O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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todos esses fatos partem de 
um mesmo comportamento, que é o do homo religiosus. 
Este livro pode, pois, servir como uma introdução geral à história das religiões, visto 
que descreve as modalidades do sagrado e a situação do homem num mundo 
carregado de valores religiosos. Mas não constitui uma obra da história das religiões 
no sentido estrito do termo, pois o autor não se deu à tarefa de indicar, a propósito 
dos exemp los que cita, os respectivos contextos histórico culturais. Para fazê-lo, 
seriam necessários vários volumes. O leitor encontrará todas as informações 
adicionais na bibliografia. 
 
 
Saint Cloud, abril de 1956 
Mircea Eliade 
Mircea Eliade 
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 \u2013 17 \u2013 
 
 
CAPÍTULO I 
 
O ESPAÇO SAGRADO E A SACRALIZAÇAO DO MUNDO 
 
 
Homogeneidade espacial e hierofania 
 
Para o homem religioso, o espaço não ê homogêneo: o espaço apresenta roturas, 
quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. \u201cNão te 
aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés; tira as sandálias de teus pés, porque o 
lugar onde te encontras é uma terra santa.\u201d (Êxodo, 3: 5) Há, portanto, um espaço 
sagrado, e por conseqüência \u201cforte\u201d, significativo, e há outros espaços não sagrados, 
e por conseqüência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos. Mais ainda: 
para o homem religioso essa não-homogeneidade espacial traduz-se pela experiência 
de uma oposição entre o espaço sagrado \u2013 o único que é real, que existe realmente \u2013 
e todo o resto, a extensão informe, que o cerca. 
É preciso dizer, desde já, que a experiência religiosa da não homogeneidade do 
espaço constitui uma experiência primordial, que corresponde a uma \u201cfundação do 
mundo\u201d. Não se trata de uma especulação teórica, mas de uma experiência religiosa 
primária, que precede toda a reflexão sobre o mundo. É a rotura operada no espaço 
que permite a constituição do mundo, porque é ela que descobre o \u201cponto fixo\u201d, o 
eixo central de toda a orientação futura. Quando o sagrado se manifesta por uma 
hierofania qualquer, não só há rotura na homogeneidade do espaço, como também 
revelação de uma realidade absoluta, que se opõe à não realidade da imensa 
extensão envolvente. A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo. 
Na extensão homogênea e infinita onde não é possível nenhum ponto de referência, 
e onde, portanto, nenhuma orientação pode efetuar-se, a hierofania revela um \u201cponto 
fixo\u201d absoluto, um \u201cCentro\u201d. 
Vemos, portanto, em que medida a descoberta \u2013 ou seja, a revelação \u2013 do espaço 
sagrado tem um valor existencial para o homem religioso; porque nada pode 
começar, nada se pode fazer sem uma orientação prévia \u2013 e toda orientação implica 
a aquisição de um ponto fixo. É por essa razão que o homem religioso sempre se 
esforçou por estabelecer se no \u201cCentro do Mundo\u201d. Para viver no Mundo é preciso 
fundá-lo \u2013 e nenhum mundo pode nascer no \u201ccaos\u201d da homogeneidade e da 
relatividade do espaço profano. A descoberta ou a projeção de um ponto fixo \u2013 o 
\u201cCentro\u201d \u2013 equivale à Criação do Mundo, e não tardaremos a citar exemplos que 
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mostrarão, de maneira absolutamente clara, o valor cosmogônico da orientação ritual 
e da construção do espaço sagrado. 
Em contrapartida, para a experiência profana, o espaço é homogêneo e neutro: 
nenhuma rotura diferencia qualitativamente as diversas partes de sua massa. O 
espaço geométrico pode ser cortado e delimitado seja em que direção for, mas sem 
nenhuma diferenciação qualitativa e portanto sem nenhuma orientação \u2013 de sua 
própria estrutura. Basta que nos lembremos da definição do espaço dada por um 
clássico da geometria. Evidentemente, é preciso não confundir o conceito do espaço 
