênicos concedidos à 
Natureza, mas também de um sentimento confuso e difícil de definir, no qual ainda 
se reconhece a recordação de uma experiência religiosa degradada. 
Será interessante mostrar, com a ajuda de um exemplo preciso, as modificações e a