O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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toques 
devotados com a mão etc. O limiar tem os seus \u201cguardiões\u201d: deuses e espíritos que 
proíbem a entrada tanto aos adversários humanos como às potências demoníacas e 
pestilenciais. É no limiar que se oferecem sacrifícios às divindades guardiãs. É 
também no limiar que certas culturas paleoorientais (Babilônia, Egito, Israel) 
situavam o julgamento. O limiar, a porta, mostra de uma maneira imediata e 
concreta a solução de continuidade do espaço; daí a sua grande importância 
religiosa, porque se trata de um símbolo e, ao mesmo tempo, de um veículo de 
passagem. 
Depois de tudo o que acabamos de dizer, é fácil compreender por que a igreja 
participa de um espaço totalmente diferente daquele das aglomerações humanas que 
a rodeiam. No interior do recinto sagrado, o mundo profano é transcendido. Nos 
níveis mais arcaicos de cultura, essa possibilidade de transcendência exprime se 
pelas diferentes imagens de uma abertura: lá, no recinto sagrado, torna-se possível a 
comunicação com os deuses; conseqüentemente, deve existir uma \u201cporta\u201d para o 
alto, por onde os deuses podem descer à Terra e o homem pode subir 
simbolicamente ao Céu. Assim acontece em numerosas religiões: o templo constitui, 
por assim dizer, uma \u201cabertura\u201d para o alto e assegura a comunicação com o mundo 
dos deuses. 
O Sagrado e o Profano 
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Todo espaço sagrado implica uma hierofania, uma irrupção do sagrado que tem 
como resultado destacar um território do meio cósmico que o envolve e o torna 
qualitativamente diferente. Quando, em Haran, Jacó viu em sonhos a escada que 
tocava os céus e pela qual os anjos subiam e desciam, e ouviu o Senhor, que dizia, 
no cimo: \u201cEu sou o Eterno, o Deus de Abraão!\u201d, acordou tomado de temor e gritou: 
\u201cQuão terrível é este lugar! Em verdade é aqui a casa de Deus: é aqui a Porta dos 
Céus!\u201d Agarrou a pedra de que fizera cabeceira, erigiu a em monumento e verteu 
azeite sobre ela. A este lugar chamou Betel, que quer dizer \u201cCasa de Deus\u201d 
(Gênesis, 28: 1219). O simbolismo implícito na expressão \u201cPorta dos Céus\u201d é rico e 
complexo: a teofania consagra um lugar pelo próprio fato de torná-lo \u201caberto\u201d para o 
alto, ou seja, comunicante com o Céu, ponto paradoxal de passagem de um modo de 
ser a outro. Não tardaremos a encontrar exemplos ainda mais precisos: santuários 
que são \u201cPortas dos Deuses\u201d e, portanto, lugares de passagem entre o Céu e a Terra. 
Inúmeras vezes nem sequer há necessidade de urna teofania ou de uma hierofania 
propriamente ditas: um sinal qualquer basta para indicar a sacralidade do lugar. 
\u201cSegundo a lenda, o morabito que fundou El Hemel no fim do século XVI parou, 
para passar a noite, perto da fonte e espetou uma vara na terra. No dia seguinte, 
querendo retomá-la a fim de continuar seu caminho, verificou que a vara lançara 
raízes e que tinham nascido rebentos. Ele viu nisso o indício da vontade de Deus e 
fixou sua morada nesse lugar.\u201d É que o sinal portador de significação religiosa 
introduz um eleme nto absoluto e 
põe fim à relatividade e à confusão. Qualquer coisa que não pertence a este mundo 
manifestou se de maneira apodítica, traçando desse modo uma orientação ou 
decidindo uma conduta. 
Quando não se manifesta sinal algum nas imediações, o homem provoca o, pratica, 
por exemplo, uma espécie de evocatio com a ajuda de animais: são eles que 
mostram que lugar é suscetível de acolher o santuário ou a aldeia. Trata-se, em 
resumo, de uma evocação das formas ou figuras sagradas, tendo como objetivo 
imediato a orientação na homogeneidade do espaço. Pede se um sinal para pôr fim à 
tensão provocada pela relatividade e à ansiedade alimentada pela desorientação, em 
suma, para encontrar um ponto de apoio absoluto. Um exemplo: persegue se um 
animal feroz e, no lugar onde o matam, eleva se o santuário; ou então põe se em 
liberdade um animal doméstico \u2013 um touro, por exemplo \u2013, procuram-no alguns dias 
depois e sacrificam no ali mesmo onde o encontraram. Em seguida levanta se o altar 
e ao redor dele constrói se a aldeia. Em todos esses casos, são os animais que 
revelam a sacralidade do lugar, o que significa que os homens não são livres de 
escolher o terreno sagrado, que os homens não fazem mais do que procurá-lo e 
descobri-lo com a ajuda de sinais misteriosos. 