geométrico homogêneo e neutro com a experiência do espaço \u201cprofano\u201d que se opõe 
à experiência do espaço sagrado, e que é a única que interessa ao nosso objetivo. O 
conceito do espaço homogêneo e a história desse conceito (pois foi adotado pelo 
pensamento filosófico e científico desde a Antiguidade) constituem um problema 
completamente diferente, que não abordaremos aqui. O que interessa à nossa 
investigação é a experiência do espaço tal como é vivida pelo homem não religioso, 
quer dizer, por um homem que recusa a sacralidade do mundo, que assume 
unicamente uma existência \u201cprofana\u201d, purificada de toda pressuposição religiosa. 
É preciso acrescentar que uma tal existência profana jamais se encontra no estado 
puro. Seja qual for o grau de dessacralização do inundo a que tenha chegado, o 
homem que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o 
comportamento religioso. Isto ficará mais claro no decurso de nossa exposição: 
veremos que até a existência mais dessacralizada conserva ainda traços de uma 
valorização religiosa do mundo. 
Mas, por ora, deixemos de lado este aspecto do problema e limitemo-nos a comparar 
as duas experiências em questão: a do espaço sagrado e a do espaço profano. 
Lembremo-nos das implicações da primeira: a revelação de um espaço sagrado 
permite que se obtenha um \u201cponto fixo\u201d, possibilitando, portanto, a orientação na 
homogeneidade caótica, a \u201cfundação do mundo\u201d, o viver real. A experiência 
profana, ao contrário, mantém a homogeneidade e portanto a relatividade do espaço. 
Já não é possível nenhuma verdadeira orientação, porque o \u201cponto fixo\u201d já não goza 
de um estatuto ontológico único; aparece e desaparece segundo as necessidades 
diárias. A bem dizer, já não há \u201cMundo\u201d, há apenas fragmentos de um universo 
fragmentado, massa amorfa de uma infinidade de \u201clugares\u201d mais ou menos neutros 
onde o homem se move, forçado pelas obrigações de toda existência integrada numa 
sociedade industrial. 
E, contudo, nessa experiência do espaço profano ainda intervêm valores que, de 
algum modo, lembram a não homogeneidade específica da experiência religiosa do 
espaço. Existem, por exemplo, locais privilegiados, qualitativamente diferentes dos 
outros: a paisagem natal ou os sítios dos primeiros amores, ou certos lugares na 
primeira cidade estrangeira visitada na juventude. Todos esses locais guardam, 
mesmo para o homem mais francamente não religioso, uma qualidade excepcional, 
\u201cúnica\u201d: são os \u201clugares sagrados\u201d do seu universo privado, como se neles um ser 
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não religioso tivesse tido a revelação de uma outra realidade, diferente daquela de 
que participa em sua existência cotidiana. 
Conservemos esse exemplo de comportamento \u201ccripto religioso\u201d do homem 
profano. No decurso de nosso trabalho, teremos ocasião de encontrar outros 
exemplos desse tipo de degradação e dessacralização dos valores e comportamentos 
religiosos. Mais tarde nos daremos conta da sua significação profunda. 
 
Teofanias e sinais 
 
A fim de pôr em evidência a não homogeneidade do espaço, tal qual ela é vivida 
pelo homem religioso, pode-se fazer apelo a qualquer religião. Escolhamos um 
exemplo ao alcance de todos: uma igreja, numa cidade moderna. Para um crente, 
essa igreja faz parte de um espaço diferente da rua onde ela se encontra. A porta que 
se abre para o interior da igreja significa, de fato, uma solução de continuidade. O 
limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois 
modos de ser, profano e religioso. O limiar é ao mesmo tempo o limite, a baliza, a 
fronteira que distinguem e opõem dois mundos \u2013 e o lugar paradoxal onde esses dois 
mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o 
mundo sagrado. 
Uma função ritual análoga é transferida para o limiar das habitações humanas, e é 
por essa razão que este último goza de tanta importância. Numerosos ritos 
acompanham a passagem do limiar doméstico: reverências ou prosternações,