O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
109 pág.

O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


DisciplinaHistoria da Filosofia III63 materiais213 seguidores
Pré-visualização41 páginas
perto dos objetos consagrados. Essa tendência é compreensível, 
pois para os \u201cprimitivos\u201d, como para o homem de todas as sociedades pré-modernas, 
O Sagrado e o Profano 
_________________________________________________ 
 
\u2013 14 \u2013 
o sagrado equivale ao poder e, em última análise, à realidade por excelência. O 
sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, 
perenidade e eficácia. A oposição sagrado/profano traduz se muitas vezes como uma 
oposição entre real e irreal ou pseudo real. (Não se deve esperar encontrar nas 
línguas arcaicas essa terminologia dos filósofos \u2013 real-irreal etc. \u2013, mas encontra-se 
a coisa.) É, portanto, fácil de compreender que o homem religioso deseje 
profundamente ser, participar da realidade, saturar-se de poder. 
É deste assunto, sobretudo, que nos ocuparemos nas páginas a seguir: de que 
maneira o home m religioso se esforça por manter se o máximo de tempo possível 
num universo sagrado e, conseqüentemente, como se apresenta sua experiência total 
da vida em relação à experiência do homem privado de sentimento religioso, do 
homem que vive, ou deseja viver, num mundo dessacralizado. É preciso dizer, desde 
já, que o mundo profano na sua totalidade, o Cosmos totalmente dessacralizado, é 
uma descoberta recente na história do espírito humano. Não é nossa tarefa mostrar 
mediante quais processos históricos, e em conseqüência de que modificações do 
comportamento espiritual, o homem moderno dessacralizou seu mundo e assumiu 
uma existência profana. Para o nosso propósito basta constatar que a dessacralização 
caracteriza a experiência total do homem não religioso das sociedades modernas, o 
qual, por essa razão, sente uma dificuldade cada vez maior em reencontrar as 
dimensões existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas. 
 