Esses poucos exemplos mostram nos os diferentes meios pelos quais o homem 
religioso recebe a revelação de um lugar sagrado. Em cada um desses casos, as 
hierofanias anularam a homogeneidade do espaço e revelaram um \u201cponto fixo\u201d. 
Mas, visto que o homem religioso só consegue viver numa atmosfera impregnada do 
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sagrado, é preciso que tenhamos em conta uma quantidade de técnicas destinadas a 
consagrarem-lhe o espaço. Como vimos, o sagrado é o real por excelência, ao 
mesmo tempo poder, eficiência, fonte de vida e fecundidade. O desejo do homem 
religioso de viver no sagrado equivale, de fato, ao seu desejo de se situar na 
realidade objetiva, de não se deixar paralisar pela relatividade sem fim das 
experiências puramente subjetivas, de viver num mundo real e eficiente \u2013 e não 
numa ilusão. Esse comportamento verifica se em todos os planos da sua existência, 
mas é evidente no desejo do homem religioso de mover se unicamente num mundo 
santificado, quer dizer, num espaço sagrado. É por essa razão que se elaboraram 
técnicas de orientação, que são, propriamente falando, técnicas de construção do 
espaço sagrado. Mas não devemos acreditar que se trata de um trabalho humano, 
que é graças ao seu esforço que o homem consegue consagrar um espaço. Na 
realidade, o ritual pelo qual o homem constrói um espaço sagrado é eficiente à 
medida que ele reproduz a obra dos deuses. A fim de compreendermos melhor a 
necessidade de construir ritualmente o espaço sagrado, é preciso insistir um pouco 
na concepção tradicional do \u201cmundo\u201d: então logo nos daremos conta de que o 
\u201cmundo\u201d todo é, para o homem religioso, um \u201cmundo sagrado\u201d. 
 
Caos e cosmos 
 
O que caracteriza as sociedades tradicionais é a oposição que elas subentendem 
entre o seu território habitado e o espaço desconhecido e indeterminado que o cerca: 
o primeiro é o \u201cmundo\u201d, mais precisamente, \u201co nosso mundo\u201d, o Cosmos; o restante 
já não é um Cosmos, mas uma espécie de \u201coutro mundo\u201d, um espaço estrangeiro, 
caótico, povoado de espectros, demônios, \u201cestranhos\u201d (equiparados, aliás, aos 
demônios e às almas dos mortos). À primeira vista, essa rotura no espaço parece 
conseqüência da oposição entre um território habitado e organizado, portanto 
\u201ccosmizado\u201d, e o espaço desconhecido que se estende para além de suas fronteiras: 
tem se de um lado um \u201cCosmos\u201d e de outro um \u201cCaos\u201d. Mas é preciso observar que, 
se todo território habitado é um \u201cCosmos\u201d, é justamente porque foi consagrado 
previamente, porque, de um modo ou outro, esse território é obra dos deuses ou está 
em comunicação com o mundo deles. O \u201cMundo\u201d (quer dizer, \u201co nosso mundo\u201d) é 
um universo no interior do qual o sagrado já se manifestou e onde, por 
conseqüência, a rotura dos níveis tornou-se possível e se pode repetir. É fácil 
compreender por que o momento religioso implica o \u201cmomento cosmogônico\u201d: o 
sagrado revela a realidade absoluta e, ao mesmo tempo, torna possível a orientação \u2013 
portanto, funda o mundo, no sentido de que fixa os limites e, assim, estabelece a 
ordem cósmica. 
Tudo isso sobressai com muita clareza do ritual védico concernente à tomada de 
posse de um território: a posse torna-se legalmente válida pela ereção de um altar do 
fogo consagrado a Agni. \u201cDiz se que se está instalado quando se construiu um altar 
O Sagrado e o Profano 
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de fogo (gârhapatya), e todos aqueles que constroem um altar do fogo estão 
legalmente estabelecidos\u201d