O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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e mitologias degradadas. 
Isso, porém, não nos surpreende, pois, como vimos, o homem profano descende do 
homo religiosus e não pode anular sua própria história, quer dizer, os 
comportamentos de seus antepassados religiosos, que o constituíram tal como ele é 
hoje. 
Mircea Eliade 
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Além do mais, grande parte de sua existência é alimentada por pulsões que lhe 
chegam do mais profundo de seu ser, da zona que se chamou de inconsciente. Um 
homem exclusivamente racional é uma abstração; jamais o encontramos na 
realidade. Todo ser humano é constituído, ao mesmo tempo, por uma atividade 
consciente e por experiências irracionais. Ora, os conteúdos e as estruturas do 
inconsciente apresentam semelhanças surpreendentes com as imagens e figuras 
mitológicas. Não queremos dizer que as mitologias sejam \u201cproduto\u201d do 
inconsciente, pois o modo de ser do mito é justamente que ele se revela como mito, 
ou seja, proclama que algo se manifestou de maneira exemplar. Um mito é 
\u201cproduzido\u201d pelo inconsciente da mesma maneira que se pode dizer que Madame 
Bovary é \u201cproduto\u201d de um adultério. 
Todavia, os conteúdos e estruturas do inconsciente são o resultado das situações 
existenciais imemoriais, sobretudo das situações críticas, e é por essa razão que o 
inconsciente apresenta uma aura religiosa. Toda crise existencial põe de novo em 
questão, ao mesmo tempo, a realidade do Mundo e a presença do homem no Mundo: 
em suma, a crise existencial é \u201creligiosa\u201d, visto que, aos níveis arcaicos de cultura, o 
ser confunde se com o sagrado. Conforme vimos, é a experiência do sagrado que 
funda o mundo, e mesmo a religião mais elementar é, antes de tudo, uma ontologia. 
Em outras palavras, na medida em que o inconsciente é o resultado de inúmeras 
experiências existenciais, não pode deixar de assemelhar-se aos diversos universos 
religiosos. Pois a religião é a solução exemplar de toda crise existencial, não apenas 
porque é indefinidamente repetível, mas também porque é considerada de origem 
transcendental e, portanto, valorizada como revelação recebida de um outro mundo, 
trans humano. A solução religiosa não somente resolve a crise, mas, ao mesmo 
tempo, torna a existência \u201caberta\u201d a valores que já não são contingentes nem 
particulares, permitindo assim ao homem ultrapassar as situações pessoais e, no fim 
das contas, alcançar o mundo do espírito. 
Não nos cabe desenvolver aqui todas as conseqüências da relação entre o conteúdo e 
as estruturas do inconsciente, por um lado, e os valores da religião, por outro. O 
objetivo dessa alusão foi mostrar em que sentido mesmo o homem mais francamente 
a religioso partilha ainda, no mais profundo de seu ser, de um comportamento 
religiosamente orientado. Mas as \u2019`mitologias\u201d privadas do homem moderno \u2013 seus 
sonhos, devaneios, fantasias etc. \u2013 não conseguem alçar-se ao regime ontológico dos 
mitos, justamente porque não são vividas pelo homem total e não transformam uma 
situação particular em situação exemplar. Do mesmo modo que as angústias do 
homem moderno, suas experiências oníricas ou imaginárias, ainda que \u201creligiosas\u201d 
(to ponto de vista forma l, não se integram, como entre o homo religiosus, numa 
concepção do mundo e não fundam um comportamento. Um exemplo nos permitirá 
perceber melhor as diferenças entre as duas categorias de experiência. A atividade 
inconsciente do homem moderno não cessa de lhe apresentar inúmeros símbolos, e 
cada um tem uma certa mensagem a transmitir, uma certa missão a desempenhar, 
tendo em vista assegurar o equilíbrio da psique ou restabelecê-lo. Conforme vimos, 
o símbolo não somente torna o Mundo \u201caberto\u201d, mas também ajuda o homem 
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religioso a alcançar o universal. Pois é graças aos símbolos que o homem sai de sua 
situação particular e se \u201cabre\u201d para o geral e o universal. Os símbolos despertam a 
experiência individual e transmudam na em ato espiritual, em compreensão 
metafísica do Mundo. Diante de uma árvore qualquer, símbolo da Árvore do Mundo 
e imagem da Vida cósmica, um homem das sociedades pré-modernas é capaz de 
alcançar a mais alta espiritualidade: ao compreender o símbolo, ele consegue viver o 
universal. É a visão religiosa do Mundo e a ideologia que o exprime que lhe 
permitem fazer frutificar essa experiência individual, \u201cabri-la\u201d para o universal. A 
imagem da Árvore é ainda muito freqüente nos universos imaginários do homem 
moderno a religioso: constitui um marco de sua vida profunda, do drama que se 
desenrola no inconsciente e que diz respeito à integridade de sua vida psíquico 
mental e, portanto, à sua própria existência. Mas enquanto o símbolo da Árvore não 
desperta a consciência total do homem, tornando a \u201caberta\u201d ao universal, não se 
pode dizer que o símbolo desempenhou completamente sua função. Ele só em parte 
\u201csalvou\u201d o homem de sua situação individual \u2013 ao permitir-lhe, por exemplo, 
integrar unia crise de profundidade e ao devolver-lhe o equilíbrio psíquico 
provisoriamente ameaçado \u2013, mas não o elevou ainda à espiritualidade, ou seja, não 
conseguiu revelar-lhe uma das estruturas do real. 
Este exemplo basta, parece nos, para mostrar em que sentido o homem a religioso 
das sociedades modernas é ainda alimentado e ajudado pela atividade de seu 
inconsciente, sem que por isso alcance uma experiência e uma visão do mundo 
propriamente religiosa. O inconsciente oferece-lhe soluções para as dificuldades de 
sua própria existência e, neste sentido, desempenha o papel da religião, pois, antes 
de tornar uma existência criadora de valores, a religião assegura-lhe a integridade. 
De certo ponto de vista, quase se poderia dizer que, entre os modernos que se 
proclamam a religiosos, a religião e a mitologia estão \u201cocultas\u201d nas trevas de seu 
inconsciente \u2013 o que significa também que as possibilidades de reintegrar uma 
experiência religiosa da vida jazem, nesses seres, muito profundamente neles 
próprios. De uma perspectiva cristã, poder-se-ia dizer igualmente que a não religião 
equivale a uma nova \u201cqueda\u201d do homem: o homem a religioso teria perdido a 
capacidade de viver conscientemente a religião e, portanto, de compreendê-la e 
assumi-la; mas, no mais profundo de seu ser, ele guarda ainda a recordação dela, da 
mesma maneira que, depois da primeira \u201cqueda\u201d, e embora espiritualmente cego, 
seu antepassado, o Homem primordial, conservou inteligência suficiente para lhe 
permitir reencontrar os traços de Deus visíveis no Mundo. Depois da primeira 
\u201cqueda\u201d, a religiosidade caiu ao nível da consciência dilacerada; depois da segunda, 
caiu ainda mais profundamente, no mais fundo do inconsciente: foi \u201cesquecida\u201d. 
Param aqui as considerações do historiador das religiões. É aqui também que 
principia a problemática própria ao filósofo, ao psicólogo e até mesmo ao teólogo. 
Mircea Eliade 
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