Dois modos de ser no mundo 
 
Pode se medir o precipício que separa as duas modalidades de experiência \u2013 sagrada 
e profana \u2013 lendo se as descrições concernentes ao espaço sagrado e à construção 
ritual da morada humana, ou às diversas experiências religiosas do Tempo, ou às 
relações do homem religioso com a Natureza e o mundo dos utensílios, ou à 
consagração da própria vida humana, à sacralidade de que podem ser carregadas 
suas funções vitais (alimentação, sexualidade, trabalho etc.). Bastará lembrar no que 
se tornaram, para o homem moderno e a religioso, a cidade ou a casa, a Natureza, os 
utensílios ou o trabalho, para perceber claramente tudo o que o distingue de uni 
homem pertencente às sociedades arcaicas ou mesmo de uni camponês da Europa 
cristã. Para a consciência moderna, um ato fisiológico \u2013 a alimentação, a 
sexualidade etc. \u2013 não é, em suma, mais do que uni fenômeno orgânico, qualquer 
que seja o número de tabus que ainda o envolva (que impõe, por exemplo, certas 
regras para \u201ccomer convenientemente\u201d ou que interdiz um comportamento sexual 
que a moral social reprova). Mas para o \u201cprimitivo\u201d um tal ato nunca é 
simplesmente fisiológico; é, ou pode tornar-se, uni \u201csacramento\u201d, quer dizer, uma 
comunhão com o sagrado. 
O leitor não tardará a dar-se conta de que o sagrado e o profano constituem duas 
modalidades de ser no Mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem 
Mircea Eliade 
_________________________________________________ 
 \u2013 15 \u2013 
ao longo da sua história. Esses modos de ser no Mundo não interessam unicamente à 
história das religiões ou à sociologia, não constituem apenas o objeto de estudos 
históricos, sociológicos, etnológicos. Em última instância, os modos de ser sagrado e 
profano dependem das diferentes posições que o homem conquistou no Cosmos e, 
conseqüentemente, interessam não só ao filósofo mas também a todo investigador 
desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana. 
Por essa razão, o autor deste pequeno livro, embora um historiador das religiões, 
propõe se não escrever unicamente da perspectiva da ciência que cultiva. O homem 
das sociedades tradicionais é, por assim dizer, um homo religiosus, mas seu 
comportamento enquadra-se no comportamento geral do homem e, por conseguinte, 
interessa à antropologia filosófica, à fenomenologia, à psicologia. 
A fim de sublinhar melhor as notas específicas da existência num mundo suscetível 
de tornar-se sagrado, não hesitaremos em citar exemplos escolhidos entre um grande 
número de religiões, pertencentes a idades e culturas diferentes. Nada pode 
substituir o exemplo, o fato concreto. Seria vão discorrer acerca da estrutura do 
espaço sagrado sem mostrar, com exemplos precisos, como se constrói um tal 
espaço e por que é que tal espaço se torna qualitativamente diferente do espaço 
profano que o cerca. Tomaremos esses exemplos entre mesopotâmicos, indianos, 
chineses, kwakiutls e outras populações primitivas. Da perspectiva histórico cultural, 
uma tal justaposição de fatos religiosos, pertencentes a povos tão distantes no tempo 
e no espaço, não deixa de ser um tanto perigosa, pois há sempre o risco de se recair 
nos erros do século XIX e, principalmente, de se acreditar, como Tvlor ou Frazer, 
numa reação uniforme do espírito humano diante dos fenômenos naturais. Ora, os 
progressos da etnologia cultural e da história das religiões mostraram que nem 
sempre isso ocorre, que as \u201creações do homem diante da Natureza\u201d são 
condicionadas muitas vezes pela cultura \u2013 portanto, em última instância, pela 
história. 
Mas, para o nosso propósito, é mais importante salientar as notas específicas cia 
experiência religiosa do que mostrar suas múltiplas variações e as diferenças 
ocasionadas pela história. É um pouco como se, a fim de captarmos melhor o 
fenômeno poético, apelássemos para uma massa de exemplos heterogêneos, citando, 
ao lado de Homero, Virgílio ou Dante, poemas hindus, chineses ou mexicanos \u2013 ou 
seja, tomando em conta não só poéticas historicamente solidárias (Homero, Virgílio, 
Dante) mas também algumas criações baseadas em outras estéticas. Do ponto de 
vista da história da literatura, tais justaposições são duvidosas \u2013 mas são válidas se 
temos em vista a descrição do fenômeno poético como tal, se nos propomos mostrar 
a diferença essencial entre a linguagem poética e a linguagem utilitária cotidiana. 
 
O sagrado e a história 
 
O que nos interessa, acima de tudo, é apresentar as dimensões específicas da 
O Sagrado e o Profano 
_________________________________________________ 
 
\u2013 16 \u2013 
experiência religiosa, salientar suas diferenças com a experiência profana do Mundo. 
Não insistiremos sobre os inumeráveis condicionamentos que a experiência religiosa 
no Mundo sofreu no curso do tempo. É evidente, por exemplo, que os simbolismos e 
os cultos da Terra Mãe, da fecundidade humana e agrária, da sacralidade da mulher 
etc. não puderam desenvolver se e constituir um sistema religioso amplamente 
articulado senão pela descoberta da agricultura. É igualmente evidente que uma 
sociedade pré-agrícola, especializada na caça, não podia sentir da mesma maneira, 
nem com a mesma intensidade, a sacralidade da Terra Mãe. Há, portanto, uma 
diferença de experiência religiosa que se explica pelas diferenças de economia, 
cultura e organização social \u2013 numa palavra, pela história. Contudo, entre os 
caçadores nômades e os agricultores sedentários, há uma similitude de 
comportamento que nos parece infinitamente mais importante do que suas 
diferenças: tanto uns como outros vivem num Cosmos sacralizado; uns como outros 
participam de uma sacralidade cósmica, que se manifesta tanto no mundo animal 
como no mundo vegetal. Basta comparar suas situações existenciais às de um 
homem das sociedades modernas, vivendo num Cosmos dessacralizado, para 
imediatamente nos darmos conta de tudo o que separa este último dos outros. Do 
mesmo modo, damo-nos conta da validade das comparações 
entre fatos religiosos pertencentes a diferentes culturas: